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Da arte do possível

por Pedro Correia, em 27.01.17

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«O ainda jovem Mario Vargas Llosa perguntou certa vez a Jorge Luis Borges, numa entrevista para a televisão francesa, o que era para ele a política. O grande escritor argentino deu-lhe uma resposta lapidar: "É uma das formas do tédio." Esta frase reflecte exemplarmente o carácter fastidioso da vida política, que só pode ser protagonizada com eficácia por quem sinta genuína vocação pela condução dos destinos de uma determinada comunidade - a nível de freguesia, município, região ou país - sem temer os choques que o exercício da governação sempre enfrenta.

A política é a arte do possível aplicada num momento muito concreto e numa circunstância muito específica: compete aos intelectuais como Borges, sonhadores e visionários por natureza, imaginar outros mundos, imunes à implacável e entediante lógica dos factos. Não admira que uma das primeiras recomendações que os políticos veteranos costumam dar aos seus jovens colegas é a de ajustar os desejos às realidades: em política, raras vezes compensa ter razão antes do tempo.»

 

Excerto do verbete POLÍTICA, do livro Política de A a Z

(edição Contraponto, 2017)

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8 comentários

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De Porfirio Tinto a 27.01.2017 às 18:14

Borges, à semelhança de Giovanni Papini de quem era admirador, nunca teve muito jeito para o ofício de viver. O seu reino não era deste mundo. Ao contrário de Llosa, que pela aparência mantida de algo que já não tem dança, ainda hoje, com Isabel Preysler.
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De Pedro Correia a 27.01.2017 às 21:40

E dizem que dançam bem, a Isabel e o Mario...
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De Anónimo a 27.01.2017 às 18:23

"...em política, raras vezes compensa ter razão antes do tempo.»
Em política e não só.
Também na vida social, profissional e familiar.
Talvez só nos negócios, em alguns negócios, seja compensador ter razão antes do tempo.
De resto, tal antecipação resulta numa carga de trabalhos, frustrações, rejeições... e vá lá que já não há as fogueiras da Inquisição.
" E, no entanto, a Terra move-se!"
É esta consciência que dói, que dói, que dói!
João de Brito
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De Pedro Correia a 27.01.2017 às 21:41

É certo. Nos negócios, ao contrário da política, compensa por vezes - e de que maneira - ter razão antes do tempo.
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De V. a 27.01.2017 às 21:57

Borges (talvez por influência dos Românticos ingleses — tal como F. Pessoa) pensava que uma sociedade de indivíduos evoluídos tenderia a não precisar de política e de estado (individualismo romântico). Há até um conto futurista que fala nisto, em que os indivíduos são primariamente consciência e memória (o velho Funes, estilizado) e dispensaram muitas das coisas que compõem o mundo actual. Acho que está no "Relatório de Brodie" ou coisa parecida. Nesse sentido Borges era um anarquista utópico — a versão intelectualizada dos estados e organizações se tornarem obsoletos no futuro em que as pessoas evoluíram para outro estado social.
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De Pedro Correia a 27.01.2017 às 22:02

Que um escritor tenha essas posições, nada tem de preocupante. Por mim, só começo a preocupar-me quando vejo políticos fazer o mesmo.
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De V. a 28.01.2017 às 17:12

Sim, de facto. Por definição a política deve ser tendencialmente pragmática.. E isto é um assupônhamos.
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De Pedro Correia a 07.02.2017 às 15:50

Pragmática, sim. Desde logo por ser a arte de fazer escolhas a todo o momento, atendendo às circunstâncias.
Quem não perceber isto falha no essencial.

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