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Fiquei feliz com o casamento de George Clooney, que é um rapaz da minha criação. Todo aquele ambiente de Hollywood clássico, o amor tirado de um livro de Hemingway, tudo isto encanta. Eu e o George nascemos no mesmo dia e, tendo em conta a diferença horária, julgo que nascemos mais ou menos à mesma hora. Somos gémeos de ascendência gémeos e no signo chinês ambos búfalo, mas desconheço os detalhes e as implicações, julgo que estarão envolvidos o yin, a água e o metal. Ambos temos aspecto de pessoas felizes e, se fôssemos cantores de ópera, ele seria o barítono que tentava impedir o meu amor com a soprano (felizmente, não canto, mas sou tenor).

Pelos meus cálculos, nasceram 380 mil pessoas nesse dia, mais ou menos um par de milhares e algumas centenas. Isto inclui apenas aqueles que sobreviveram ao primeiro ano de vida e é naturalmente uma estimativa grosseira. Muitos dos rapazes e raparigas da nossa criação já faleceram, vítimas de doença, acidentes, conflitos, mas julgo que haverá dezenas de milhares ainda vivos. É natural que os últimos morram algures na década de 70 deste século.

Se eu e o George nascemos no mesmo segundo, o que não sendo provável é apesar de tudo possível, haverá duas outras pessoas no planeta que também nasceram nesse segundo. Não sei se estarão vivas, mas teria sido bem pensado enviar um convite para o casamento. Nunca estive em Veneza. 

 

Eu e o George somos também primos afastados. Na pior das hipóteses tivemos um antepassado comum que viveu talvez há uns dois mil anos, mas é provável que os nossos laços familiares sejam mais recentes, com apenas alguns séculos. A noiva, a minha prima Amal, de deslumbrante beleza, também partilha comigo uma ascendência de Médio Oriente mas, no caso do meu ramo da família, emigrámos mais cedo para a Europa e por aqui ficámos.

Nas cimeiras europeias, no centro de Imprensa, costumava ser cumprimentado por jornalistas que não conhecia de lado nenhum, e em várias línguas. Era um clássico inexplicável. Até que encontrei o meu sósia, um jornalista italiano muito mais popular do que eu. Ficámos a olhar um para o outro, a tentar descobrir as diferenças e, a partir daí, sempre que nos víamos, inclinávamos a cabeça, num cumprimento simpático que parecia alguém a ver-se ao espelho. Quando fui ao Paquistão, as pessoas achavam que era iraniano. Comprei uma roupa local, chamada shalwar kameez, muito confortável e que me ficava a matar. Dizia que era europeu e as pessoas olhavam para mim, desconfiadas, identificando logo o ar de iraniano, apesar da elegante kameez

 

Não acreditam nesta parte? Também tenho dúvidas. Quando estou no estrangeiro, sou frequentemente abordado e fazem-me imensas perguntas: onde é a estação de comboios, onde é o museu, onde fica a rua não-sei-quê. Em Portugal, isso nunca acontece, ninguém me pergunta coisas a que sei responder. Na Hungria, as mulheres bonitas até olham para mim com interesse (isto é rigorosamente verdadeiro). Em Portugal, nunca olham, a ponto de achar que há qualquer coisa de errado com estas novas gerações. Certa vez, em Copenhaga, um cavalheiro cumprimentou-me ‘Salam Alaikum’ na rua e fiquei sem saber o que responder e só consegui dizer ‘salam’ em troca, o que julgo me denunciou de imediato, talvez por causa da pronúncia. Sei que estava escuro, mas o aeroporto do Cairo parecia bem iluminado por um sol esplendoroso quando perguntei a um funcionário onde era o terminal da Lufthansa e ele me devolveu a questão: ‘Você é Sírio?’

Ainda hoje não sei o que é que a Lufthansa tem a ver com a Síria, mas percebi a alusão do funcionário ao ver o George Clooney no filme Syriana, a fazer de mim, um bocadinho mais gordinho e desmazelado, cabelo e barba compridos, com aquele seu ar bonzinho e descontraído, num não te rales muito próprio dos rapazes e raparigas da minha criação, tirando aquele momento final do filme em que percebíamos toda a humanidade da personagem, quando esta compreendia que tinha falhado tão completamente.

É a diferença maior entre a fantasia dos filmes e o que imaginamos da realidade, pois aqui do outro lado, o falhanço não é bem assim, tão cinematográfico. É o viver que importa, maneira de conceber a mesma coisa, mas de forma diferente. Como dizia um amigo meu, isto anda tudo ligado, e como diria o meu sósia italiano, sendo tempo de encontrar um remate para esta confissão obscura: ‘tanti auguri, George’.

 

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14 comentários

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De Vento a 28.09.2014 às 13:16

:-)



Não estou nada satisfeito com o casamento dele. O tipo fisgou uma rapariguinha que estava certamente destinada para mim. E isto prende-se certamente com a geografia e não com o talento que ele possa exibir em relação a mim.
Sim, a geografia pode ser um empecilho. O rapaz fisgou-a num momento em que me encontrava em Portugal. Tenho a certeza que se tivesse seguido a recomendação do Passos a garina estava casada comigo e eu estaria hoje no Ministério dos Negócios Estrangeiros a negociar o crude a preços mais favoráveis para a nação.
Isto de um gajo não seguir os conselhos de pessoas experientes paga-se caro.

Dito isto, vou ali beber um café porque já vi umas gajas a babarem-se a olhar para mim. Um tipo tem de se resignar com o que tem.
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De xico a 28.09.2014 às 14:03

Você é pobre e mal agradecido! Há-de lembrar-se quando só o cão se babar por vê-lo...
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De Vento a 28.09.2014 às 22:18

Será mais uma resignação. Tudo isto é fado, tudo isto é triste, tudo isto existe:

http://www.youtube.com/watch?v=mi08umntK4I

Quanto à pobreza, diga lá a quem quer que eu agradeça?
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De xico a 29.09.2014 às 17:23

Às que se babam a olhar para si!
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De Vento a 29.09.2014 às 18:32

Tá bem, assim farei. Mas também agradeço a si pelo mesmo facto, por babar-se através dos meus comentários.
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De xico a 28.09.2014 às 14:00

Luís Naves, não se iluda com as húngaras! A mim aconteceu-me o mesmo. Devem fazer isso a todos os da geração do George Clooney!
De resto também acho uma maldade terem-se esquecido de o convidar. Iria adorar Veneza e, sendo de aparência moura, de certo encontraria a sua Desdémona, mas cuidado com os Iagos que por aí há: São muito traiçoeiros.
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De Helena Sacadura Cabral a 28.09.2014 às 19:01

Só não compreendo porque é que Clooney motiva tanta gente. Acho o rapaz poucochinho e, creio, quer o autor do post - excelente - quer os comentadores, me parecem pessoas bem mais interessantes que o George...
Quanto à garina todos têm efectivamente razão. É um pedaço de bom caminho. Mas se é inteligente e activista como dizem, por quanto tempo conseguirá ela ser fiel à Nespresso, tomando descafeinado todo o dia?
:-)))
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De Vento a 28.09.2014 às 22:34

Grato, Helena.

:-)
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De Maria a 30.09.2014 às 14:08

Não sei se os comentadores são mais ou menos interessantes visualmente, mas o Clooney, em minha opinião tem imenso charme e uma voz igualmente charmosa. a rapriga é muito bonita e acho que fazem um par visualmente muito bonito. Quanto ao resto só tentando adivinhar....
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De M.A. a 01.10.2014 às 11:24

Não zombem que o homem é lindo e a Amal linda é!
Roam-se, não parece nada mal.
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De Patrícia Reis a 28.09.2014 às 19:31

Ó Helena, a nespresso já tem descafeínado! A rapariga está segura, pelo menos nos próximos episódios. Dito isto, concordo contigo. Também não entendo o fascínio pela criatura George. O Luís será sempre bem-vindo, mas o George, bom, tem um porco como animal de estimação... Vento, lamento não ter conseguido fisgar o "bom pedaço":)
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De Vento a 28.09.2014 às 22:39

Obrigado pelo conforto, Patrícia. Mas quando um homem nasce para sofrer as estrelas deste fado nunca o largam.
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De Anónimo a 28.09.2014 às 20:33

Luís Naves, parece-me que o seu gémeo Clooney nasceu a 6 de Maio, o que faz dele Touro e não Gémeos.
Talvez seja por isso que ele não o convidou...
Antonieta
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De AEfetivamente a 29.09.2014 às 00:08

Ahhh, adorei! Apetecia-me comentar uma data de coisas aqui, mas fico por 3:
- estou feliz pelo casamento, super, adoro este "match" e espero que seja made in heaven
- não sabia que o Clooney era gémeos, agora já percebo porque gostava tanto dele, eu dou-me super bem com os meus colegas signos de ar :) :)
- também já percebo porque gosto tanto de ler o Luís e O Pedro Correia, entre outros, claro, está explicado

E sei que gostamos - nós, ar - do exótico. :) Ou não?
Excelente semana, Luís!

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