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Convidado: RUI ÂNGELO ARAÚJO

por Pedro Correia, em 26.04.17

 

Criar o futuro

 

Há talvez vinte anos, um fornecedor de produtos informáticos tentava convencer-nos de que a ausência de cedilhas e acentos no processador de texto do software que nos vendia não representava nenhuma limitação, já que no futuro, um futuro luminoso ali ao virar da esquina, esses detalhes da língua desapareceriam. Com o uso generalizado da informática, uma novilíngua agramatical impor-se-ia com naturalidade e júbilo, contra os info-excluídos velhos do restelo. Contudo, a empresa fabricante, apesar de estrangeira, não tinha as mesmas ideias visionárias do seu representante na província lusa: não tardou a haver actualizações do software que incluíam dicionário em português, com a vetusta cedilha e tudo.

 

O Público de há uns dias trazia um artigo de mais um destes seres tecnológicos ávidos de futuro, agora um espécime que, com espantosa presciência e originalidade, declara a morte do livro.

Não vale a pena perder muito tempo com o texto em si, a estultícia intrínseca da argumentação é suficiente para fazer dele um nado-morto. Interessa-me, porém, na medida em que um cadáver interessa a um médico-legista ou a um epidemiologista — ou talvez na medida em que interessa a um taxidermista —, interessa-me perder um minuto a identificar o gérmen de que se contamina a prosa e a determinar o instinto primitivo que leva alguém a cometer textos assim.

 

O preclaro articulista é designer e isso não diz nada sobre ele, porque nenhuma formação académica ou profissão determinam o brilhantismo ou a burrice do utilizador. Mas a malícia trouxe-me à memória aquelas revistas artísticas e literárias de gosto gráfico vanguardista que no dealbar do século XXI faziam sair do prelo páginas por vezes curiosas mas ilegíveis, como se na redacção se digladiassem o editor literário e um designer gráfico revanchista e este levasse a melhor. Não falo de experiências comemorativas do centenário modernista, com ideias futuristas de tipografia ou de mancha de texto, mas sim de ornamentação barroca, sobreposição e mescla de imagem, texto e formas geométricas, colorações infelizes e sem contraste, escalas inadequadas e caprichos afins que nas melhores das hipóteses pediam lupa e excelente iluminação e nas piores não deixavam de todo o ler o texto, caso ele fosse para ler.

 

livres-bouquins-bibliothèque-1560x1170[1].jpg

 

Quando o designer é em simultâneo amante de literatura sabe que nos livros e revistas, independentemente do suporte, o seu espaço de trabalho fica nas margens do texto, mas já nem sequer como nos fólios medievais, que a página precisa de respirar. Tirando tipografia, capas, folhas de rosto, índices, marcas de capítulos, etc., não há muito a fazer, quem lê não quer perturbações no seu campo visual, e quem escreve — a não ser que esteja em fase Apollinaire ou Mallarmé, ou pretenda ter o seu momento de fusão disciplinar, de importação gráfica de meios comunicacionais contemporâneos — também não quer dar ao seu leitor mais trabalho do que o de mergulhar no texto.

 

Mas atrevo-me a dizer que para o articulista do Público o livro não está a morrer por incompatibilidade com as novas realidades e interesses do design digital ou tecnológico. O livro morre porque os opressores devem morrer. É a emancipação da mediania (ou da mediocridade), por perversão democrática, que exige a condenação do livro. O autor, ao contrário do que diz e possivelmente acredita, não prevê o fim de uma época, mas exprime o desejo de um mundo à sua medida. Adivinha-se pelo artigo que a sua relação com o livro é a de vítima, não de cúmplice ou amante. Vítima por ter sido em algum momento do seu desenvolvimento traumático obrigado a pegar num contra a vontade. Vítima por o torturar a mera ideia de permanecer em silêncio algumas horas com um livro na mão. Vítima por ter intuído a sua condição de plebeu perante uma certa aura aristocracia dos literatos (uma classe na verdade hoje decadente ou pouco influente, mas que ainda provoca ódios e rancores, nem que seja pela memória do seu antigo ascendente social — o ressentimento, já se sabe, exige retroactivos e transmite-se por via genética).

 

Como o meu vendedor de software de há vinte anos, o cidadão médio, de que o nosso designer parece distinto exemplar, sonha com um mundo à sua imagem, sem cedilhas ou outras extravagâncias intelectuais que atrapalhem a irrequietude púbere e impaciente do frenético admirável mundo novo. Sonha com um mundo em que todos têm um só olho e ninguém é rei. É decerto fã do Got Talent.

 

Num outro texto, de 2014 (sim, dei-me ao trabalho de procurar outros cometimentos do articulista), o designer, ignorando o dicionário, enuncia translucidamente a sua condição, mas não da forma que imagina:

 

«Gosto de acreditar que, nós designers, somos “futurologistas”. Ou seja, somos peritos a criar o futuro, ou pelo menos a prever ou a antever os tempos ...» [Sublinhado meu.]

 

A chave está de facto em criar o futuro, não em prevê-lo. Designers ou sapateiros (a profissão é irrelevante), o wishful thinking que estes indivíduos tomam por pensamento filosófico e visionário transforma-se em gesto criador quando decidem não ler livros. E o gesto criador ascende a verdadeiro Genesis quando toda uma multidão decide eleger os seus iguais, confundindo democracia com mediocracia.

 

 

Rui Ângelo Araújo

(blogue OS CANHÕES DE NAVARONE)

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5 comentários

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De V. a 26.04.2017 às 10:56

Um dos maiores problema dos designers nacionais —além da estupidez e da moda— é que copiam tudo. No caso, um livro piroso de um canadiano (cujo nome não vou evocar aqui não vá mais alguém ter a tentação de ler as suas inanidades) que deve ter lido resumido em 10 pontinhos num link qualquer da defunta QBN, um bando de idiotas profundos sem salvação. Só o chamar-se a si próprio "designer" é uma forma odiosa de peneirice (e nalguns de paneleirice também: faz parte do pacote que compraram nos subúrbios)
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De lucklucky a 28.04.2017 às 15:49

O 25 de Abril foi o que mais travou e destruiu o design português. A partir dessa altura existiu uma clivagem política profunda entre economia e arte.

Cada artista tinha de ser de esquerda, pela mesma razão foi também o que destruiu o cinema português.
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De V. a 28.04.2017 às 16:09

Nas artes (e nas artes gráficas) é possível que tenha acentuado o carácter esquerdista da maioria das produções mas creio que foi mais determinante nas letras, na música e no cinema, como indicou. Quem não fizesse um filmezinho sobre o ultramar não via carcanhol de Bruxelas. Nas letras, quem não escrevesse sobre Angola, o 25 ou sobre o Benfica não leva o carimbo "Manuel Alegre"... O lado oficinal e mais abstracto das artes permite escapar a muita coisa. No teatro é que foi fatal — as artes de palco e os seus públicos ficaram reféns das tribos do Bloco.
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De Luís Lavoura a 26.04.2017 às 11:53

Não é só com os livros que isto ocorre. Muitas das modernas "aplicações" para smartphones mais não fazem do que reproduzir coisas que já anteriormente se podiam fazer com tecnologias mais simples, e portanto trazem pouco valor acrescentado. Por exemplo, envia-se uma mensagem com o WhatsApp quando dantes se enviava um SMS, ou chama-se um táxi com a Uber quando dantes se fazia uma chamada telefónica para a central de táxis.
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De Pedro Correia a 26.04.2017 às 14:22

Caro Rui: é um gosto recebê-lo aqui no DELITO - desta vez em discurso directo e não apenas em citação. Com um texto em que me revejo muito.

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