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Convidado: PEDRO ROLO DUARTE

por Pedro Correia, em 05.10.17

 

Amêijoas com os olhos em bico

 

(Nos últimos tempos, pelas mais diversas razões, a menor das quais não será o desinteresse pela rasteira vida politica portuguesa, ensaio contos baseados em factos reais, notícias de jornal, e procuro com isso tentar a ficção, por um lado, e olhar o país e os portugueses, por outro. Ofereço ao Delito de Opinião um desses ensaios. Não o levem a sério – quem sempre escreveu sobre a realidade tem sempre dificuldade em inventar por cima dela...)

 

Os homens perdem-se pela mais básica das tentações, já sabemos. Quase todas, diz quem quer generalizar. Mas o Sargento Barreto costuma afirmar, lá na messe, que nada o faz desviar da sua rota. A não ser... amêijoas! Os colegas gozam, riem, desafiam-no, mas há dez anos que ninguém o ouve dizer outra coisa no Quartel dos Bombeiros Sapadores de Vila Franca de Aguiar, onde presta serviço. Podem criticar-lhe muita coisa, mas falta de coerência é que não...

Barreto, 45 anos, é um homem alto e forte, mãos grossas e seguras, pouco cabelo numa cabeça luzidia e avermelhada, uma vida dedicada à corporação, passagens breves pelos bombeiros locais, e até um estágio em Lisboa. Por onde foi passando, o hábito nunca se perdeu: começar por descobrir a tasca, o restaurante, a cervejaria, onde a amêijoa “à bolhão pato” – mergulhada num mistura de alho, coentros, limão, azeite e temperos a gosto, e cozida até os bichos abrirem a concha e revelarem as suas “intimidades” ... – se apresentava do seu agrado. Chegou a comprar um bloco de apontamentos pequeno, dos que cabem numa algibeira da farda, para anotar as melhores mesas para aquela delicia, que lhe transformava momentos azedos em dias felizes. Contava, tentando explicar a tentação, que mesmo depois de confrontado com os mais selvagens incêndios, ou com imagens hediondas de cadáveres desfeitos, perdia a fome para o jantar dedicadamente feito pela sua Olímpia (que implicava com as “minudências” do seu homem...), mas não resistia a umas amêijoas, se as encontrasse por perto.

Há uns anos, porém, Barreto começou a notar uma ligeira mudança nas mesas dos restaurantes, especialmente nos da sua zona, ali mesmo junto ao Tejo. Cada vez havia mais amêijoa, mas o bivalve parecia-lhe diferente, talvez até alterado: a casca cada vez mais clara, raiada, o sabor desmaiado, como se o bicho sofresse de anemia, e um caldo final sem graça. Parecia que tudo tinha sido reduzido a uma sopa de alho. Ao mesmo tempo, começou a ouvir falar do negócio da “amêijoa japónica”, uma espécie importada dos países asiáticos, que teria a vantagem de se reproduzir mais rapidamente, e de se adaptar a qualquer tipo de ambiente, ainda que pudesse constituir perigo para a saúde publica, se não fossem salvaguardadas as devidas medidas de prevenção.

 

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O Sargento começou a perguntar aos seus amigos, donos de restaurantes, onde andavam eles a comprar aquela “espécie de amêijoa”, e aos poucos lá foi descobrindo que a praga estava em plena expansão: centenas de pessoas, cujos recursos eram escassos, recorriam à apanha da “japónica”, para ganhar a vida, calculando-se que chegavam diariamente às 15 toneladas de bivalves desta “raça” capturados sem qualquer controlo. Sachos, facas de mariscar, enxadas e tesouras, tudo servia para a apanha, sempre num jogo de gato e rato com as autoridades – a que Barreto pertencia, é certo, mas integrado numa brigada mais urbana e pouco ou nada ligada ao rio.

Em conversa com o dono do “Pão de Forno”, um dos seus tascos favoritos, Barreto tentou convencer quem o ouvia a não alinhar naquele crime – que além de ilegal e perigoso, dava cabo do sabor da sua única tentação. As respostas eram sempre as mesmas: a “japónica” é mais barata, o cliente nem dá pela diferença, e o desemprego ajuda a caucionar as alternativas. Além disso, esta amêijoa, ainda que seja proibida em Portugal, era bem valorizada em Espanha, para onde se vendia boa parte do stock de cada apanha.

Vencido pelo cansaço e pela argumentação dos que o rodearam na conversa com o Silva do “Pão de Forno”, Barreto não teve outro remédio. Na manhã seguinte, apresentou-se no Posto e disse ao Comandante Peralta que queria trocar a ronda da cidade pela caça aos apanhadores do Tejo. Apesar da falta de agilidade física não recomendar tal ousadia, o chefe percebeu o sentido profundo do pedido. Passou-lhe a guia de marcha.

Dois dias depois, os primeiros 683 quilos de “amêijoa japónica”, no valor de 2000 euros, estavam apreendidos nos armazéns da GNR de Vila Franca de Aguiar. E a guerra não parou mais. Até ao dia em que Barreto se sentou à mesa do “Pão de Forno” e voltou a sentir o aroma incontornável da “sua” amêijoa de sempre, a “amêijoa boa”, que não se chama assim por ser apenas boa, mas por ser a melhor que os apanhadores encontram nas baías, nos estuários, nas lagoas.

- Ah, agora sim, temos amêijoa no prato...

A missão estava cumprida, o fogo estava apagado.

 

 

Pedro Rolo Duarte

(blogue PEDRO ROLO DUARTE)

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5 comentários

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De V. a 05.10.2017 às 10:21

Vila Franca de Aguiar?
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De Helena Sacadura Cabral a 05.10.2017 às 13:41

Continua Pedro porque esta é uma "estória" à maneira!
Abraço
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De Isabel Mouzinho a 05.10.2017 às 15:18

Também gostei muito Pedro, como gosto de tudo o que escreve, mesmo quando não estou de acordo.
Que bom vê-lo por aqui...
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De Luís Lavoura a 05.10.2017 às 15:59

Deixa cá ver se entendo: o sargento Barreto acha que as amêijoas japonesas não são saborosas, porém os espanhóis compram-nas e comem-nas em grande quantidade e pagam bem por elas. Então, se calhar é o sargento Barreto que tem o paladar delapidado...
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De Pedro Correia a 05.10.2017 às 21:33

É um gosto redobrado ver-te novamente por cá, meu caro Pedro, e saber que estás de regresso à escrita, com a pedalada a que sempre nos habituaste.
Um abraço amigo.

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