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Convidado: LUÍS NOVAES TITO

por Pedro Correia, em 15.05.17

 

Arte urbana

 

Ao irrecusável convite de Pedro Correia, que reabre a porta do DELITO DE OPINIÃO aos seus camaradas dos blogs seis anos depois, respondo presente embora os anos tenham feito rarear a vontade de escrever na Barbearia onde já desunhei imaginação, a torto e a direito, para suavizar olheiras e escanhoar bochechas imberbes deitando, não poucas vezes, cal na água sempre que pretenderam deixar as paredes da loja no esquife.

 

Volto ao DELITO com uma reflexão sobre a última obra-graça de Bansksy.

Um homem de macaco, provavelmente um imigrado em Inglaterra - porque só esses andam de macaco e pendurados em escadas na terra de sua majestade - a desconstruir a estrela dos ilhéus deixando no seu lugar o vazio que se pressente ser o futuro do Continente cada vez mais deserto de autóctones.

201705BanksyBrexit58001.jpg

 

Não foi difícil chegar aqui. Na grande ilha nunca se guiou pela direita, nunca se trocou a libra esterlina pelo marco travestido de moeda única, nunca se contrariou a dinâmica americana em favor da solidariedade da União e, tirando a amizade pelas calientes águas mediterrâneas e atlânticas vizinhas do Al-Maghrib e pelo Oporto, nunca se levaram a sério as línguas românicas que, no dizer do Flying Dutchman dos tempos calvino-penitenciais em voga, só servem para gáudio dos prazeres da carne e da gula dos éteres.

Também não foi difícil lá chegar porque os continentais estrelados foram perdendo o gás e, em menos tempo do que qualquer outra constelação, murcharam em sabedoria e ideais e fizeram-se joguetes invertebrados dominados pelo medo, que dizem não ter, a burocratas e banqueiros que lhes extorquem o que resta da sua dignidade e condição histórica.

 

Volto ao homem de fato-macaco, alegadamente um migrante, neste espaço europeu que as gentes do norte do Douro poderiam designar por “morcão” e as do Sul do Seine por “Marcon” e onde os social-democratas abandonaram o social à sua sorte e os democratas-cristãos evoluíram para o ateísmo, para analisar mais fino a arte de Bansksy.

O operário, embora de balde à cintura, não usa o queirosiano pano encharcado em benzina (transportando Eça para o actual contexto europeu repleto de Abranhos), nem tão pouco repinta a estrela murcha com o azul do fundo. Prefere representar o proletário de marreta e escopro na mão a sacar nacos de tinta sem ferir o estuque de uma bandeira que tem por hino a nona de Ludwig, An die Freude, adaptada por Herbert para que todos os povos do Norte e do Sul o cantem afinados, dirigidos no ritmo pela batuta alemã.

 

E é isto, Pedro. Um barbeiro a fazer de crítico de arte, um analista a fazer de escritor.

Paz e saúde.

 

 

Luís Novaes Tito

(blogue A BARBEARIA DO SENHOR LUÍS)

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6 comentários

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De Pedro Correia a 15.05.2017 às 17:43

Meu caro Luís: tenho um enorme gosto em vê-lo novamente a escrever connosco aqui no DELITO. O meu caro é um dos patriarcas da nossa blogosfera e conquistou por mérito próprio um largo respeito mesmo da parte de quem não partilha por inteiro das suas opiniões. Porque nunca corta as pontes de diálogo com os outros, bem consciente de que nenhum homem é uma ilha.
Um forte abraço.

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