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Convidado: JOSÉ RICARDO COSTA

por Pedro Correia, em 01.09.17

 

Pequeno devaneio outonal em pleno Verão

  

Embora partilhem a mesma melancólica serenidade, gosto mais de pensar num cemitério como uma espécie de alfarrabista do que num alfarrabista como uma espécie de cemitério, preferindo assim, em ambos, vestígios de vida onde tudo está feito para que prevaleça a morte. É verdade que as prateleiras do alfarrabista mais parecem campas de autores, de títulos, de editoras, ou mesmo de aristocráticos jazigos do que foram outrora valiosas e luxuosas colecções, e que hoje, quando só há tempo para a mais fugaz novidade (dizer “escaparates” nunca foi tão apropriado), jazem, ignotas, na mais desconceituada escuridão, da qual apenas uns bibliófilos ousam resgatar. Mas por muito anémicas, tísicas ou aneurismadas que estejam pelo tempo, basta um par de olhos que saibam ler para os ressuscitar, ainda que como mera curiosidade histórica ou estética. Ora, o mesmo pode acontecer num cemitério. Não com os seus moradores, que dormem o seu tranquilo sono eterno, mas com toda uma retórica fúnebre que, embalada pelo tempo, também por lá foi adormecendo.  

Calhando ir a passar ali perto, resolvi entrar no cemitério da Lapa, mesmo ao lado da igreja onde repousa o liberal coração de D. Pedro IV, para um segundo abraço ao venerável Camilo, durante o qual pressenti de novo o seu lamento por ter aquele ignóbil músculo como vizinho, em vez do irmão inteiro, cuja companhia preferiria. Ter, em pleno mês de Agosto, e num dia em que outras zonas do país iam ardendo sob um Sol impenitente, manhã tão fresca, ainda para mais coberta por um romântico nevoeiro e salpicada por uns inofensivos pingos de chuva, é um luxo meteorológico que não iria desprezar, aproveitando-o para um higiénico e não menos pedagógico passeio de moderno flâneur por aquela ilha de pedra transformada em alfarrabista para quem o procurar.

Só a título de exemplo, veja-se a frase inscrita no túmulo do pintor Silva Porto. Por muito que seja o respeito perante uma ilustre figura que hoje parte, já não é possível uma dedicatória como esta, sendo por isso, letra morta:

 

1.jpg

 

Como será impossível, num tempo em que muitos alunos nem sabem os nomes dos professores (são o stôr de Matemática, a stôra de Inglês) esta dedicatória ao antigo professor:

 

2.jpg

 

Ou ainda esta informação prestada pelos filhos da baronesa de Fornelos sobre o pedido da mãe relativamente à sua última morada:

 

3.jpg

 

Como tantos livros que jazem nas prateleiras dos alfarrabistas, também já ninguém escreve sobre a pedra textos como estes para homenagear os mortos. Não porque não se queira, em virtude do nosso livre-arbítrio, mas porque não se pode. Tal como na Literatura. Sendo a língua a mesma, a portuguesa, poderíamos escrever romances como Herculano ou Camilo, lado a lado com os de Lobo Antunes ou Saramago, ou poesia como a de Maria Browne, João de Lemos ou Bulhão Pato com a mesma naturalidade com que o fazem Ana Luísa Amaral, Nuno Júdice ou José Miguel Silva. Mas não o fazemos pela mesma razão que não vestimos as suas roupas, não partilhamos a sua sensibilidade moral, não usamos as mesmas expressões ou gestos quotidianos: o tempo, essa camisa de forças que nos prende a uma época, não o permite.

Mas uma coisa é escrever, outra será ler. Se os museus continuam cheios de pintura que já ninguém pinta, se continuamos a ver filmes antigos que já ninguém realiza, se podemos apreciar vestuário antigo que já ninguém veste ou gostar de conhecer usos e costumes que ninguém segue, por que razão temos mais dificuldade com textos velhos? Talvez por falarmos ou escrevermos diariamente com a mesma naturalidade com que respiramos, acabamos por sentir mais o peso da sua antiguidade, a qual, instintivamente, rejeitamos no nosso quotidiano. Olhamos para uma pintura do século XVI ou para um filme mudo dos anos 20, e apesar de já não fazerem parte do nosso quotidiano, não relutamos em aceitá-los, sem que isso cause a menor estranheza. Porquê? Cá está, precisamente por já não fazerem parte desse quotidiano, permitindo uma margem de segurança que nos dá liberdade para gostar deles, sem medo de cairmos no ridículo.

Com a palavra, é muito mais difícil. Mas isso não é justo e nem sequer faz sentido. Gostar de ler Camilo ou Maria Browne não significa ser como eles do mesmo modo que gostar de ver dedicatórias antigas não quer dizer que um dia as façamos iguais. Acontece apenas que não há melhor porta para entrar num espírito antigo do que a palavra. A palavra não tem matéria, forma ou cor como a que vemos num vaso grego, num vestido renascentista ou numa escrivaninha do século XVIII, sendo também por isso que é através dela, seja num alfarrabista de papel ou de pedra, que as almas ainda vivas melhor entram na textura espiritual das que já o foram, resgatando-as mais uma vez da morte.

 

 

José Ricardo Costa

(blogue PONTEIROS PARADOS)

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5 comentários

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De flor a 01.09.2017 às 12:49

fico contente por saber que não sou a única a fazer "visitas de estudo" aos cemitérios :)

excelente prosa, como já é costume no José.
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De Luís Lavoura a 01.09.2017 às 17:55

Não é, de forma nenhuma. Eu também aprecio bastante visitar cemitérios.

Um bastante interessante é o cemitério judeu de Lisboa, que é uma parte do cemitério do Alto de São João. Vêem-se lá placas escritas em alemão, de filhos de judias alemãs refugiadas do nazismo.
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De Pedro Correia a 01.09.2017 às 12:58

Grato pela visita, Ricardo. E pelo excelente texto.
Pelo tema, fez-me revisitar este postal que publiquei há uns anos no DELITO:
http://delitodeopiniao.blogs.sapo.pt/4200356.html
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De Maria Dulce Fernandes a 01.09.2017 às 23:22

Os Cemitérios da Lapa e o da Ajuda conheço bem, por ir por lá algumas vezes "conversar". Há hábitos difíceis de perder.
Estive, por exemplo uma tarde inteira à chuva no Père-Lachaise e não vi nem li tudo aquilo que queria.
Excelente texto.
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De João Afonso Miranda a 02.09.2017 às 16:00

Devido à minha idade avançada, nasci no ano da Exposição do Mundo Português, sei bem do que fala.
Gosto de passear em cemitérios. Gosto de ver o passado, o que foi e o que é.
Visitar o passado mas com os pés assentes no presente.
Antecipando o futuro, o meu que não será muito longo e o dos meus.
É nesse sentido que gosto muito de visitar alfarrabistas. Comprar livros para os meus filhos e netos sabendo que alguns só serão lidos quando eu não estiver cá.
Gostei muito do seu texto, obrigado.

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