Saltar para: Post [1], Comentários [2], Pesquisa e Arquivos [3]




Convidado: JOSÉ MEIRELES GRAÇA

por Pedro Correia, em 20.04.17

 

Victor Lustig dos pequeninos

 

Sabe-se que o governo resulta de um imaginativo golpe de rins do PM, que trocou uma possível luta de faca nos dentes dentro do PS, decorrente da sua surpreendente derrota eleitoral, pelo poder de distribuir lugares no governo e no aparelho do Estado, que garante o sossego e a unanimidade das hostes. Fê-lo com o expediente simples, e inesperado, de atrelar comunistas a uma maioria parlamentar.

A jogada não havia sido prevista, e menos ainda discutida, na campanha, e não tinha precedentes. E como o PCP sempre se distinguiu, desde há quarenta anos, pela sua adaptação meramente táctica à democracia parlamentar, que aliás nos seus textos doutrinários continua a desprezar; nem se nota qualquer quebra de disciplina entre o seu pessoal político, que é inteiramente recrutado nas suas coudelarias privativas, que asseguram a opacidade e a reprodução do pessoal político por cissiparidade - são todos iguais: resulta que trazer comunistas para o poder não foi cousa pouca.

Acharam muitos, e eu também, que um governo destes não podia durar: António Costa, e com ele a camarilha dirigente do PS, não tem, sobre o governo do país, ideias substancialmente diferentes das que tinha Sócrates; a negociação permanente com o PCP e as vedetas bolivarianas do BE só podia reforçar o pendor despesista, estatista e terceiro-mundista da situação; e a UE cedo cortaria cerce as veleidades no derrapar da despesa, no aumento do défice e na continuação do financiamento.

O Orçamento confirmou as presunções: era inexequível sem agravamento do défice, não continha medidas sérias de reforma do Estado que facilitassem o crescimento e, cria-se, Bruxelas não o deixaria passar.

Mas deixou, com reservas e vigilância. O Orçamento foi o segundo golpe de rins de Costa, e desta vez duplo: aldrabou os patrões europeus pelo expediente de garantir o cumprimento das metas, custasse o que custasse, com a consciência de a UE não querer, por estar ela própria periclitante, dar as mesmas provas de intransigência que deu aquando do programa da tróica; e obteve aprovação dos seus parceiros apresentando-lhes um orçamento incompatível com as metas que traçava, que depois adulterou comprimindo as despesas mais caras à esquerda, aumentando os impostos que a mesma esquerda considera mais injustos, e dando um bodo fiscal às empresas, sob a forma de perdão fiscal e reavaliações. Para garantir o apoio da massa dos votantes retocou pensões e salários da função pública, mesmo ficando sempre aquém da propaganda que uma imprensa obsequiosa veicula, e estancou a redução de pessoal empregado no Estado.

Com isto, mais cativações e aldrabices menores, às quais de resto os governos da democracia sempre recorreram, apresentou o menor défice da democracia. Não foi, claro: O Conselho de Finanças Públicas acha que não, mas o que o eleitor vê e ouve todos os dias não é aquele Conselho, nem os discursos cépticos de economistas sérios, nem a Oposição que ainda há pouco deprimia toda a gente por não prometer um futuro radioso. O que vê é o optimismo nas declarações oficiais, a taxa de desemprego que baixa, a paz nas ruas que a CGTP garante e os bancos que recomeçaram a dar crédito ao consumo.

Jogada de mestre. Tão de mestre que eu, se fosse comunista, começava a perguntar aos meus botões se não estava a pagar caro demais o apoio: as sondagens mostram que o PS sobe nas intenções de voto e Costa, se tiver uma maioria absoluta, não hesitará em reverter, à menor pressão europeia, as cedências que já fez aos bandos à sua esquerda, porque não tem mais norte do que seja o interesse público do que as galinhas, que entendem que aquele interesse é onde estiver o milho.

 

António Costa e Mário Centeno, na Assembleia da República. Foto: Gustavo Bom/Global Imagens

 

Entretanto, a dívida pública continua a derrapar. E suponho que os Centenos, Trigos Pereira, mais a vasta floresta de académicos e funcionários que servem o poder do dia, muito devem coçar as pensativas cabeças sobre como aldrabar este indicador, que não cola com o resto. Se houver alguma maneira, encontrá-la-ão. E têm para isso suporte teórico: não é verdade que a economia vive da confiança e das expectativas? Pois então, dourar os números é, bem vistas as coisas, quase um dever patriótico. Sê-lo-ia, também, o trabalho de explicar como é possível que a dívida pública cresça mais do que o défice, mas os economistas ditos de direita têm-se poupado, que eu saiba, a esse excessivo trabalho, decerto por não terem acesso a números que estão escondidos nalgumas gavetas.

Estamos assim. E como a população só vê ao perto, e não tem nem quer ter óculos para ver ao longe; como a Europa finge que é míope, porque corrigir as dioptrias causaria de momento alguma perturbação noutros órgãos; e como a comunistada ou foi apanhada na sua própria armadilha ou aposta que quanto pior a prazo, melhor:

Portugal hoje está um torpor, tanto que Costa pode talvez durar. Para mim, isto é uma grande maçada, não tanto por estar excessivamente preocupado com as futuras e garantidas desgraças dos meus concidadãos - têm o que merecem - mas porque me enganei.

A União Europeia, o PCP, o Bloco, a maioria dos eleitores e eu - somos muita gente a ser enganada. Este homem ou é um génio, ou um crápula, ou um crápula de génio.

Génio não creio, porque lhe falta esta estatura.

 

José Meireles Graça

(blogue GREMLIN LITERÁRIO)

Autoria e outros dados (tags, etc)


4 comentários

Imagem de perfil

De Pedro Correia a 20.04.2017 às 14:03

Meu caro José Meireles Graça: é um gosto vê-lo por cá. Com a sua habitual verve, com a sua inconfundível irreverência.
Um abraço amigo.
Sem imagem de perfil

De Jorg a 20.04.2017 às 14:55

FNV no seu excelente blog "Depressão colectiva", condensa o que JMG detalha neste post numa história deliciosa que, feita a devida citação e vénia, aqui transcrevo:

"Casanova foge para Munique na companhia do padre Balbi ( que fazia amor desastradamente com todas as criadas das várias estalagens em que ficaram) e encontra a condessa Coronini, uma conterrânea ( veneziana) de 71 anos. Esta promete dar ao príncipe Eleitor uma palavra em favor de Casanova ( sabe-se lá porquê...) e lá vai ele reunir-se com o confessor do Eleitor, um jesuíta.

O padre conta-lhe que a cidade está envolvida num milagre: o corpo da imperatriz, ainda em exposição pública, mantém os pés quentes. Casanova foi confirmar. Sim, os pés continuavam quentes, porque virados para uma lamparina acesa.

O verdadeiro milagre é sempre a crença das gentes."
Sem imagem de perfil

De Costa a 20.04.2017 às 21:53

Acordei esta manhã ao som omnipresente da redução do desemprego, ao que parece para valores especialmente esperançosos. Assim chamavam repetidamente os senhores jornalistas - uma pena, ter que assim apontar o dedo - ao que o sr. primeiro-ministro teve o deslize (fugiu-lhe a boca para a verdade, dir-se-ia) de referir como queda no número de inscritos nos centros de emprego. Coisas assaz diferentes, enfim. Que talvez merecessem algum jornalismo de investigação.

Mas que interessam essas aborrecidas minudências da realidade, no tempo no novo tempo? De que cuidados necessita o chefe, quando a máquina processa com inabalável zelo e implacável competência a realidade? Pode dizer o que quiser e até ser, uma ou outra vez, perigosamente verdadeiro.

Os nossos concidadãos têm de facto o que merecem. E nós o que eles merecem.

Costa

Ps: que é apartidária a comunicação social portuguesa, sem compromissos políticos, já por aqui pudemos ler de voz autorizada.



Sem imagem de perfil

De M. L. a 21.04.2017 às 11:44

Na verdade, o seu texto espelha com rigor o que subtilmente se vai passando no país disfarçadamente agradado. A maior parte de nós continua descontente, disfarça-o aqui e ali abordando o tempo morno desfasado no calendário e salpicado com notícias muito trágicas que nos amargam o quotidiano. A. Costa não me enganou, nem me surpreendeu, tendo em conta as demarches que levaram ao afastamento de Seguro e companheiros. E com toda a comunicação social, ou quase, a tocar sob os mesmos acordes não vislumbro senão o torpor que refere. No entretanto; a súcia aplaudirá o 25 de Abril, data que genuinamente se assinala o fim de um período negro vivido por muitos de nós, mas que não retrata o sonho daqueles que arriscando a sua vida desejavam - um Portugal democrático, desenvolvido e feliz. Uma c@mbada de oportunistas e alguns falso-democratas têm dado cabo desse sonho.

Comentar post





Links

Blogue da Semana

  •  
  • Afinidades

  •  
  • Lá fora cá dentro

  •  
  • Mais ligações

  •  
  • Informações úteis


    Arquivo

    1. 2017
    2. J
    3. F
    4. M
    5. A
    6. M
    7. J
    8. J
    9. A
    10. S
    11. O
    12. N
    13. D
    14. 2016
    15. J
    16. F
    17. M
    18. A
    19. M
    20. J
    21. J
    22. A
    23. S
    24. O
    25. N
    26. D
    27. 2015
    28. J
    29. F
    30. M
    31. A
    32. M
    33. J
    34. J
    35. A
    36. S
    37. O
    38. N
    39. D
    40. 2014
    41. J
    42. F
    43. M
    44. A
    45. M
    46. J
    47. J
    48. A
    49. S
    50. O
    51. N
    52. D
    53. 2013
    54. J
    55. F
    56. M
    57. A
    58. M
    59. J
    60. J
    61. A
    62. S
    63. O
    64. N
    65. D
    66. 2012
    67. J
    68. F
    69. M
    70. A
    71. M
    72. J
    73. J
    74. A
    75. S
    76. O
    77. N
    78. D
    79. 2011
    80. J
    81. F
    82. M
    83. A
    84. M
    85. J
    86. J
    87. A
    88. S
    89. O
    90. N
    91. D
    92. 2010
    93. J
    94. F
    95. M
    96. A
    97. M
    98. J
    99. J
    100. A
    101. S
    102. O
    103. N
    104. D
    105. 2009
    106. J
    107. F
    108. M
    109. A
    110. M
    111. J
    112. J
    113. A
    114. S
    115. O
    116. N
    117. D