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Convidado: JOSÉ MARIA MONTENEGRO

por Pedro Correia, em 28.07.17

 

Um dó li tá

 

Sento-me no sofá, de comando na mão, ainda sem canal de destino.

Por defeito (no sentido supletivo do termo), a televisão abre o sinal com os desenhos animados.

Um dó li tá, ouvia-se de fundo.

 

Hesito entre os canais de notícias e de debate político – que tendencialmente se dirigem a mim – e os de desenhos animados – que tendencialmente se dirigem aos meus filhos (certo de que a segunda opção preenche os desejos destes, e com enormes dúvidas de que a primeira preencha os meus).

Um dó li tá (ficou a ressoar na minha cabeça).

 

Política ou desenhos animados? De repente dou por mim a pensar que não será assim tão grande a distância entre uma e outra opção. Sintomática e preocupantemente, há uma sintonia entre as diferentes sintonias. Se de um lado me oferecem a patrulha pata com a missão de defender o bem, do outro impõem-nos diferentes patrulhas com a missão de defender os seus (e, francamente, não sei se o bem).

 

Patrulha-Pata1[1].jpg

 

Preocupa-me a bolha cada vez mais nítida e distante em que habitam os políticos que nos dirigem e «representam». A cada episódio, a cada debate, a cada declaração, o fenómeno acentua-se. O modo infantil como somos tratados talvez seja o mais embaraçante. Mas a forma mais ou menos contorcida como a verdade nos é apresentada, a sensação indisfarçável de que quem nos fala de voz grossa está condicionado e é pouco livre, não augura nada de bom e devia preocupar-nos a sério.

 

Tanto nos contam (como quem conta) que tudo se deveu a um raio, como nos dizem que «se fez tudo o que era possível». Tanto nos oferecem demissões em barda de chefias menores, como nos prometem que não foi nada de especial e que o material roubado estava fora de validade. Tanto nos garantem que não houve cortes e que se batem recordes de défices mínimos, como nos enganam com termos pomposos que representam a mesma sorte (cativações, dizem). Tanto nos asseguram dignificar as vítimas com as respostas completas, como nos escondem testes prioritários de popularidade. Tanto, tanto, tanto.

Um dó li tá (não deixa de me ressoar).

 

Tratam-nos como se fôssemos criancinhas, sem capacidade para discernir, permeáveis apenas ao argumento de autoridade. Cada declaração, cada promessa ou explicação, transpiram falta de verdade, de pudor até, e de inteligência. Porque é pouco inteligente presumir-nos incapazes de perceber. E ainda é menos inteligente desprezar a degradação do ambiente entre «eles» e «nós». Sobra sempre a sensação de que não são livres. Para a transparência, para a verdade, para a seriedade dos «crescidos».

Um dó li tá (raios, que não me sai da cabeça).

 

Sinceramente, para ser tratado como criança prefiro o original.

Fico-me pelos desenhos animados e entrego-me, para gáudio dos meus filhos.

 

Um dó li tá, quem está livre, livre está (ouço agora a frase completa).

 

Parece uma declaração política. Pois. Não é assim tão grande a distância entre a política e os desenhos animados.

 

 

José Maria Montenegro

(blogue O PALACETE)

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4 comentários

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De Vlad, o Emborcador a 28.07.2017 às 13:32

Luís, neste momento tirando os desenhos animados, optámos, por uma questão médica, deixar de ver televisão. Os noticiários assemelham-se aos programas sobre a Natureza da NGeographic. O Leão a esfolar a presa e nós refastelados no sofá remoendo....porra que ainda à vidas piores que a minha...e se me desse para ter nascido gazela!!!À pois é. ..

Bons programas, excelentes documentários, premiados internacionalmente, andam aos magotes no YouTube. Aí sim, é onde, por hoje, passo os meus serões. O resto é lixo tóxico
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De Pedro Correia a 28.07.2017 às 15:53

Viva, José Maria. Registo com muito agrado esta sua estreia como autor no DELITO, enquanto colunista convidado. Gostei francamente do seu texto.
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De José Maria Montenegro a 28.07.2017 às 18:46

Muito obrigado pelo convite e pela generosidade do comentário. Abraço!
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De Zeus a 28.07.2017 às 21:52

Finalmente um texto, de quem percebe sobre o que está a falar.

Quanto a preocupações... temos poucas saídas porque a grande maioria, nem sequer percebe do que se está a falar, muito menos sobre preocupações reais e, garanto-lhe, bem tenho tentado.
Suponho que ter filhos aguça a nossa intuição e dá-nos mais motivação para pensar, a sério, sobre o Mundo que nos rodeia.
Por exemplo tem o Vlad, chega-lhe o "ainda à vidas piores que a minha".

"à" vidas, deve ser tipo... há vidas... "à" francesa, neste caso, à animal.
Nesta, tenho de lhe cair em cima porque, quando não percebe, nada, sobre o que estou a falar, até o cão me manda lavar quando nem sequer tenho cão mas, não interessa, parece ser um óptimo argumento para um debate de ideias.
Depois compara a vida dele à de uma gazela (Vlad, aqui é à porque não há nada de haver), quando a grande diferença, entre humanos e animais está, precisamente, não ter sido dado à gazela uma Consciência Moral nem Livre Arbítrio, para poder alterar o Mundo que a rodeia, apenas tem o instinto.
Mas quando as pessoas ficam satisfeitas com as suas vidas, quando as comparam com as vidas de animais... podemos esperar o quê?
Uma Sociedade tipo Selva.

Que gostei do seu texto, gostei e, foi quase uma brisa de ar fresco num Mundo onde os Humanos, "há" (este "há" é para o Vlad ) muito tempo que deixaram de Pensar como Humanos... um verdadeiro desperdício.
Pelo que li, está prestes a "acordar" para a Verdadeira Realidade do Mundo em que vivemos e, dicas, já as deixei por aqui... muitas ou "aos magotes" à moda do Vlad
Se a maioria não "acordar", só nos resta continuar como escravos e, eternamente, indo de mal a pior.

Somos uns "Spooky" para o Vlad e, ele nem deve ter ouvido o Elon Musk falar dos perigos da Inteligência Artificial que, dentro em breve, fará Tudo e Melhor do que os Seres Humanos mas, a essa parte ainda nem cheguei porque, se nem perceberam a verdadeira natureza da "gaiola" onde estão a viver e, por enquanto, as grades estarem apenas na mente mas, estão prestes a ser reforçadas na realidade física, quando nos tornarem, a todos, obsoletos.

Num Mundo Global, controlado por meia dúzia de Corporações, onde a finalidade é o Lucro, já começámos a ver, os vários processos, de como se estão a livrar dos "excedentes" (esta parte, para quem não a estiver a ver, nem pode ser contada porque parece ficção)

Ainda nem cheguei à parte de saberem que o corpo é nossa propriedade porque, a manifestação italiana contra o aumento do número de vacinas obrigatórias ou o Macronzinho em França a querer fazer o mesmo, sem falar no chip já colocado em empregados de empresas, canadianas, suíças, americanas... o seu instinto está certo porque, muita coisa "não augura nada de bom e devia preocupar-nos a sério" mas as mentes... "dormem" ou comparam a sua sorte à de uma gazela.

Se parece que o Mundo anda louco, vai ver quando chegar o 5G (Quinta Geração de internet móvel ou Quinta Geração de sistema sem fio), como os seres humanos vão passar a viver num ambiente tipo micro-ondas e, esta até me fez lembrar o Vlad, dizer ir meter a sopa de beterraba no micro-ondas... nem vai precisar de aparelhagem extra , basta segurar as beterrabas uns minutinhos, antes de as misturar com a água, já quentinha pelo mesmo processo.

Já estou a pensar usar o conselho do George Bernard Shaw:
"If you want to tell people the truth, make them laugh, otherwise they'll kill you"

Por aqui me fico porque, como sempre, já escrevi demais ;)

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