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Convidado: JOSÉ CATARINO

por Pedro Correia, em 18.08.17

 

O velho Défice, o neto Empréstimo e o burro Pibe

  

Com a despensa vazia, o Velho Défice resolveu ir aos Mercados. Albardou o Pibe, levou consigo o neto Empréstimo para aprender a comerciar. Contentes todos como a madrugada que se abria em luz, cantorias e promessas, por razões diferentes embora: Grandes negócios vamos fazer, e o Velho esfregava as mãos de contente. E o Neto Empréstimo, mais interessado no passeio, caras novas, a antecipar barracas de feira repletas de brinquedos, carrosséis e carrinhos de choque, finge interesse nos negócios: Como nos receberão nos Mercados?

Não vês tu este dia radioso, que nos augura negócio vantajoso?

Antes nada dissesse: logo o céu enegrece, vem o vento agreste, esfria o ar matinal, desaba forte temporal. Mau prenúncio.

E uma turista para outra, vinda dessas alemanhas, a pedalar rijo na bicicleta para perder as banhas: Coisa estranha esta é! O malandro do Velho folgado a cavalo, o pobre Moço a pé!

Acabrunhado, diz o Velho para o petiz apeado: Troquemos, monta tu o Pibe a cavalo antes que alguma alemoa nos pregue um estalo.

Comenta um loiro, finlandês talvez: Coisa nunca antes vista, a cavalo o rapaz, a pé o pobre velho já incapaz.

Montemos então os dois o Pibe, a ver se essas agências não ralham mais, diz o Velho Défice. Que dirão de nós nos Mercados?, demanda ao Empréstimo, sobrolho carregado.

Que fazeis, desalmados? Ah, não aparecer a Protecção dos Animais! Não vedes que assim o pobre Pibe esmagais?

Apeemo-nos, vamos à pata, que o Pibe siga seu caminho aliviado, até lhe solto a arreata.

Logo, logo, coro de protestos indignados: Coisa jamais vista, Défice e Empréstimo apeados para o Pibe se sentir aliviado!

E o Velho, sempre atento às vozes do Mundo: Levemos então nós o Pibe às costas.

Gargalhadas trocistas de uns deputados socialistas: O Velho Défice agora é avarento e carrega às costas o Jumento! E as moças do Bloco, para lhes não ficar atrás: Uma criança ajoujada sob o peso da montada! Para que quereis tal asno, a que Pibe chamais, se nele não montais, antes às costas o carregais como se fôsseis vós os animais?

E o Velho Défice, sem outras ideias, pergunta-me, como se a sábio se dirigisse: Diz-me tu, ó Zé, que muito estudaste, Que farei com esta montada, Pibe chamada, como contentarei as agências e calarei as vozes do Mundo, que faça o que fizer, me criticam a cada segundo?

E eu opino também: Devias saber, ó Velho, que quem quer ganhar eleições põe-nos o burro sobre o costado. Depois, é bem sabido, é sempre o povo o sacrificado.

 

 

José Catarino

(blogue JOSÉ CATARINO)

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4 comentários

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De Zeus a 18.08.2017 às 17:31

"Depois, é bem sabido, é sempre o povo o sacrificado"

Se é bem sabido, só uma minoria aprendeu porque continuamos a ver:
De um lado os fuinhas, uns agarrados às mordomias, outros ao Poder e ao dinheiro que este lhes dá, do outro lado, uma maioria, sem Consciência nem Alma, meros "sacos vazios de carne", insuflados pela aragem da ignorância.

No fundo, o povo só é vítima da sua própria ignorância porque os fuinhas apenas se aproveitam dela e, assim, até conseguem, dividi-los para melhor reinarem, pôr ovelhas contra ovelhas, para garantir aos credores externos que a Despensa continuará vazia, até eles se apoderarem, para sempre, não só da despensa mas, da casa Toda e, Respectivos Escravos.

Há muito tempo que não existe Nação e, sem Referendo, nem tinham autorização do Povo para a hipotecar, um Povo que foi muito bem manipulado, para estar "mais interessado no passeio, caras novas, a antecipar barracas de feira repletas de brinquedos, carrosséis e carrinhos de choque".

Podemos alertar, avisar mas, ignorância é uma escolha pessoal e, se a maioria optar por ela, sabemos quais serão as consequências e, desta vez, serão irreversíveis.
Vítimas, são as ovelhas que tentam avisar e ainda têm que aturar, além dos fuinhas, os ataques furiosos das ovelhas ignorantes que acreditam, mais depressa nos fuinhas, do que nos seus iguais.
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De José Catarino a 18.08.2017 às 22:31

Obrigado pelo comentário. O texto é despretensioso, da autoria de quem, como no poema de Pessoa, nada sabe de finanças, mas se encanta com a musicalidade das palavras.
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De Pedro Correia a 18.08.2017 às 19:15

Gosto de o ver novamente por cá, José Catarino. Com uma sugestiva actualização de uma história antiga, que sublinha esta evidência: cada cabeça, sua sentença. Hoje, como ontem, é impossível agradar a todos. E é até bem possível não agradar a ninguém.
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De José Catarino a 18.08.2017 às 22:27

Muito obrigado pelo convite. Como todos os portugueses, cansei-me de ouvir falar de Defice, Empréstimos e PIBE, e deu-me para actualizar a velha história, de todos conhecida, do Velho, o Rapaz e o Burro, pintando-a com linguagem que gostaria digna de mestre Aquilino Ribeiro no seu Romance da Raposa, a história da raposeta pintalegreta, senhora de muita treta.
Nem sempre nos podemos levar a sério...

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