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Convidado: JOÃO TÁVORA

por Pedro Correia, em 04.08.17

 

Mais uma crónica na Estação Tola

 

Se há altura do ano em que a conversa fiada e a especulação sobre a bola é legítima e até recomendável é nesta época estival, também conhecida como tola, em que as equipas se preparam e os adeptos se enchem de expectativas para as competições que tardam em recomeçar. Na verdade por estes dias o calendário futebolístico inicia-se cada vez mais cedo, um fenómeno que também vem acontecendo com o ano lectivo que roubou o mês de Setembro aos nossos miúdos que nem sonham como era ocioso e estruturante o longo Verão dos seus pais. Este ano o Campeonato Nacional que modernamente se chama “Liga” (os portugueses são peritos em mudar os nomes às coisas convencidos que dessa forma as mudam) começa na primeira semana de Agosto, entrando pelas nossas férias adentro, quando os adeptos deviam estar, não nas bancadas dos estádios, mas à beira-mar a ler preguiçosamente novidades sobre reforços milagrosos e as tácticas inexpugnáveis que dizimarão os nossos adversários, atrasando a leitura do clássico que estava prometida para estas férias.

 

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Mas a verdadeira e grande novidade da época futebolística que se avizinha é sem dúvida o vídeo-árbitro. Este novo actor, mais do que revolucionar o futebol que passará a ter mais uma ou outra paragem inócua, que estou convencido trará mais justiça e transparência à disputa, acima de tudo promete incendiar ainda mais a indústria do comentário futebolístico em grande expansão nos canais da televisão por cabo. A coisa promete, pela simples razão de que muitas das decisões dos árbitros, mesmo com a ajuda do vídeo, continuarão a ser subjectivas e falíveis, dependendo da perspectiva (da cor da camisola) do observador: o milímetro a mais ou a menos do fora de jogo indefinido, a bola na mão ou a mão na bola dentro da grande área - ou a milímetros do seu limite; já para não falar da apreciação à intensidade do contacto do defesa que derruba – ou não - o atacante e da (in)justiça do consequente castigo máximo. Com a agravante das decisões de agora em diante provirem de uma análise ponderada. Por isso não vão faltar teorias da conspiração e toda a sorte de condenações e pressões sobre… o vídeo-árbitro. Se é previsível que o uso das tecnologias irá beneficiar a justeza das decisões em campo e o futebol atacante em geral, o vídeo-árbitro passará ele próprio a ser mais um inevitável protagonista do espectáculo, condenado umas vezes, exaltado outras tantas, em debates insanos por essas televisões afora.
Pela parte que me toca, continuarei a privilegiar o espectáculo do futebol dentro das quatro linhas, onde ele possui uma inegável e entusiasmante beleza. O seu prolongamento será feito à maneira antiga, ao vivo e com alma, à boa conversa ao balcão do café com os vizinhos, ou com os amigos numa aprazível esplanada. Venha daí então o campeonato que desta vez é que vamos ganhar.

 

 

João Távora

(blogue CORTA-FITAS)

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4 comentários

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De Anónimo a 04.08.2017 às 10:46

"Pela parte que me toca, continuarei a privilegiar o espectáculo do futebol dentro das quatro linhas, onde ele possui uma inegável e entusiasmante beleza."

Já somos dois!
Mas eu vou um pouco mais longe: não privilegio - reduzo.
O mundo cor de rosa do futebol há muito que me entedia.

Viva o Benfica!
Mas pouco.

João de Brito
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De Costa a 04.08.2017 às 16:04

Na grande maioria dos casos, a leitura do clássico na verdade não estava prometida para as férias. É - com a evidente excepção do autor (que sigo habitualmente no seu blogue), do responsável por este blogue em que agora comento e certamente de bem mais pessoas - coisa que nem passa pela cabeça do atento leitor de um, ou mais, dos vários jornais diários (diários!) desportivos. Para esse leitor a palavra "clássico" é até bem amiúde invocada. Mas com um significado completamente diferente.

Leitor, na verdade, de jornais de uma só modalidade desportiva e cujos seguidores têm até o desplante de reduzir o resto da actividade desportiva à obscura condição de "modalidades". A quem esse jornais concedem página e meia, talvez, depois de longos textos sobre o corte matinal das unhas dos pés de um Ronaldo ou afim (e, claro, da exibição dos glúteos, ou peça anatómica igualmente virtuosa, da sua mais recente namorada ou candidata ao lugar). E esses hábitos de leitura, sim, é que são uma lástima...

Ou talvez muito patrióticos.

O resto são minudências dos amantes de futebol. Façam favor de as viver e discutir, da genial ou absurda opção do treinador ao décimo de milímetro da posição da bola ou do jogador. E, bem entendido, dissecando o menor parágrafo da douta obra doutrinal desenvolvida por um dos distintos membros do nosso excelso Olimpo de comentadores de futebol. Tudo sempre entre conferências de imprensa na "cidade do futebol" ou numa das várias "academias" da bola, onde semi-analfabetos produzem diariamente inanidades, tomadas como palavra da salvação por jornalistas sussurando em temerosa voz a revelação assim produzida.

Por mim, egoisticamente, lamento morar a meio caminho entre dois estádios de futebol localizados bem perto um do outro. Gosto do sítio - tanto quanto se pode "gostar" do caos lisboeta -, mas sei o que me espera, semanalmente ou quase, a partir do início da liga ou campeonato, ou divisão, ou lá o que seja. E com toda a impunidade.

E vivam os canais de notícias, filmes, séries e documentários. Estrangeiros, claro.

Costa
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De Pedro Correia a 04.08.2017 às 17:57

Bem-vindo aqui ao DELITO, João. Com um texto bem oportuno. Abraço.
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De João Távora a 04.08.2017 às 18:36

Muito honrado pelo o teu convite.
Saudações leoninas!

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