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Convidado: JOÃO MARCHANTE

por Pedro Correia, em 09.08.17

 

Histórias de bibliófilos

 

Ainda sou do tempo em que entrando em qualquer boa casa portuguesa logo se avistavam livros. Nalguns casos, com direito a livraria (fórmula pela qual era designada a biblioteca particular, antes do comércio se ter apropriado totalmente da palavra). Hoje em dia, pelo contrário, são escondidos nos corredores, quando existem. A mudança deu-se numa só geração.

Dizem-me agora que os livros já não têm valor e que ocupam muito espaço. Assim, viúvas e filhos quase que pagam para se verem livres dos livros deixados por quem muitas vezes levou uma vida inteira a coleccioná-los.

Nestas andanças, um coleccionador designa-se por bibliófilo — alguém que tem amizade aos livros. Movido por esta amizade, que logo passa a paixão e culmina em amor, o bibliófilo não resiste a parar e entrar em todo e qualquer sítio que tenha o objecto do seu desejo, desde a livraria comercial, com as últimas novidades nos escaparates, até — e principalmente — aos velhos alfarrabistas, que contêm as obras antigas e raras, ou apenas arredadas do mercado, pois que cada vez mais, na sua febre de lucro, as lojas reenviam para as editoras os livros não vendidos, após uma ou duas semanas, para darem rapidamente lugar a outros acabados de vir a lume; e, assim, pouco depois, como que por artes mágicas, os primeiros aparecem nos livreiros-alfarrabistas. Esta velocidade pode mesmo ser alucinante.

Certa vez, aconteceu-me receber um convite para o lançamento de um livro, ao qual não pude comparecer. No dia seguinte, à hora do almoço, passei num alfarrabista e aí estava essa monografia à venda, com dedicatória e tudo! Alguém lá foi, o comprou (ou recebeu como oferta do autor), recolheu o autógrafo do escritor, leu-o na diagonal ao serão, e de imediato o empandeirou na manhã seguinte.

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Mais triste do que isto só mesmo quando me deparo com livros à venda marcados por ex-libris de pessoas com quem convivi e admirei e sei terem descendentes directos, os quais optaram portanto por nem sequer dividi-los entre si nas partilhas. Às tantas, mais valendo isto, porque possibilita um bibliófilo criterioso comprar essa biblioteca, ou núcleos dela com interesse, fazendo-a até chegar a uma instituição pública nacional, onde todos os que gostam de ler possam ter acesso às obras, do que ir a casa de alguém e ver nas prateleiras, à laia da biblots, ao sabor das cores das encadernações, livros dispersos de obras em vários volumes — uma enciclopédia, a obra completa de um escritor, etc.

Para rematar estas histórias trágico-cómicas, não resisto a contar aqui a melhor que presenciei: estando eu numa loja dum conhecido livreiro-alfarrabista, vejo entrar uma emproada criatura de meia-idade, toda aperaltada, que dispara para a jovem que lá estava a trabalhar: «Tem livros antigos de Direito?». Responde a rapariga: «Que autores procura?» Vocifera a serigaita: «O que eu quero são boas encadernações, para o escritório do meu marido». Conclui a empregada, revelando-se bibliófila: «Enganou-se no sítio, isto aqui não é uma loja de decoração».

Bibliófilo é pois alguém que tem um profundo respeito pelos livros, como entes amados, e dedica grande parte do tempo ao seu convívio — procurando-os, mirando-os, namorando-os, acariciando-os, cheirando-os, conquistando-os, aprendendo com eles, guardando-os perto de si. Note-se que o bibliófilo tem em princípio e por princípio um género preferencial ao qual dedica as suas apaixonadas energias de busca e aquisição; por exemplo: Poesia inglesa, ou História de Portugal, ou Romance francês do século XIX, ou Incunábulos, ou primeiras edições de Camilo e Eça, ou Livros de Arte, etc. e tal.

Ah!, e há ainda, por estranho que pareça, um pequeno nada que é tudo: o bibliófilo lê os seus livros.

Por fim, contrariamente a outros amores, este pode e deve ser partilhado. Surgem assim as tertúlias literárias, que têm como principal tema os livros e que servem para despertar ou consolidar amizades entre pessoas com afinidades culturais. Aí se partilham experiências, se mostram livros, se fala sobre eles, e muitas vezes surgem projectos comuns. Também estes encontros, infelizmente, se têm vindo a perder, invocando alguns membros destes grupos a famigerada «falta de tempo», que faz pendant com a «falta de espaço», a tal que leva a expulsar os livros de casa.

 

 

João Marchante

(blogue ETERNAS SAUDADES DO FUTURO)

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10 comentários

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De Maria Dulce Fernandes a 09.08.2017 às 13:04

Como pessoa que nunca " empandeirou " um livro, adorei ler está publicação.
É a mais pura realidade, mas em grande parte é até compreensível. O boom da informática roubou grande parte do prazer da leitura. Já tínhamos visto algo semelhante ... https://youtu.be/W8r-tXRLazs
Nunca consegui incutir na minha prole o prazer de ler. Fizeram-no sempre por obrigação nunca por gosto. É absolutamente verdade que o prazer da leitura de livros em papel como recreação ou pedagogia pulou uma geração. Um factor a apontar é também redução dos apartamentos e moradias em termos de espaço e arrumação. Eu tenho-me com fiel depositária de todos os tomos desta família, que se foi repartindo em vários núcleos, deixando os livros nas prateleiras da casa paterna por "falta de espaço", actual designação de falta de interesse...
Nem nos meus sonhos mais atrevidos apetece a imagem das minhas crianças a ler um livro, quanto mais reler um livro, um dos meus passatempos favoritos. Dizem que nunca devemos voltar aonde fomos felizes. Não é verdade. Eu volto constantemente ao lugares e tempos que me dão prazer revisitar, viajando pelas folhas, algumas bem velhinhas dos meus livros de eleição.
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De João Marchante a 09.08.2017 às 21:27

Bem haja pelo seu simpático comentário, Maria Dulce.
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De Pedro Correia a 09.08.2017 às 14:06

Bem-vindo novamente ao DELITO, João. Com este texto que expressa um sentimento partilhado por vários de nós: o amor aos livros.
Um amor que o tempo não corrói, só consolida.
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De João Marchante a 09.08.2017 às 21:24

Eu é que lhe agradeço o convite e a hospitalidade, Pedro. Certeiras palavras, as suas. Na vez anterior falei de filmes, desta de livros, na próxima (se me quiserem de novo na vossa magnífica casa) tentarei alinhavar umas ideias sobres mulheres — completando assim, e ficando para o fim o princípio de tudo, uma trilogia sentimental muito minha.
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De Vlad, o Emborcador a 09.08.2017 às 14:41

A verdadeira tragédia de todo o bibliófilo é quando se sabe já não haver mais tempo. Olhá-los e sabê-los para sempre esquecidos
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De João Marchante a 09.08.2017 às 21:30

Obrigado pelo seu filosófico comentário, Vlad, o Emborcador.
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De BELIAL a 16.08.2017 às 21:31

As mudanças...as mudanças...

Mudei de casa 10 vezes, 6 depois de ir construindo a livraria.
Aos 56 anos já não alombo mais.
Maoiria está num duplex.
Autores portugueses, de que gosto mais, estão no apartamento mais pequeno que habito.
Julgo que um dia aprenderei a escrever com eles.
Sobretudo, sec 19 até Vieira.
Uma quimera.
Como vou sempre adquirindo mais, quando em vez lá vai um carrego pro duplex.
Tirando eu, cá em casa, não lhes ligam nenhuma. Ou quase.
Empandeiro-lhes biografias, que leio e junto.
Enfim, haja vício tão molesto...
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De João Marchante a 17.08.2017 às 20:02

Agradeço a interessante partilha da sua apaixonada lide com os livros, BELIAL. Já agora, quando escreve «Sobretudo, sec 19 até Vieira», refere-se - recuando no tempo - ao Padre António Vieira ou - avançando - a Afonso Lopes Vieira?
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De BELIAL a 22.08.2017 às 09:18

Todos.
De antónio vieira a afonso lopes vieira.

Em menino li-o nos livros de leitura da escola primária.
Em adulto li-o nalgumas obras - e na net.

Autor homiziado - muito injustamente.
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De João Marchante a 25.08.2017 às 21:05

Bem haja pela sincera resposta.

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