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Convidado: JOÃO LISBOA

por Pedro Correia, em 26.05.17

 

Utopias

 

Ia jurar ter lido algures que, acerca de Marx – Karl, não Groucho – , alguém terá dito que fez todas as perguntas certas e deu todas as respostas erradas. Procurei o autor mas não fui capaz de descobri-lo. Caso o consigam, agradeço. Se não, podem sempre atribuir-me a citação. Até porque, com autor devidamente identificado (Voltaire), há outra pelo menos tão eloquente: “Devemos julgar um homem pelas perguntas que faz mais do que pelas respostas que dá”.

Em Janeiro deste ano, “Le Monde”, numa das suas publicações “hors-série”, actualizava “L’Atlas des Utopies”, lançado pela primeira vez em 2012. Quase 200 páginas, outros tantos mapas e 25 séculos de História repletos de perguntas e respostas. Mas, naturalmente, num inventário que vai da propriamente dita “Utopia” – acerca de cujo autor os académicos hesitam: se muitos pensam ter sido Thomas More, outros, adeptos das “teses de Boliqueime” de um doutor honoris causa em Letras pelas universidades de Goa e Heriot-Watt, de Edimburgo, juram tratar-se de Thomas Mann – à “República”, de Platão, ao esperanto (designação anterior daquilo a que, hoje, chamamos “inglês”), às comunas owenianas, fourieristas, comunistas, socialistas e anarquistas (para cima de uma centena de covis de bisavós hippies), ou às profecias de Marx – Karl, não Groucho –, a utopia primordial é, sem dúvida, o Paraíso bíblico (ou Jardim do Éden), sobre o qual, mais do que exigir respostas, há imensas perguntas a fazer.

Umberto Eco, por exemplo, em “Serendipities: Language and Lunacy”, interrogava-se a propósito de um perturbante mistério: se, em Génesis 2:20, Adão teve por missão dar nome “a todos os animais: os rebanhos domésticos, as aves do céu e a todas as feras”, quem (sim, quem?) nomeou os peixes? Aliás, logo a seguir, surge outra dilacerante dúvida: se, em Génesis 1:27, lemos “E criou Deus o homem à sua imagem; à imagem de Deus o criou; homem e mulher os criou”, por que divino raio, em inexplicável raccord com o episódio da bicharada, somos testemunhas de um Jeová que, verificando que  "Não é bom que o homem esteja só; farei para ele alguém que o auxilie e lhe corresponda”, não apenas pratica o primeiro acto cirúrgico precedido de anestesia – “Então o Senhor Deus fez o homem cair em profundo sono e, enquanto este dormia, tirou-lhe uma das costelas, fechando o lugar com carne” – como realiza uma pioneiríssima clonagem transgénero: “com a costela que havia tirado do homem, o Senhor Deus fez uma mulher e a trouxe a ele” (Génesis 2:21, 22)!... Onde pára, então, a miúda que nos tinha sido apresentada em Génesis 1:27?

 

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Poderá não ser a melhor resposta mas, algures entre os séculos VIII e XI, alguém arriscou dá-la, no “Alfabeto de Ben Sirach”. Afinal, no original, deveria ler-se assim: “Depois de ter criado Adão, Deus disse: não é bom que o homem esteja só. Criou, então, da terra, uma mulher para Adão, tal como o havia criado a ele e chamou-lhe Lilith. Adão e Lilith começaram imediatamente a desentender-se. Ela disse, ‘Não me deitarei por baixo de ti’, e ele disse ‘Não me deitarei por baixo de ti, apenas por cima. Foste feita para ficar por baixo e eu por cima’. Lilith respondeu ‘Somos iguais porque fomos ambos criados da terra’. Mas não chegaram a acordo e, quando Lilith se apercebeu disso, pronunciou o nome inefável e voou pelos ares”. Ou seja, tudo terá tido origem numa inconciliável diferença de preferências sobre posições coitais: enquanto Adão era adepto da que – por boas razões – viria a ser conhecida como “do missionário”, Lilith era, decididamente, uma “cowgirl”.

Os sarilhos de Adão com mulheres continuariam com a segunda concubina, Eva. Por um motivo, aliás, teologicamente peculiar: em Génesis 2:16, Jeová, para autorizar o casal a viver no Eden Condominium, obrigara-o contratualmente a uma condição “De toda a árvore do jardim comerás livremente, Mas da árvore do conhecimento do bem e do mal, dela não comerás”. Traduzindo: uma vez que “o conhecimento do bem e do mal” é aquilo a que chamamos moral, se pretendiam permanecer eternamente felizes, não deveriam preocupar-se sequer com tais ninharias. E, a fazer fé (pois é disso que se trata) na maravilhosa representação do fellatio interruptus no qual Miguel Ângelo os apanha no tecto da Capela Sistina, cumpriam à risca o acordo. Momento dramático esse, porém: é justamente nesse instante que, enroscada na árvore, a serpente oferece o fruto proibido (como vimos antes, a moral) à compreensivelmente distraída Eva. E nova perplexidade surge: de cabeça perdida, Jeová vira-se para o surpreendido réptil e amaldiçoa-o: “Rastejarás sobre o teu próprio ventre!” (Génesis 3:14). Seguramente, mais tarde ou mais cedo, a paleontologia criacionista haverá de descobrir provas da existência de serpentes bípedes ou quadrúpedes contemporâneas de Adão e Eva. Mas, numa história que começou tão problemática e só pode ter prosseguido com um reprovável festival de incesto, é capaz de ser optimismo demasiado pensar em utopias.

 

 

João Lisboa

(blogue PROVAS DE CONTACTO)

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8 comentários

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De Anónimo a 26.05.2017 às 11:59

O Adão é criatura de Deus.
Mas acontece que Deus é criatura do Homem.
A ordem do conhecimento é inversa à ordem dos acontecimentos.
Daí, confundirmos dois conceitos, muito parecidos no nome, mas opostos na essência - causalidade e casualidade (seguindo a ordem do conhecimento).
É a ótica da causalidade que nos conduz à ilusão lógica de Deus.
A ótica da casualidade faz-nos intuir um Caos em movimento.
A ótica da Fé, essa, é a forma de superar ou sublimar toda esta confusão.
E é por isso que a Fé não se discute.
No meio disto tudo, surge a Ciência, muito séria, que se julga pretensiosamente superior, porque baseada na experiência.
Puro engano.
Pela lógica das coisas, num Caos em movimento, essa experiência só pode valer para um determinado momento, embora momento cósmico.
O Caos, por definição, não é cientificável (não sei se a palavra existe ou se acabo de a criar!...).
E, por CAUSA da fome (é a este nível que a causalidade faz sentido), vou tratar do almoço.
João de Brito

João de Brito
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De Einstürzende Neubauten a 26.05.2017 às 12:38

Do conhecimento da Ordem surge a ordem do Conhecimento. E pela Ordem do acontecimento, a Ordem do Conhecimento. Mas todo o acontecimento é, por definição, processo e todo o processo, momento. E todo o momento diverso, ou não fosse ele, acontecimento. E o Caos é o Momento de todos os momentos que alimentam o Momento nunca único num momento.

Vou almoçar uns cogumelos.
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De Einstürzende Neubauten a 26.05.2017 às 12:24


https://www.youtube.com/watch?v=PVMTniH0Lls
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De jj.amarante a 26.05.2017 às 15:36

Googlando (marx asked all the good questions but gave all the wrong answers) cheguei aqui: (https://books.google.pt/books?id=x4t_9rIHHUkC&pg=PA163&lpg=PA163&dq=marx+asked+all+the+good+questions+but+gave+all+the+wrong+answers&source=bl&ots=lTMtEncY4v&sig=GSwYI8NysDlMPzlIGWAxqu5bdog&hl=pt-PT&sa=X&ved=0ahUKEwj-x8Lq4Y3UAhWB1xoKHQFNByoQ6AEIPTAE) onde diz na página 163:
"It would be too simple to say that Schumpeter believed that Marx had asked the right questions but given the wrong answers to them,..."
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De João Lisboa a 26.05.2017 às 15:57

Obrigado.

Não foi, directamente, daí, de certeza. Provavelmente, alguém que o cita. Mas continuo sem recordar quem e onde...
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De Pedro Correia a 26.05.2017 às 18:44

Grande texto, João. Na linha de outros que tão bem conheço.
Obrigado por este regresso ao DELITO.
Um abraço.
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De João Lisboa a 27.05.2017 às 13:27

Não tem de quê.

Abraço.
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De Rui Herbon a 31.05.2017 às 17:17

Muito bom texto, como seria de esperar.
Um abraço ao João Lisboa.

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