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Convidado: FRANCISCO FREIMA

por Pedro Correia, em 07.07.17

 

Recordar Eminescu

 

Deparei-me com a obra de Mihai Eminescu durante a minha estadia em Brăila, na Roménia. Um dia estava na Biblioteca Panait Istrati quando por lá apareceu um velhote que queria conhecer os novos voluntários. Pelo apelido, o Sr. Furtuna seria um falso amigo (furtuna significa tempestade em romeno), mas a verdade é que a sua erudição albergava autênticos tesouros. Na altura nem deu para falar muito, tinha começado a aprender o idioma e a única língua estrangeira que o Sr. Furtuna dominava era o russo. Desejei ser Zorba, o bom demónio de Nikos Kazantzaki, para expressar através da dança tudo aquilo que eu fora até esse momento. Felizmente, nos primeiros tempos havia a tradutora Alina.

 

Apesar da barreira linguística, o acaso levou a que trouxesse consigo uma antiga edição de Luceafărul para nós vermos. «Alguém aqui gosta de poesia?», perguntou o Sr. Furtuna. A Alina, que já me ia conhecendo, apontou para mim e disse que eu escrevia. «Serios?» Retirei o caderno da mochila e mostrei-lhe alguns rascunhos de sonetos. Claro que ele não entendeu nada, mas deu para perceber que ficara satisfeito. A Alina disse-me depois que o Sr. Furtuna estimava muito as palavras escritas à mão, e que os sonetos eram o seu género preferido.

 

Mihai_Eminescu[1].jpg

 

Aquela edição de Luceafărul tinha páginas enormes e ilustrações belíssimas, nas quais o poema adquiria a dignidade devida a uma das obras-primas do Romantismo. Escusado dizer, esse primeiro contacto produziu algum efeito em mim. Por outra feliz coincidência, morava num apartamento alugado à viúva de um professor de Romeno. As estantes da sala estavam forradas de livros, que me incentivavam a descobrir mais acerca daquela língua, parente afastada da nossa. Nomes como os de Ion Creangă, Tudor Arghezi ou Lucian Avramescu tomavam a minha imaginação, tornando-me escravo dos sons que entoava sem compreender. Mas a semente fora plantada: o primeiro a descobrir haveria de ser Eminescu.

 

Lembro-me dos passeios junto ao Danúbio, das horas perdidas no Grădina Mare a ler poemas que desde então associo ao Outono valáquio, naquele que foi o período mais feliz da minha vida. A paixão eminesciana foi tanta que traduzi alguns poemas dele para português, embora hoje veja as falhas desse insensato ardor. Importa referir que a poesia dele funde-se na perfeição com aquelas paisagens, onde a natureza exerce bastante influência sobre o espírito dos homens.

 

646x528[1].jpg

 Placa comemorativa em Timișoara: «Esta placa recorda que o poeta Mihai Eminescu veio a Timișoara, em 1867, ver o seu irmão Nicolae, e em 1868 com a companhia teatral de Mihail Pascaly.»

 

 

Na minha segunda incursão pelos Cárpatos, tive a oportunidade de pisar o palco do Teatro Mihai Eminescu, em Oraviţa. Numa placa, uma data perdida do século XIX, a celebrar o facto de o poeta ter passado por ali enquanto promotor de uma companhia de actores. Por toda a Roménia existem indicações destas, adensando o mito em torno da figura de Eminescu, que foi também um jornalista notável.

 

De tudo isto, ficam as recordações e a esperança de que no futuro a poesia de Mihai Eminescu seja mais conhecida em Portugal.

 

 

Francisco Freima

(blogue ZIBALDONE)

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4 comentários

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De Vlad Tepes a 07.07.2017 às 14:45

E também Emil Cioran!
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De Francisco Freima a 09.07.2017 às 11:45

Sim, um dos melhores escritores romenos do século XX, tal como Tristan Tzara, que também fez parte da diáspora romena em Paris :)
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De Pedro Correia a 07.07.2017 às 15:39

Francisco, bem-vindo como convidado ao DELITO. E faço votos para que a sua "sabática" na blogosfera seja apenas isso: um intervalo esporádico.
Abraço.
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De Francisco Freima a 09.07.2017 às 11:47

Obrigado, Pedro. Pode ser que sim, que seja apenas um interregno e regresse um dia :D

Abraços

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