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Convidado: FILIPE NUNES VICENTE

por Pedro Correia, em 31.05.17

 

Agincourt no estádio

 

Muito elogiada é a equipa que ataca pelos flancos, explorando as faixas laterais, ao invés daquela que afunila o seu jogo ofensivo. Ora, militarmente falando, flanco significa lado; a vantagem de que os agressores gozam, num ataque assim, reside no facto de os defensores adversários se terem de dividir. Com efeito, se se flanqueia ao mesmo tempo que se continua a ocupar a zona central, a concentração e disciplina dos defensores são afectadas. Isto pode ser observado em qualquer jogo de futebol: o lateral/extremo galopa até à linha de fundo e os centrais adversários tentam adivinhar a intenção precisa do malandro ao mesmo tempo que tentam controlar as rapaces que vão aparecendo na grande-área; por exemplo, os Jonas, os Ronaldos, os Nenés.

Agincourt, na temporada de 1415/16, foi um bom exemplo das virtudes do ataque pelos flancos ainda que noutro tipo de palco: Henrique V derrotou os franceses não obstante a inferioridade de efectivos (cinco para um a favor de Carlos VI). Este tipo de ofensiva introduz um elemento de desordem, no caso do futebol, na marcação esforçada e honesta; é insidioso e releva da ilusão. Pode ser utilizada  em superioridade ou igualdade numérica e constitui uma manobra ao dispor tanto da poderosa squadra como do Arrasquinha FC; habita, enfim, um universo popular e democrático.

O sucesso dos ingleses em Agincourt resultou do alargamento da chamada zona de morte, como explica John Keegan, que é definida pela extensão da arma prevalecente. Do ponto de vista da infantaria, trata-se, claro, da zona onde se travam os principais combates homem a homem. Em Agincourt a zona de morte foi alargada desde a frente da defesa francesa até aos seus flancos, permitindo às tropas de Henrique V um ataque envolvente. O resultado foi devastador no exército de Carlos VI (que era doido, ou talvez não, por isso não esteve na batalha).  

 

sp-messi-getty[1].jpg

 

A História está alagada de casos similares, desde Aníbal, inexorável com as tribos da Occitânia e do Ródano, ao longo da sua marcha sobre Roma, até ao flanquear da Linha Maginot pela tropa nazi. Curioso é observar, no caso do futebol, como o temperamento dos povos imagina formas diversas deste tipo de ofensiva. Bem sei que os tempos mudaram, as diferenças esbateram-se, mas podemos ainda imaginar diferenças de berço. Os britânicos e os nórdicos, quais soldados disciplinados, procuram os centros rectilíneos para a grande-área, que terminam em cabeceamentos certeiros; os sul-americanos e os latinos optam a maior parte das vezes por descobrir diferentes centímetros quadrados de relva, parando a meio, quando esperávamos que acelerassem, acelerando quando já nem os julgávamos lá. Como, por exemplo, Messi.

 

 

Filipe Nunes Vicente

(blogue DEPRESSÃO COLECTIVA)

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3 comentários

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De Pedro Correia a 31.05.2017 às 10:55

Ora viva, Filipe. É um gosto vê-lo (novamente) por cá. Com a qualidade de escrita de sempre.
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De FNV a 31.05.2017 às 15:20

errata: "optam a a maior parte das vezes por"

obrigado, Pedro, com gosto,
abraço
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De Justiniano a 31.05.2017 às 16:09

Permita-me, caro Pedro Correia, apenas para deixar aqui um grande bem haja ao caríssimo FNV, agora exilado na depressão colectiva e alheado do comentário assíduo a assuntos prosaicos do cotidiano político e cultural!

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