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Convidado: F. PENIM REDONDO

por Pedro Correia, em 23.08.17

 

A gaivota

  

Caminhei pela areia durante muito tempo, como faço tantas vezes.
Não era ainda a fornalha do Verão e corria até uma aragem fresca apesar da crueza do sol.
O mar batia à minha esquerda, sem espalhafato, e a ravina subia os seus trinta metros do outro lado, em contorsões de arenito.
Tanto quanto os olhos alcançavam, nem vivalma. Um deserto à minha frente.
Naquela solidão de mar e areia só somos atraídos pelas irregularidades; um barrote que veio na maré, uma pegada estranha ou os restos de uma fogueira em que se aqueceram os pescadores da noite passada.
E foi assim que descobri a gaivota, como uma anormalidade.
Estava pousada a uns vinte metros da linha de água. Mas não estava pousada como pousam os pássaros, sempre prontos a voar. Era como se chocasse uma ninhada.
 
Quando me aproximei nem sequer se agitou. A única coisa que movia era a cabeça, de um lado para o outro, e ao fazê-lo o seu bico era um aparo que escrevia na areia uma caligrafia desesperada.
Cheguei tão perto que podia ver os seus olhos aterrorizados, amarelos, e não sabia como demonstrar a minha compaixão.
(Em toda a minha vida só vi morrer um pássaro, e foi em plena cidade.
Despenhou-se de súbito, estrebuchou mansamente durante algum tempo e depois inteiriçou.)
 
Não me atrevi a tocar na gaivota. Por um lado imaginava o terror do pobre pássaro ao ver-se agarrado, por outro receei agravar o sofrimento daquele corpo que tão pesado jazia na areia. Senti-me inútil e grotesco.
(Confesso que o sofrimento dos bichos me toca bastante pois, ao contrário dos humanos, não podem explicar o que sentem e geralmente morrem desamparados. Por causa disso já várias vezes fui tentado a contrariar essa fatalidade.)
Neste caso não me parecia viável qualquer intervenção. Estava muito longe de qualquer ajuda especializada e desconhecia de todo o que levara a gaivota à desesperada situação em que se encontrava. Doença, acidente ou simplesmente velhice?
(Será que as gaivotas demasiado velhas pousam em praias desertas e ficam olhando o mar até ao último suspiro? Com que direito iria eu interferir num processo desse tipo, carregando desajeitadamente um bicho em sofrimento para o ver morrer num veterinário qualquer?)
 
Fiquei a olhar para ela e ela também olhava para mim. Duvido que soubesse ler no meu rosto a aflição e compaixão que eu sentia. Eu também no rosto dela não via senão os sentimentos que a minha condição humana permite imaginar.
Cheguei a pensar que a gaivota, depois do terror inicial, sentiria pelo menos o alívio de constatar que eu não lhe fazia mal.
Então comecei a recuar sem poder deixar de a olhar, até que a gaivota era apenas uma sombra como outras que resultam das irregularidades da areia.
Caminhei a bom ritmo durante a meia hora que me separava de casa.
 
Embrenhei-me nas rotinas caseiras com mais afinco do que é usual.
Mas quando anoiteceu a gaivota voltou a instalar-se no meu pensamento.
Pressentia-a agora na total escuridão da praia e não sob o sol violento da tarde.
O mar rugia como sempre, mas sem se ver.

Então desejei ansiosamente que a maré subisse e que uma grande vaga cumprisse finalmente o destino.

 

 

Fernando Penim Redondo

(blogue DOTE COME)

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15 comentários

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De Luís Lavoura a 23.08.2017 às 11:21

O autor parece confundir "pássaro" com "ave". Os pássaros são apenas uma subdivisão das aves. Em particular, uma gaivota não é (creio eu) um pássaro.
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De Fernando Penim Redondo a 23.08.2017 às 12:17

Na linguagem comum "ave" e "pássaro" são muitas vezes usados como sinónimos. No sentido de bichos que voam. Longe de mim ter pretensões científicas com esta "gaivota".
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De Costa a 23.08.2017 às 12:09

"Confesso que o sofrimento dos bichos me toca bastante pois, ao contrário dos humanos, não podem explicar o que sentem e geralmente morrem desamparados".

Precisamente. E antes da morte muitas vezes suportam penosas vidas de sádicos maus tratos, ou morrem em paroxismos de horror (em nome da "cultura" ou da "tradição"), às mãos de outros animais que se reclama de "racionais".

Costa
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De Fernando Penim Redondo a 23.08.2017 às 15:00

É bem verdade. Tenho observado e alimentado alguns animais que vivem na rua. Quando envelhecem ou adoecem ficam numa vulnerabilidade terrível.
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De Teresa Ribeiro a 23.08.2017 às 12:50

Que texto, tão belo, tão sentido, tão bem escrito!
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De Fernando Penim Redondo a 23.08.2017 às 15:01

Grato pelo seu comentário
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De Maria Dulce Fernandes a 23.08.2017 às 12:59

"A família das gaivotas reúne noventa espécies de pássaros aquáticos, a maior parte marinhos, encontrados no mundo inteiro"

Gostei muito do seu texto.
O sofrimento dos bichos, de todos os bichos, mas principalmente daqueles que escolhemos para companhia e que nos são incondicionalmente dedicados, é -me muito doloroso.
Vou ficar a pensar na sua gaivota.
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De Fernando Penim Redondo a 23.08.2017 às 15:04

Mas ao menos aqueles que temos em casa disfrutam dos nossos mimos. Terrivel mesmo é viver na rua, ou no campo, sem saúde ou na velhice.
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De Maria Dulce Fernandes a 23.08.2017 às 17:34

Tem razão. mas parafraseando o escritor neste contexto, a gente começa a salvar os bichos, salvando um animal de cada vez... os meus, e vão 4 , são todos vadios e tenho-os tratado como gente. Ajudo os canis e os gatis... Mas vou tantas vezes para casa com o coração apertado num dia de chuva à noite quando vejo olhos ainda brilhantes a tremer de frio debaixo dos carros...
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De Pedro Correia a 23.08.2017 às 13:09

Belo texto, Fernando. Uma verdadeira crónica - palavra tão abastardada por estes dias. Com vários níveis de leitura, como sucede em regra com bons textos literários.
Foi um gosto voltar a vê-lo no DELITO.
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De Fernando Penim Redondo a 23.08.2017 às 15:05

Grato pelo seu convite, Pedro
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De Vlad a 23.08.2017 às 13:28

Os humanos embora saibam da sua mortalidade, raramente pensam nela, actuando como imortais. Esquecendo-se que também morrerão. E por esse esquecimento quando ela surge abrem a boca de surpresa, como um pássaro, morrendo desamparados , ou no desamparo. A morte para não ser esquecida deveria ser matéria escolar. Ciências de Vida, às 12h. E depois do almoço, Ciências da Morte, ou Filosofia, que é a mesma coisa. Os almoços ganhariam outro gostinho
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De Fernando Penim Redondo a 23.08.2017 às 14:57

Grato pelo seu convite, Pedro
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De Fernando Penim Redondo a 23.08.2017 às 15:10

Concordo com aquilo que diz, embora pense que também há vantagens em vivermos como se fossemos imortais. Agora que cheguei aos 70 comecei a ter a angústia do tempo mal usado, ou seja a angústia de perceber como se deve gastar o tempo. O que faz perder muito tempo.
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De isabel a 24.08.2017 às 11:15

não leve a mal, mas parte cheira a "relato de um náufrago"

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