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Convidado: EDUARDO LOURO

por Pedro Correia, em 10.07.17

 

Paradoxos

 

A comunicação é provavelmente o maior instrumento de relação ao serviço das sociedades. Sempre foi assim, mesmo quando, por dificuldades de circulação, por falta de acessos e de veículos, e até por excessos de policiamento do tráfego, disso se não dava conta.

Hoje a comunicação circula a uma velocidade estonteante, em auto-estradas de quarta geração, sem limites de faixas nem de velocidade. Sem constrangimentos de qualquer espécie - nem polícias, nem semáforos, nem rotundas, nem filas - em veículos de alta cilindrada. Toda a gente dá por ela, toda a gente percebe a sua importância.

Paradoxalmente, quando tem condições como nunca teve para se exponenciar como instrumento de relação, e mecanismo de aprofundamento da vida em sociedade, revela-se, como nunca, uma arma estratégica de destruição massiva. Literalmente. Uma poderosa arma de guerra de que ninguém abdica, em nome de coisa nenhuma.

As estratégias de comunicação sobrepõem-se a tudo e a todas as outras. Tanto mais quanto mais insondáveis forem os objetivos que se destinem a servir. Tanto mais quanto maior for a ambição de manipular, condicionar e enganar…

É assim, em especial, na política e no futebol, mas também em muitas outas áreas da sociedade. Não importa o que se faz, importa o que se diz. Os factos já não contam, contam – e cantam-se – os factos alternativos. O virtual toma conta e sobrepõe-se ao real. A substância é oca e a verdade esvazia-se na opulência da pós-verdade. Mais que reescrever a História, reescreve-se o próprio conhecimento.

É o tempo das fake news, dos Abrantes e dos Sebastiões. Dos directores de comunicação como peças centrais nas estruturas organizacionais. O tempo de cavar trincheiras à volta de dogmas, de levantar muros à volta de crenças. De semear ódios, de acentuar clivagens e de explorar o que mais primário há em cada ser humano.

Não era isto que seria suposto a comunicação servir. Não deveria ser para isto que deveriam ser utilizadas as auto-estradas que temos à mão, cheias de gente vazia de ética e auto-desobrigada dos mínimos deontológicos. Mas os dias de hoje também não são muito mais do que isso: uma sucessão de paradoxos.

 

 

Eduardo Louro

(blogue QUINTA EMENDA)

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4 comentários

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De Pedro Correia a 10.07.2017 às 11:21

É um gosto vê-lo novamente por cá, Eduardo. E estes paradoxos que aponta dão mesmo que pensar: a comunicação transformada não em ponte ou traço de união mas em pá para aprofundar trincheiras.
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De Eduardo Louro a 10.07.2017 às 11:39

É também com muito gosto que aqui estou hoje, do lado de dentro. É sempre um prazer pisar esta passadeira vermelha.
Obrigado pelo convite.
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De Maria Dulce Fernandes a 10.07.2017 às 13:21

"A substância é oca e a verdade esvazia-se na opulência da pós-verdade."

Nada mais verdadeiro, por mais paradoxal que seja.
Fake news e alternative facts.
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De Vlad, o Emborcador a 10.07.2017 às 14:09

Sobre a Comunicação Social da Verdade relembro o caso entre a FoxNews, a Monsanto, e a jornalista Jane Akre. A verdade está no mercado e vende-se ao melhor preço.
Viva o Jornalismo! !!

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