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Convidada: HELENA FERRO GOUVEIA

por Pedro Correia, em 24.09.17

 

Merkel, a esfinge

 

Gobbledygook é um neologismo que descreve linguagem obscura ou difícil de compreender. A palavra, inspirada pelo grugulhar do peru, foi criada em 1944 pelo congressista norte-americano Maury Maverick, que estava farto da linguagem indecifrável usada pelo governo e pelos políticos.

Quem tem estado minimamente atento à política alemã sabe que um dos pontos fortes da  chanceler, que há doze anos comanda os desígnios da Alemanha, é a ausência de gobbledygook no seu discurso. Angela Dorothea Merkel é uma mulher não dada a complicações,  terra-a-terra, a quem coube em sorte alguns dos desafios mais complexos da história contemporânea teutónica e europeia. Quando o Muro caiu, a 9 de Novembro de 1989, a física era uma desconhecida, sem ambição política. Ninguém ousaria prever que se tornaria na mulher mais poderosa do mundo e na Mutti, mãezinha, dos alemães.

Pode pensar-se nela como uma maratonista que não desperdiça esforços em sprintes para impressionar a bancada. O que exaspera membros do seu governo, da oposição e alguns líderes europeus.  Angela Merkel não é movida pela ideologia, toma as suas decisões baseada em dados, estatísticas e factos. Convém acentuar a palavra factos. “O meu pai [o pastor luterano luterano Horst Kasner] atribuia muita importância à lógica e à clareza dos argumentos."

Se hoje ela é uma pessoa extraordinariamente controlada e discreta, características que a tornam para muitos estranha, pouco previsível, esfíngica,  isso é resultante de uma vida entre dois mundos, duas Alemanhas. Conhecendo-se a história da divisão alemã entende-se: nada é simples, nada é linear, não há lugar para maniqueísmos. “É muito difícil do ponto de vista actual compreender e tornar compreensível como nós vivíamos. Onde se situavam as fronteiras do compromisso que cada um devia encontrar para si próprio?”

 

Porque não conhecemos Angela Merkel?

Muito da vida de Angela Merkel no lado oriental do Muro de Berlim continua a ser uma incógnita. Já em 1991 o diário Süddeutsche Zeitung perguntava “porque não conhecemos Angela Merkel?”. “Sim, foi uma grande vantagem ter aprendido a manter-me calada nos tempos da RDA. À época foi uma das estratégias de sobrevivência e continua a sê-lo hoje."

Rainer Eppelmann, dissidente do regime da República Democrática Alemã (RDA), conheceu Merkel nos dias seguintes à queda do Muro e recusa apontar-lhe o dedo. “As pessoas, na sua maioria, apenas sussurravam. Nunca diziam o que pensavam, o que sentiam, do que tinham medo. Até hoje, não temos plena consciência do efeito sobre os  indivíduos.” Acrescenta: “para ser fiel às suas esperanças, ambições, crenças e sonhos, era preciso ser-se herói 24 horas por dia. Ninguém consegue.”

A vida da futura chanceler numa ditadura foi tão “normal” quanto possível. Nunca usou roupa da RDA, mas sempre da Alemanha ocidental, por uma razão bem prosaica. “O meu pai tinha um salário baixo. Seiscentos marcos por mês. Não era muito para vestir todos os filhos (…) e a nossa família em Hamburgo enviava-nos roupa.”

“Nunca senti a RDA como meu país natal”, afirmou à fotógrafa alemã Herlinde Koelbl em 1991. “Tenho um espírito relativamente ensolarado e sempre tive a expectativa de que a minha trajectória de vida seria também relativamente ensolarada, a despeito do que acontecesse. Nunca me permiti ser amarga. Sempre me vali da margem de liberdade que a RDA me permitia. […] Não havia sombra sobre a minha infância. E, mais tarde, agi de maneira tal a não me colocar em permanente conflito com o Estado.”

Com um perfil o mais distante possivel do típico político alemão – visite-se a Haus der Geschichte e a galeria dos retratos de presidentes e chanceleres no pós-guerra, todos homens, apenas uma mulher: Angela Merkel –  fez uma carreira vertiginosa,  sem paralelo na Alemanha, tornando-se na líder incontestada da Nação e na chefe de Governo mais antiga da União Europeia. Isto na tripla qualidade de mulher, do Leste, divorciada e sem filhos.

 

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Ter coragem no momento certo

Recuemos no tempo. Durante uma aula de natação, quando tinha 12 anos, Angela Merkel ficou parada na extremidade da prancha de mergulho cerca de 45 minutos antes de reunir a coragem necessária para saltar para a piscina. “Tenho coragem no momento certo. Mas preciso de um considerável tempo de preparação e de pesar todos os riscos.”

Na escola, na universidade, nem colegas, nem professores, apesar da excepcional inteligência, alguma vez viram na recatada Merkel um potencial de liderança. Foi o destino que lhe pregou uma partida ou foi ela que traçou o seu destino?

Contrariamente à maioria dos políticos de primeira linha dos democratas-cristãos, ela não seguiu o caminho tradicional – a filiação na juventude democrata-cristã, envolvimento na política local, construção de redes e contactos. Estava do outro lado do Muro. Como se explica a ascensão do “nada político”, de alguém com um perfil o mais distante possível do clássico, a mulher mais poderosa da Alemanha? Por uma conjugação de qualidades pessoais e de acasos biográficos e de uma constelação histórica ímpar.

O dia determinante para a carreira política de Angela Merkel é 30 de Setembro de 1990, quatro dias antes da reunificação alemã, o dia em que conheceu Helmut Kohl, que seria o seu ídolo, mestre e com quem aprendeu aquilo que os alemães denominam “Willen zur Macht”, o desejo de poder, a mola inicial, o princípio do salto.

Kohl, o historiador, considerava que o Gabinete Federal devia reflectir a nova realidade política alemã. Por isso uma mulher do Leste, jovem, ainda para mais protestante, encaixava-se no puzzle do poder. Por outro lado, o chanceler da reunificação queria rodear-se de pessoas que lhe fossem absolutamente reconhecidas.

O encontro entre Merkel e Kohl não foi obra do acaso, mas aconteceu por iniciativa de Merkel. Dias antes das comemorações da unificação alemã,  decorreu em Hamburgo o congresso de “reunificação” da  União Democrata Cristã  (CDU)  com os movimentos democráticos de raízes cristãs da  antiga RDA. Nesse congresso, Merkel era um dos delegados do Demokratischen Aufbruch. Aproveitando a ocasião, a política pediu a um conhecido para a apresentar a Kohl. Tiveram uma longa conversa, que impressionou positivamente o chanceler. Voltariam a encontrar-se em Bona, nos finais de Novembro, em vésperas das primeiras legislativas da Alemanha reunificada, que se realizaram a 2 de Dezembro. Depois de ler as actas da Stasi relativas a Angela Merkel, limpas, Helmut Kohl convenceu-se de que ela deveria integrar o Governo. Que o novo ministério da Juventude e Condição Feminina fosse quase esvaziado de competências fazia parte dos cálculos do presidente da CDU. O animal político Kohl farejou a substância de que Merkel era feita e queria que ela amadurecesse para outros voos. O que ele não poderia imaginar é que  nove anos  mais tarde a dama faria xeque-mate ao rei.

Num artigo publicado no Frankfurter Allgemeine Zeitung, a 22 de Dezembro de 1999,  com o partido mergulhado na maior profunda crise da sua história em virtude do escândalo em torno do financiamento partidário, Angela Merkel comete “parricídio”.

Sem estados de alma, a  então secretária-geral do partido acusa Kohl de prejudicar a CDU ao silenciar o nome dos doadores que alimentaram a contabilidade paralela dos democratas cristãos. “A credibilidade de Kohl, a credibilidade da CDU e dos partidos políticos estão em jogo”, escreveu na altura. O artigo levaria o ex-chanceler a renunciar à presidência honorária do partido. Os doadores, esses, continuam incógnitos. Wolfgang Schäuble, o eterno príncipe herdeiro de Helmut Kohl, vê-se envolvido no escândalo e a escapar-se-lhe entre os dedos a possibilidade de um dia se tornar chanceler.

Merkel publicou o artigo sem avisar Schäuble, o então presidente da CDU.  Num gesto que combinava virtude protestante com crueldade, a “Mädchen” (menina) de Kohl cortava o cordão umbilical do seu pai político. “Ela espetou a faca nas costas dele e girou duas vezes”, afirma Karl Feldmeyer, jornalista do Frankfurter Allgemeine Zeitung . Foi o momento em, que pela primeira vez, muitos alemães se deram conta da existência de Angela Merkel.

Alguns anos mais tarde, Michael Naumann – que ocupou a pasta da cultura no gabinete do social-democrata Gerhard Schröder –  questionou Helmut Kohl: “O que é ela quer de facto?” “Poder”,  terá a resposta cortante. A um outro amigo, o chanceler da reunificação contou que seu apoio à jovem  Angela Merkel tinha sido o maior erro da sua vida: “enrolei a cobra no braço.”

A jogada de Angela Merkel deu certo. Mergulhados na maior crise da sua história, os democratas-cristãos precisam de alguém imaculado, fora do “sistema Kohl”, alguém insuspeito, alguém de Leste. Empurrada pelas bases como uma Joana d”Arc, Merkel é eleita presidente da CDU, em Abril de 2000, no congresso de Essen, com uma votação “soviética”: 96 por cento.

Seria a primeira mulher a ocupar este cargo num dos dois grandes partidos alemães, como também já havia sido pioneira no de secretária-geral. Na sequência dos remoques do cardeal de Colónia, Joachim Meisner, que considerava pouco edificante a líder de um partido cristão viver em união de facto, casaria, em Dezembro de 2000, na intimidade, com o químico e professor universitário Joachim Saeuer. Ninguém fora informado. Nem os pais de Merkel. Há poucas fotos do casal: as das visitas anuais ao festival de Bayreuth e em algumas cerimónias oficiais. Para ela, a esfera privada é inviolável. Joachim Sauer nunca será um “primeiro-marido”.

 

Da crise a líder do mundo livre

Reforça a imagem de ser feita de gelo com a resposta à crise financeira global e à crise do euro, após o colapso do Lehman Brothers. Torna-se numa figura odiada por um largo sector da opinião pública europeia. Ao seu ritmo de pequenos passos acabaria por ultrapassar as hesitações. “Merkel, que duvidou durante longos meses de que a Grécia conseguisse algum dia assumir a disciplina inerente à participação numa moeda única, acabou por reconhecer que os custos para os outros países da sua saída do euro – resultantes do efeito de contágio – seriam muitíssimo superiores aos benefícios”.

“Se o euro fracassar, fracassa a Europa”, dirá em Outubro de 2011. Enquanto ia acumulando derrotas nas eleições regionais, a chanceler foi somando vitórias nos palcos da crise do euro. Mantendo um discurso pró-Europa, Angela Merkel não abdicou da austeridade e impôs aos seus pares um caderno de encargos da sua lavra. Por momentos, receou-se que a sua paciência com Atenas se esgotasse. Mas não, até aí se manteve firme na convicção europeia. De resto, Merkel não sucumbiu aos que pediam flexibilidade e tempo no combate à crise.

O ano de 2012 será lembrado como o ano em que a moeda única foi salva da implosão a que parecia condenada pela crise da dívida europeia. Foi a decisão da chanceler de manter a Grécia no euro e, mais ainda, de assumir os custos associados que o permitiu fazer.

Ganhou entre os alemães a aura da salvadora do euro a custos mínimos e o cognome de Mutti. O ano de 2012 seria também o ano da afirmação do poder incontornável da Alemanha, da fragilidade da França e da mais evidente e perigosa deriva do Reino Unido em relação à Europa.

Mesmo tendo em consideração todos os riscos políticos que a decisão acarretava, decidiu  abrir, a 4 Setembro de 2015, as fronteiras alemãs a todos os refugiados sírios que queiram procurar refúgio em solo alemão. No dia seguinte chegariam a Munique, de hora a hora, comboios cheios de refugiados. As centenas depressa se tornaram milhares e nos cais vivem-se momentos comoventes. Milhares de alemães trazem brinquedos, vestuário, água, guloseimas.  Dão, eufóricos, as boas vindas. As cenas repetem-se nas estações ferroviárias de Frankfurt am Main e Dortmund.

A maior emergência humanitária desde 1945, a crise dos refugiados transformou aos olhos da opinião pública e publicada a vilã impiedosa numa  heroína global. E transformou para sempre a Alemanha. “A chanceler alemã está do lado certo da história. Num mundo global a solução não é construir muros”, sublinhou Barack Obama.

Em 2015 a revista Time elegeu-a como a personalidade do ano. “Por pedir mais do seu país do que a maioria dos políticos ousaria, por enfrentar de forma firme a tirania, bem como o oportunismo e por oferecer uma liderança moral firme num mundo onde esta é escassa, Angela Merkel é a pessoa do ano da Time”.

No Guardian, o historiador britânico Titmothy Garton Ash, profundo conhecedor da Alemanha, dizia: “A expressão ‘líder do mundo livre’ é normalmente aplicada ao Presidente dos Estados Unidos, e raramente sem ironia. Estou tentado a dizer que a líder do mundo livre é agora Angela Merkel.”

Quem é a chanceler? De onde veio a dama que fez xeque-mate a todos os reis no seu caminho? Como cresceu? De que gosta? Como é a pessoa para além da política? O que a faz mover?

Perguntas que, desde 1991, altura em que Merkel  se tornou pela primeira vez ministra, ocupam jornalistas, analistas e biógrafos. Talvez uma das melhores respostas que encontrei foi a de Bernd Ulrich, no Die Zeit. “Wer ist Merkel? Die Kanzlerin. Was will sie wirklich? Kanzelerin sein.”(Quem é Merkel? A chanceler. O que pretende realmente? Ser chanceler).

 

 

Helena Ferro de Gouveia

(blogue DOMADORA DE CAMALEÕES)

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4 comentários

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De jpt a 24.09.2017 às 13:58

Não podia haver melhor convidado para hoje. Obrigado pelo (con)texto, Helena.
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De Pedro Correia a 24.09.2017 às 15:13

Excelente texto, Lena. Em dia de eleições na Alemanha - fundamentais para toda a Europa.
Gosto muito de te ver por cá.
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De Helena Sacadura Cabral a 24.09.2017 às 22:39

Excelente texto e bela lição de história política dada por uma domadora de camaleões!
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De Helena Ferro de Gouveia a 25.09.2017 às 15:12

Muito obrigada a todos. Beijinhos.

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