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Convidada: EUGÉNIA VASCONCELLOS

por Pedro Correia, em 07.06.17

 

A cegonha, o rinoceronte, a bicicleta, o cão e eu

 

Tenho uma bicicleta de que gosto muito. Uma Beach Cruiser que veio substituir a Peugeot preta que adorava e me roubaram.

 

No tempo inicial da Peugeot, ainda vivia no Paraíso mas trabalhava que me fartava, à hora de almoço ia treinar, ao fim do dia idem aspas, chegava a casa morta, e aquele passeio de bicicleta, a volta completa que fazia com o Cão pelo Éden, então um cachorrinho, e o mundo em silêncio de pessoas, só voz de pássaros e de árvores e ervas, a voz grave do mar ao fundo e a do sal perto, logo de manhã muito cedo, deixava-me de bem com o que viesse. No Outono, punha-se a vida em cores de Turner e os pneus rodavam sobre o chão de folhas como quem pisa um dos céus que ele pintou. Na verdade, um dia, num desses dias de Turner, o passeio de bicicleta deixou-me de mal com tudo.

Íamos os dois, o Cão e eu, os grandes companheiros. Foi quando vimos uma enorme cegonha com a asa direita partida, pendida, no meio da estrada, a andar -mal se tinha de pé. Estacámos todos. A bicicleta. O Cão. A cegonha. Eu. Toda a gente sabe, sou uma mariquinhas do pior. Fiquei logo doente, aflita e cheia de e agora o que é que eu faço... Mas alguém consegue ver um bicho assim belo, aquele porte alto de orgulho e não ser mariquinhas também? Queria ir ajudar a cegonha. Não queria assustar a cegonha. A vida imóvel à espera do primeiro gesto. Mexi-me em câmara lenta. Desci. Bicicleta no descanso. Cão no cesto - shhh... ouviu, Cão? Mal ponho o pé na estrada ao lado da ciclovia, a cegonha faz um arranque baixo, em esforço, pousa lá à frente, e eu que não digo um palavrão ainda que escreva todos, penso merda, merda! não consigo fazer nada pela cegonha, ainda ficou pior do que estava. Ponho-me a ligar para todo o lado a ver se alguém me salvava a cegonha. E de repente, o primeiro carro na estrada e ela desaparece.

 

Não tenho, nunca tive, e se o passado é um bom preditor do futuro, nunca terei força para fazer face a estas coisas, as que me fazem chorar, acho que dos nervos de não fazer nada – a impotência mata-me, seja ao perto ou ao longe. Não aguento, é físico. Lembro-me de estar no ginásio, na televisão em frente da passadeira passava um documentário de vida selvagem. Estava desatenta, sabia lá que os selvagens ali éramos nós... Só percebi quando os vi a arrancar o corno a um rinoceronte e o deixaram vivo, a morrer lento, a esvair-se em dor e sangue. Na altura treinava muito. Chegava a ficar nauseada do cansaço. Nunca se comparou à náusea que senti naquele momento. Porque não matá-lo? Era mais barato assim e como não o matavam, se apanhados, a pena seria menor.

 

Isto, que nunca passa, passou. Foi mais ou menos por esta altura, a 23 Maio, a espreitadela da redenção. Em 2009. Desse dia de Primavera já a cheirar a Verão por todos os lados, fez-se um Inverno como poucos. O céu começou a baixar o seu chumbo sobre o azul e era já um tecto baixo de chuva incansável e grossa. Relâmpagos majestosos. Um choque de beleza bruta - qual Turner qual o quê… Lixem-se, não trocava aquele momento nem pelo meu Musée d' Orsay. Do lava-loiça por baixo da janela onde estava, obviamente a lavar a loiça, via, em frente, o jardim com a buganvília roxa a escorrer água pétalas fora; em frente, os telhados turquesa de uma velha construção nunca tinham sido tão claros e limpos como contra aquele chumbo todo e a minha cabeça teórico-imaginativa pôs-se logo a magicar na descrição da cidade edificada por Akhenaten ao início do seu reinado, a que terá tido telhas daquele turquesa quando, de repente, a beleza prática me lixa o lirismo teórico. Trovões como poucas vezes na vida. Relâmpagos. Rios de chuva. As cores saturadas de vida contra o mundo neutro de cinza a saltarem aos olhos. A natureza a dar show e eu espectadora feliz. Volto a olhar para a direita. Encostada à primeira trave da pérgola da buganvília, altíssima, forte, encharcada de não poder voar naquele rio cortado de relâmpagos, uma cegonha. A cegonha?

 

Já não moro no paraíso. O meu querido Cão morreu - se hoje chovesse o céu todo como naquela tarde, mesmo sem cegonha, sem buganvília e sem tectos azuis havia de voltar a pô-lo no parapeito da janela, perto os dois um do outro, dois narizes no vidro. 

Porém chegaram hoje o selim, o cesto e os manípulos novos que encomendei na Amazon para a minha bicicleta. Talvez esta noite sonhe com um rinoceronte possante a passear nos meus sonhos. 

 

 

Eugénia de Vasconcellos

(blogue CABEÇA DE CÃO)

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5 comentários

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De Einstürzende Neubauten a 07.06.2017 às 10:50

"Peugeot, Cão no cesto - shhh... ouviu, Cão?,Chegava a ficar nauseada do cansaço,Amazon"

Gostei muito do seu texto, Eugénia de Vasconcellos!

Já agora, permita-me o atrevimento. Cuidado com os níveis de Vit B12!!

Comigo passou-se uma cena similar. Em Trás - Os - Montes. Após uma báquica refeição na noite anterior, com o meu sogro, família e amigos, entre eles o Sr. Luís, reformado da CP, vinhateiro e caçador furtivo, sobretudo de javalis...faz o melhor leitão que conheço. Assa-os em fogo lento durante 2 horas, empalado num espeto de uma madeira qualquer que dá às carnes um sabor deveras singular...bom, mas divago....dizia, ou melhor, ainda não disse mas vou dizê-lo já a seguir...após uma repasto que me obrigou a dormir no tapete da sala, os quartos são no 1ºandar, levantei-me de manhã com a obrigação de queimar aquelas calorias - umas 3000kcal- todas ingeridas na noite anterior. Vesti-me a preceito - não sei qual a marca dos calções, penso que são de marca branca, calço as sapatilhas Nike, estavam com 50% de desconto, e por cima do tronco, uma swett, tipo polar (estavam graus negativos) e lá vou eu decidido a percorrer 20km, o que naquela zona é um desafio - subidas até mais não!

Consegui, mas já no regresso de cansado e de estar em jejum, vomitei. E enquanto o fazia vejo à minha beira uma carocha debatendo-se contra uma batalhão de formigas, mesmo aos meus pés. Assalta-me então uma duvida moral. Devo agir ou deixar a natureza seguir o seu curso - afinal as formigas comem carochas e para elas, as formigas, o sabor da hemolinfa pode ser tão apetitoso como pão e leitão....bom entre este diletantismo e um novo arranque perco-os de vista. Bom, sim, confesso, senti-me mal, não escondo, por talvez ter podido fazer mais, não sei, mas ao jantar já estava bem novamente, vendo na TV umas cenas quaisquer de um conflito, em terra distante, e nós ali na segurança do lar, no refresco do vale duriense, entre risadas e copos, desfrutando do tempo que ainda temos. E do que já levamos. De mim para mim veio-me ao pensamento - A Vida é Linda! Bem sei, bem sei, que um dia serei também carocha, ou talvez o seja já, como aquele fulano do Gregor Samsa, mas tudo está certo, desde que seja natural.

Tudo de Bom!!
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De Eugénia de Vasconcellos a 07.06.2017 às 21:46

Obrigada. E eu da sua história com impensáveis vinte quilómetros de subidas... Nem fazia ideia de que as formigas comiam carochas!
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De Pedro Correia a 07.06.2017 às 16:05

É um imenso gosto vê-la por cá, Eugénia. Com a qualidade inconfundível da sua escrita.
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De Eugénia de Vasconcellos a 07.06.2017 às 21:48

Obrigada eu, caro Pedro, por me fazer sentir tão bem-vinda e feliz neste delito que é a escrita.
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De albertino ferreira a 08.06.2017 às 07:49

Belo texto. A propósito de cegonhas, bicho simpático e elegante, que revejo sempre que passo pela Chamusca, também tenho uma história para contar. Na minha terra, lá para os confins da Beira Alta, existe um ninho de cegonha no alto da torre da Igreja e todos os anos pelo S. Brás o casal vem nidificar. Um dia cai do ninho, de altura considerável, uma cria de cegonha que não mais pôde voar. Então o povo acarinhou-a e deu-lhe o nome de Joana, enquanto os bombeiros a acolheram no seu quartel e ela habituou-se a passear calmamente pelas ruas da vila, durante vários anos até que se tornou o ex-libris da terra. Um dia um cão malvado atacou-a e ninguém conseguiu socorrê-la e foi o fim da simpática cegonha Joana imortalizada em cerâmica no lago em frente à Câmara Municipal.

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