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Convidada: CRISTINA TORRÃO

por Pedro Correia, em 21.06.17

 

Lendas e mitos

 

Lendas, mitos e milagres fazem parte da cultura e da identidade de um povo. Durante muito tempo, quando o estudo da História não possuía ainda carácter científico, acreditava-se na sua veracidade. Os próprios cronistas medievais difundiram este tipo de narrativas e crenças, pois normalmente escreviam ao serviço do rei ou de algum membro da alta nobreza e havia que exaltar as qualidades do seu patrono, assim como de toda a sua dinastia. Também génios literários como Shakespeare e Camões contribuíram para que muitas inverdades se instalassem no imaginário colectivo. O caso mais relevante será mesmo da responsabilidade do dramaturgo mais famoso do mundo, pelo mito criado à volta do rei inglês Ricardo III, uma das mais maléficas personagens da Literatura e cujo carácter tem vindo a ser reabilitado pelos historiadores, nas últimas décadas. Embora surgissem, no século XIX, historiadores que deram uma nova dinâmica à investigação histórica (caso de Alexandre Herculano, em Portugal), só a partir do século XX o estudo da História se começou a basear em métodos científicos, tanto no que respeita à datação laboratorial dos achados arqueológicos, como na interpretação crítica de crónicas e outros escritos, baseada na interdisciplinaridade e na verificação exaustiva de factos.

No nosso país, porém, esta evolução foi estrangulada por uma ditadura que perdurou até 1974. O alimentar e o exaltar de certos mitos serviam os propósitos do Estado Novo, nomeadamente, o conferir de uma aura divina, a intervenção da “Mão de Deus”, a certos acontecimentos marcantes do nosso percurso. Esta mentalidade criou raízes profundas no nosso imaginário colectivo e, mesmo depois da Revolução dos Cravos, custou ao Professor José Mattoso impor-se como historiador, ao contrariar, por exemplo, a predestinação divina da formação do reino de Portugal, mostrando que o processo que a ela levou era anterior ao próprio D. Afonso Henriques e se enquadrava perfeitamente na evolução da Reconquista Ibérica.

Infelizmente, ainda hoje os manuais escolares carecem de actualização em muitos aspectos, apesar dos esforços de certos historiadores e investigadores como o Professor Moisés de Lemos Martins da Universidade do Minho, o trio de historiadoras Ana Maria Rodrigues, Manuela Santos Silva e Ana Leal de Faria e a investigadora e docente Marta Araújo da Universidade de Coimbra.

Vem tudo isto a propósito de um poema inserido num livro de leitura obrigatória para o sexto ano de escolaridade (embora na capa do livro esteja a indicação de “leitura obrigatória”, nos sites da Wook e da Bertrand vem com a indicação suplementar: “livro recomendado para o 6º ano de escolaridade, destinado a leitura orientada”, o que causa bastante confusão):

 

De um lado o chão e a raiz

do outro o mar e o seu cântico.

Era uma vez um país

entre a Espanha e o Atlântico.

Tinha por rei D. Dinis

que gostava de cantar.

Mas o reino era tão pouco

que se pôs a perguntar:

- E se o mar fosse um caminho

deste lado para o outro?

E da flor de verde pinho

das trovas do seu trovar

mandou plantar um pinhal.

Depois a flor foi navio.

E lá se foi Portugal

caravela a navegar.

 

Manuel Alegre, em ‘As Naus de Verde Pinho’.

 

thumbnail_As%20Naus%20de%20Verde%20Pinho[1].jpg

 

Não contesto a sua beleza, nem a sua qualidade literária, e respeito muito o seu autor, recente vencedor do Prémio Camões, mas não posso deixar de referir que este poema contém duas falsidades.

Em primeiro lugar, D. Dinis não mandou plantar o pinhal de Leiria, quando muito, mandou substituir o pinheiro manso pelo bravo, que cresce mais depressa, tentando assim colmatar a falta de madeira, consumida em quantidades exorbitantes na época medieval, muito antes da febre das caravelas. A madeira usava-se na construção de travejamentos, tectos, soalhos, móveis, utensílios domésticos, estábulos, adegas, espigueiros, moinhos e aprestos agrícolas (desde forquilhas, ao carro e ao arado) e era ainda o principal combustível, já que, sem lenha, não havia pão, alimentos cozinhados, nem um mínimo de conforto no Inverno.

Como se sabe, os pinhais travam igualmente o avanço da areia das praias, permitindo, naquela época, ganhar-se mais terrenos para a agricultura, por isso se pensa que D. Dinis terá ordenado a substituição dos pinheiros em várias partes do reino. O pinhal de Leiria ficaria como símbolo desta política talvez pela intervenção dos monges cistercienses de Alcobaça no Paul de Ulmar, uma vasta extensão de terrenos pantanosos que se estendia ao longo do rio Lis até à foz. Travadas as areias, os cistercienses transformaram esses terrenos em campos de cultivo, pois eram verdadeiros peritos em abrir, valar e enxugar pântanos.

Em segundo lugar, D. Dinis podia ser muita coisa (e era: um excelente poeta, político, diplomata e legislador), mas não era adivinho. E, embora os pinheiros bravos tivessem dado muito jeito na construção das caravelas, ele, que morreu cerca de cem anos antes da conquista de Ceuta, não previu os Descobrimentos!

O historiador J. A. Sotto Mayor Pizarro, autor da biografia de D. Dinis (Temas e Debates 2008), insurge-se contra esta “fama”, da qual o Rei Lavrador não se livra, muito alimentada pelo Estado Novo, a fim de conferir predestinação divina aos Descobrimentos portugueses. Cito da página 263 da referida obra:

 

“Ainda dos autores quinhentistas uma breve referência a Pedro de Mariz (…), porque me parece o responsável pelo tão decantado mito do Pinhal de Leiria. Com efeito, creio que foi o primeiro autor que valorizou a sua importância e, o que é mais, dando à acção dionisina contornos premonitórios:

«Mandou plantar o grande Pinhal de Leiria, sem o qual era impossível poder-se conservar a navegação da Índia (…). Pelo que não me parece sem mistério, inspirar Deus no coração deste Rei, que tão de antemão desse princípio a tamanha coisa.»”

 

Sotto Mayor Pizarro volta à carga na página 333:

 

“Mas se concordo inteiramente com aquele cognome [Rei Poeta], não posso deixar de manifestar o meu mais veemente desacordo - quase diria indignação - pelo de rei Lavrador. Aliás, creio que nenhum outro monarca português foi tão injustiçado por um cognome como D. Dinis, amarrado, é o termo, durante gerações ao malfadado pinhal de Leiria.”

 

Sei que, no caso de ‘As Naus de Verde Pinho’ (o próprio título dá continuação ao mito), se trata de uma obra literária, com lugar para a imaginação. Porém, tratando-se de um livro aconselhado para o sexto ano de escolaridade, num altura em que se empreendem esforços para se corrigirem erros do passado, apetece-me dizer que, assim, não passamos da cepa torta!

 

 

Cristina Torrão

(blogue ANDANÇAS MEDIEVAIS)

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22 comentários

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De Maria Dulce Fernandes a 21.06.2017 às 11:22

A História sempre foi uma paixão. Principalmente a de Portugal que é para mim a mais fascinante História de toda a História.
Gostei muito do seu texto ( como também gostei do seu Afonso Henriques). Aprofundar este tema, pode ser tarefa de uma vida inteira.
O meu irmão e a minha filha mais nova têm licenciaturas em Histtória ( e algumas pôs graduações malucas, como costumo dizer). Temos sempre debates muito interessantes e foi na sequencia duma destas tertúlias que li Afonso Henriques... eles estavam cheios de razão, o que perdi por teimosia, ganhei em dobro na leitura.
Beijo para si.


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De Einsturzende neubauten a 21.06.2017 às 12:26

Dulce, permita -me, como sugestão literária :

Enterrem o meu coração na curva do Rio.

A grandeza temporária de Portugal deveu-se aos tempos assoladores que vivia a Europa. Ingleses e Franceses disputavam o domínio Continental. E é sobre esse prisma que devemos relativizar o nossa própria história. A nossa própria fundação não se deveu a um mandato divino, mas enquandrou-se nas Cruzadas e na ambição pecuniária de Roma e das Ordens Monásticas. A única Ourique é a que fica abaixo de Beja

A nossa verdadeira história é feia e cretina. Como paradigma do Reino, o Rei D. João III.

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De Maria Dulce Fernandes a 21.06.2017 às 19:07

Não li o livro, mas vi o filme.

Qualquer povo colonizador edificou impérios sob rios de sangue. Nós não fomos excepção. Não é por isso que vou deixar de achar fascinante que tão poucos tenham feito tanto pelo mundo inteiro. Infelizmente não fomos heróis em alvas montadas, podemos ter sido ( seremos ainda?) feios porcos e maus, mas a História de Portugal tem momentos sublimes que sempre me encantarão.


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De Cristina Torrão a 21.06.2017 às 15:25

Muito obrigada, Dulce!
Um beijo também para si.
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De Reaça a 21.06.2017 às 12:02

E quem mandou plantar o Eucaliptal de Leiria, Coimbra etc.?
Foi Salazar para fazer papel selado para uso nacional, mas eram meia dúzia de pés de eucaliptos, porque o resto eram sobreiros e pinheiros e oliveiras.
Agora para fazer papel higiénico para o mundo inteiro, foram outros gajos que pensam à grande.
Antes a parra da videira servia muito bem.


Agora para fazer papel higiénico
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De Einsturzende neubauten a 21.06.2017 às 12:11

Cristina, exceptuando as datas e locais dificilmente a história poderá ser considerada uma ciência. A ciência baseia-se na exactidão matemática, na significância estatística, na reprodutibilidade de resultados e métodos. A História baseia-se muito em interpretações e por isso em subjectividade do que é olhado mas sobretudo do olhar. Não é apenas de Camões o tempo em que se usava a história como legitimação de ambições políticas ou dinásticas.
Quanto à interpretação crítica de documentos, a sua máxima objectividade surge apenas na existência desse mesmo documento, mas nunca, ou quase nunca, na informação nele contida.
Pelos dias de hoje assusta-me os revisionismos historicos, sobretudo os que pretendem lavar e levar algumas figuras negras e sinistras. Parto de um princípio que alguns historiadores seguiam. A verdade histórica é tão mais verosímil quanto mais próxima for da narração dos factos.

Quanto a mitos desses tempos nada se compara à estória da consorte de D. Dinis, que perdurará para toda a eternidade como Santa, imune à avaliação crítica dos tais documentos. Para mim Santos é apelido. E de mau gosto, por sinal. Antes Fausto




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De Cristina Torrão a 21.06.2017 às 19:04

Vamos por partes:
- Eu não disse que a história era uma ciência, mas que passou a usar métodos científicos, baseada na interdisciplinaridade. A "significância estatística" é um deles. Dou dois exemplos. Na sua obra "Identificação de um País" (1º volume), o Prof. Mattoso serve-se muitas vezes da estatística para calcular, por exemplo, a densidade demográfica no período medieval no norte e no sul do país. Para isso, compara várias estatísticas relativas à idade do casamento feminino, partindo do princípio que «nas regiões mais densamente habitadas se retarda o casamento da mulher e se mantêm os parentes na mesma casa, nas de densidade mais reduzida, a mulher pode casar mais cedo e a fragmentação da família nuclear é mais espontânea». Comparam-se números e estatísticas, a fim de se poder calcular aproximadamente a densidade demográfica.

Um outro exemplo, é o artigo do Prof. Abel Estefânio, na revista "Medievalista online", a fim de tratar da problemática do local de nascimento de D. Afonso Henriques. Tendo em conta as lutas entre Guimarães, Coimbra e Viseu, o Prof. Abel Estefânio diz que o nosso primeiro rei talvez nem tenha nascido em solo português, já que os seus pais, nessa altura, quedavam-se mais pela corte leonesa do que no condado portucalense. Este Professor da Universidade do Porto organiza os documentos assinados por D. Henrique e D. Teresa em tabelas e quadros (cálculos, estatísticas, números), a fim de tentar desenhar o percurso (geografia) dos condes portucalenses entre Julho de 1103 e Julho de 1109. Se quiser ler este artigo interessantíssimo, pode fazê-lo aqui:

http://www2.fcsh.unl.pt/iem/medievalista/MEDIEVALISTA19/estefanio1906.html

O tempo em que os historiadores se limitavam a fixar datas e a interpretar escritos da época já lá vai. A História exige outros métodos e isso de a verdade histórica ser «tão mais verosímil quanto mais próxima for da narração dos factos» também é muito discutível, precisamente porque os narradores medievais não se preocupavam com a objectividade dos seus escritos (não cabia na sua mentalidade fazê-lo). Baseavam-se sobretudo na tradição oral. Podemos comparar com os Evangelhos, por exemplo, que foram escritos apenas alguns anos depois da morte de Cristo. Dizem a verdade? Limitam-se aos factos? Voltando à data de nascimento de D. Afonso Henriques: num outro artigo, de 2010, o Prof. Abel Estefânio mostra como a problemática se torna cada vez mais complicada, à medida que se recua nas fontes, a última, escrita escassas décadas depois da morte do nosso primeiro rei. Pode ler aqui:

http://www2.fcsh.unl.pt/iem/medievalista/MEDIEVALISTA8/estefanio8002.html

Hoje em dia, há a preocupação de ser o mais objectivo possível, o que torna o estudo da História mais minucioso e demorado do que nunca. Mas é um facto que a verdade é muito difícil, senão impossível, de apurar, devido às interpretações, ao olhar de cada um. Por isso mesmo, o Prof. Mattoso inicia a sua biografia de D. Afonso Henriques (Temas e Debates 2007) com a seguinte (e extraordinária) frase: «Não é preciso ser historiador profissional para perceber que não se pode traçar a biografia de uma personagem medieval sem uma grande dose de imaginação».

Penso, porém, que o dever de um escritor que queira divulgar a história, escreva ou não ficção, seja fazê-lo à luz de informações o mais actuais possíveis. No caso da ficção, pode usar a imaginação e a criatividade para aspectos ainda não esclarecidos, mas deve orientar-se por aquilo que está historicamente provado.
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De Einsturzende neubauten a 21.06.2017 às 23:15

Obrigado pela resposta
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De Cristina Torrão a 22.06.2017 às 19:19

De nada. Obrigada eu pelo seu interesse por este tema.
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De João Fernandes a 21.06.2017 às 12:24

Obrigado, gostei da divulgação do blogue! Além de aprender algo de Shakespeare, concordo com a autora nas más circunstâncias de certas visões históricas. Nessa fantasmática ligação entre o Pinhal de Leiria e os Descobrimentos há outro culpado:

«Na noite escreve um Cantar de Amigo
O plantador de naus a haver.» (Fernando Pessoa)

Isto contribui para uma visão pueril, muitos dos que oficiam tal sentido estão a sedimentar um passado linear, messiânico e sem os conflitos sociais e de classe que depois ao contrário até ideologicamente defendem.
Decorre daí o epíteto 'Lavrador', quando porém, além de poeta, Dinis estimulou economicamente o reino - beneficiando da política monetária do pai bolonhês Afonso III -, e quando ouvimos o elogio do João de Barros das "Décadas", «excelente rei... autor em Lisboa da grã Rua Nova dos Mercadores que em todas as partes será tão NOMEADA como TEMIDA.»
Todas estas anomalias inconscientes e conscientes são o caudal da imagem dum país hoje dado como pretensamente harmónico e que radicalizou no esquecimento e omissão.
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De Cristina Torrão a 21.06.2017 às 19:10

Gostaria apenas de ressalvar que Fernando Pessoa não possuía as informações que temos hoje. O estudo da História de Portugal, nessa altura, era ainda medieval. O grande avanço só foi iniciado a partir dos anos 1980, graças ao empenho do Professor Mattoso, que não se deixou abater na sua incessante procura da verdade histórica e revolucionou a investigação no nosso país.
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De Luís Lavoura a 21.06.2017 às 15:16

Não há nenhum livro de leitura obrigatória no 6º ano de escolaridade. Nem sequer de leitura recomendada, no sentido em que os professores não recomendam aos alunos que leiam nada.
Só surgem livros de leitura obrigatória muito mais tarde, lá para o 10º ano, mas mesmo aí boa parte dos alunos não os lê.
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De Cristina Torrão a 21.06.2017 às 19:16

Bem, está lá "leitura obrigatória", mas talvez seja apenas uma sugestão.
Como eu escrevi no "post": as livrarias online acrescentam a informação “livro recomendado para o 6º ano de escolaridade, destinado a leitura orientada”.
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De Pedro Correia a 21.06.2017 às 15:40

Bem-vinda ao DELITO, Cristina. Cumprimento-a pela qualidade do seu texto, o que aliás não surpreende.
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De Cristina Torrão a 21.06.2017 às 19:18

Muito obrigada, Pedro.
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De WW a 21.06.2017 às 19:00

" Para expor o mínimo projecto os portugueses têm o hábito de se perderem em considerações inúteis."
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De xico a 22.06.2017 às 01:11

Sinceramente, sinceramente...? Estou muito mais preocupado com a qualidade literária do poema!
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De xico a 22.06.2017 às 01:20

Falar de rigor e depois dizer-se que D. Dinis não previu os descobrimentos porque a conquista de Ceuta se dá cem anos depois da sua morte, parece-me ligeiro.
Diniz fundou a marinha portuguesa (ou pelo menos deu-lhe consistência regular), salvou os templários, e o seu filho afirmou ter redescoberto as Canárias após navegações iniciadas no Atlântico no seu tempo, pelo que o interesse pela conquista do mar é, em Portugal, anterior à conquista de Ceuta, e muito possivelmente (não sou historiador) um projeto de D. Diniz passado ao filho. Podia não ser adivinho, mas podia muito bem ser um visionário. Não é necessariamente a mesma coisa.
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De Cristina Torrão a 22.06.2017 às 12:49

Caro Xico, pode dizer-se que D. Dinis fundou a marinha portuguesa, sim. Pelo menos, organizou-a e foi o primeiro rei a nomear um almirante-mor. Sendo assim, a sua preocupação em mandar plantar árvores que cresciam depressa pode também apontar para a necessidade de se construírem naus. Porém, a sua maior preocupação era vigiar a costa portuguesa, frequentemente atacada por piratas. Sempre foi um problema, mesmo antes da formação de Portugal. Aos "vikings", seguiram-se os mouros. Além disso, como D. Dinis também se envolveu nas guerras castelhano-aragonesas a propósito da sucessão do trono de Castela, a marinha deste reino chegou a empreender grande ataque à cidade de Lisboa. O seu fito principal seria, por isso, a defesa das águas portuguesas.
Também tinha interesses comerciais. D. Dinis pretendeu, acima, de tudo, criar riqueza (e conseguiu-o; a partir de certa altura do seu longo reinado - mais de quarenta anos - Portugal era o reino mais próspero da Península e ajudou muitas vezes uma Castela falida, coisa pouco divulgada na nossa História) e fomentou as trocas comerciais também por mar, a partir do porto de Lisboa.
Parece-me, porém, exagerado que ele visionasse a descoberta de novos continentes, pelo que, na minha opinião, não é correcto ligá-lo directamente a essa fase da nossa História. Pode dizer-se que, ao organizar a marinha, terá criado o embrião para o que se seguiria depois. Mas não posso concordar com os versos:
«Mas o reino era tão pouco
que se pôs a perguntar:
- E se o mar fosse um caminho
deste lado para o outro?»
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De xico a 22.06.2017 às 14:01

Tudo bem. A defesa da costa podia ser o fito principal. Mas deixemos a má rima de lado, até porque o mar era sabido ser caminho desde gregos e fenícios, para não falar nos povos da idade da pedra que ocuparam as ilhas do Pacífico. As descobertas não tinham como fito descobrir novos continentes mas descobrir novas rotas para chegar à Ásia, continente sobejamente conhecido desde a antiguidade, e chegar às fontes dos produtos africanos que vinham pelas caravanas que atravessavam o pavoroso oceano do deserto do Saara. E por interesse comercial. Daí a importância da navegação atlântica que se começava a fazer como se explica pela redescoberta das Canárias. Podemos estar a ser demasiado especulativos e conspirativos, mas não é desprezível o conhecimento dos Templários sobre terras e bens a sul dos trópicos e ilhas do Atlântico (é quase certo que os Açores fossem conhecidos na antiguidade, por haver indícios da sua ocupação antiga) e que esse conhecimento influenciasse as decisões e o planeamento do rei. Planeava-se a longo prazo. Talvez seja isso que hoje nos surpreende.
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De Cristina Torrão a 23.06.2017 às 12:20

No fundo, o que acho poder ser preocupante é muitos professores de Língua Portuguesa não terem formação histórica suficiente e caírem no erro de apresentar este poema como se de um documento histórico se tratasse, não o reflexo da liberdade de poeta, ou escritor de ficção. Era importante que dissessem, pelo menos, que se deve encarar com muitas reservas essa versão de D. Dinis ter mandado plantar o pinhal para proporcionar, mais tarde, a construção de caravelas.
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De xico a 23.06.2017 às 21:37

Sem dúvida. Sobretudo encarar com muitas reservas esta versão de rima fácil de D. Dinis.

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