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Convidada: CARLA ROMUALDO

por Pedro Correia, em 22.09.17

 

Tântalos

 

Uma das histórias (“Will-o’the-Whisp”) de Sum: Tales from the Afterlives (uma compilação de contos breves sobre possíveis vidas depois da morte escritos pelo neurocientista David Eagleman) descreve um Paraíso que inclui uma sala repleta de monitores. Aí, o recém-morto descobre, para seu grande espanto e euforia, que poderá seguir tudo, rigorosamente tudo o que vai acontecendo aos vivos. Vai saltando de câmara em câmara e acompanhando o que sucede ao seu legado: as alegrias e infortúnios dos filhos e netos, de que modo é evocado por quem o conheceu, a evolução dos projectos que criou ou de que fez parte, as crianças que trepam à árvore que plantou, os novos habitantes da casa que foi sua, etc.

Rapidamente fica viciado nessa actividade. Corre todas as manhãs para os monitores e aí passa o dia até ao encerramento da sala. Quer sempre ver mais, saber mais, sofre e alegra-se com quanto vê mas nunca fica saciado. É como se a vida, a sua vida, ainda lhe pertencesse. A visão que possui agora da complexa rede de acontecimentos e suas consequências é múltipla, profunda, total; mas está impossibilitado de qualquer tipo de intervenção. Não há mensagens sussurradas em sessões de mesas de pé-de-galo, nem aparições fantasmagóricas, nem sinais de espécie alguma. Tudo verá e nada poderá fazer. Apesar disso, o morto – cada vez menos recente – regressa todos os dias à sala com igual sofreguidão.

O acesso à sala dos monitores, porém, tem um prazo de validade. Em algum momento, o cartão de acesso deixará de funcionar e o morto ficará de fora, a olhar os portões que outros transpõem mas ele não, e reparará que do lado de fora há outros como ele, a rondar, à espera de uma oportunidade para iludir a segurança e regressar à sala, coisa que nunca mais ocorrerá.

O prazo de validade do cartão de acesso não é aleatório. Cada recém-chegado tem a sua vida escrutinada. Os que fizeram sobretudo boas acções são os que primeiro perdem o acesso à sala dos monitores. A esses, como recompensa, é poupado o conhecimento de um futuro que não viverão.

 

Fontana-di-Trevi[1].png

 

Tendo por certo que a memória tem os seus caprichos, ninguém estranhará que me tenha lembrado deste conto, assim como da história de Tântalo, quando me vi frente à fonte de Trevi, em certa tarde de Verão. É que Tântalo, filho de Zeus, foi condenado a nunca saciar a fome e a sede, apesar de permanentemente mergulhado em água até ao queixo e à sombra de ramos carregados de frutos. Quando tenta alcançá-los, a água escapa-se e os ramos afastam-se. E a Tântalo, garanto-vos, assemelham-se os polícias que vigiam a fonte. Quando, saídos de umas quantas voltas por ruelas pouco prometedoras, se nos depara a luminosa Trevi, insolitamente ali, como se acabada de materializar-se, o primeiro que ouvimos são os frenéticos apitos. Em seguida, as vozes e risos da multidão. E só depois, muito depois, quando os ouvidos se habituam a tanta dissonância, a água.

Tardamos em descobri-los entre a multidão, mas aí estão, os polícias das fontes, acalorados, reluzentes de suor, muito morenos, a camisa demasiado justa para tão ampla curva da barriga, visivelmente irritados, ei-los, os guardiões do património, zelando para que nenhum turista com delírios de Ekberg se lance aos pés de Neptuno.

Não, enquanto eles aqui estiverem não haverá mergulhos, nem rabos sentados no mármore, nem pés nus a chapinhar, nem se lavarão rostos, cabelos, mãos, chapéus ou bandanas, nenhum gesto de desrespeito pelo património que constituem agora as fontes, ordem da presidente da Câmara. E aqui estamos, 42 graus à sombra, sedentos, sem poder avançar por entre uma multidão de turistas com câmaras, tantos são os paus de selfies ao alto que mais parece a rendição de Breda, aqui estamos frente à miragem luminosa da fonte onde Mastroianni, cheio de frio, já um pouco bêbedo, porque a produção tentou aquecê-lo com whisky, mergulhou atrás de uma deusa nórdica a quem as águas pareceram cálidas. O sensual quadro que guardávamos na memória transformou-se em cena absurda, ainda que italianíssima. O estrépito dos três, nada menos que três apitos – do lado esquerdo, no centro e do lado direito – enerva, mas a energia repreendedora dos agentes tem uma comicidade irresistível. Gesticulam, zangam-se, sopram o apito, mandam desencostar da fonte com gestos exagerados, vigiam o ritual do lançamento das três moedas por cima do ombro, um costume que um guia imaginativo garante provir do general Agripa, como se não soubéssemos que o devemos a Frank Sinatra.

 

 

Neptuno, a Abundância, a Fertilidade, a Colheita, cavalos alados resfolegantes, tritões ensandecidos – frente a nós está a vida, caótica, aos borbotões, mas não devemos tocar-lhe. Tampouco o farão os três homens. Quanto dariam os guardiões para poder cometer o delito que têm por missão prevenir…

E então, estourados, lábios a arder, pernas doridas, sandálias empoeiradas, voltamos costas a Trevi, com pena, e anunciamos bem alto que não, não desejaremos uma eternidade contemplativa com vista para o que não podemos provar.

Apitam os três em uníssono, como quem diz ámen, e cai o pano na tarde romana.

 

 

Carla Romualdo

(blogue AVENTAR)

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4 comentários

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De Pedro Correia a 22.09.2017 às 10:51

Excelente texto, Carla. Ao nível das suas crónicas do 'Aventar' de que eu tanto gosto. Bem-vinda ao DELITO.
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De Carla Romualdo a 22.09.2017 às 12:24

Muito obrigada, Pedro Correia, por essas leituras atentas e pelo convite, que tive muito gosto em aceitar.

Votos de muitos e bons posts a toda a equipa do Delito de Opinião!
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De amendes a 22.09.2017 às 12:01

Eis um texto que dá gosto ler e reler.

Felicidades
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De Maria Dulce Fernandes a 23.09.2017 às 19:34

Excelente.
Para reler, sorrir e pensar.

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