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Convidada: ALICE ALFAZEMA

por Pedro Correia, em 12.05.17

 

Balancé

 

Faz este ano precisamente dezassete anos que a minha mãe morreu, era Maio, o Dia da Mãe calhou num domingo dia sete e ela foi na terça dia nove. Foi levada pelo sono da tarde, nem uma expressão de dor, apenas ficou o frio extremo que eu jamais pensei existir.

Os meus avós eram pescadores, o meu pai também, pessoas habituadas ao risco e conhecedoras da morte. A minha mãe tinha uma doença incapacitante que a podia devorar a qualquer momento, no entanto ela era uma animadora de espíritos, isso fascinava-me. Como podemos viver em consciência lado a lado com a Vida e a Morte? Afinal não é isso o que fazemos todos os dias sem o notarmos? Sabemos apenas que existimos.

A consciência da sua finitude e uma fé imensa davam-lhe uma energia e um amor incondicional àquilo a que vulgarmente se chama de Amor pela Vida. A sua vontade férrea naquilo que queria conhecer, as coisas que não ficaram por dizer. Os abraços que demos e as vezes que chorámos como forma de alívio. Não deixámos nada para amanhã, foi tudo feito num hoje único. Vivemos coisas simples, apreciámos coisas simples, coisas banais, como o barulho da chuva, a cor de uma joaninha, a surpresa de ver a erva a crescer. Rimos muito, rimos quando havia motivo para rir e rimos também quando nos apetecia chorar, quando nos apetecia desistir.

A morte faz balancé na vida. Para cima, para baixo, para cima, para baixo, mais rápido, mais devagar, parado, a começar, a acabar. O que fizemos juntas nesse balancé ficou em mim, às vezes vem de mansinho, em sonhos, em cheiros, em paladares. Não são coisas palpáveis, são coisas minhas.

 

 

Alice Alfazema

(blogue ALICE ALFAZEMA)

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27 comentários

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De Teresa Ribeiro a 12.05.2017 às 11:03

Que bonito, Alice!
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De Alice Alfazema a 12.05.2017 às 11:57

Obrigada, Teresa.
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De Pedro Correia a 12.05.2017 às 11:22

Belo e comovente texto, Alice. É um gosto tê-la por cá.
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De Alice Alfazema a 12.05.2017 às 11:56

Obrigada, Pedro, é também para mim um enorme gosto poder escrever neste espaço.Estou muito feliz pelo convite.

Um abraço
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De Einstürzende Neubauten a 12.05.2017 às 12:03

"Como podemos viver em consciência lado a lado com a Vida e a Morte?"

Pois só assim:

Tendo "consciência da sua finitude(...) davam-lhe uma energia e um amor incondicional àquilo a que vulgarmente se chama de Amor pela Vida"

Belo texto, Alice

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De Alice Alfazema a 13.05.2017 às 12:34

Obrigada, Einstürzende (este nome é difícil de pronunciar).
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De Anónimo a 12.05.2017 às 13:03

Sei que vou repetir, mas foi o que tive vontade de dizer, logo que acabei a leitura deste texto, que, tendo forma de prosa, é um verdadeiro poema à vida:
- Que bonito!
João de Brito
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De Alice Alfazema a 13.05.2017 às 12:35

Muito obrigada, João.
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De lucklucky a 12.05.2017 às 16:16

Bom.
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De Helena Sacadura Cabral a 12.05.2017 às 21:21

Alice
Que belo texto e que bom ter-se sido filha de alguém assim.
Lembrei-me muito da minha Mãe de quem tenho imensas saudades!
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De Alice Alfazema a 13.05.2017 às 12:42

Obrigado, Helena. É verdade, as mães que são assim moram eternamente no nosso coração, até nos podemos dar ao luxo de lhes falarmos quando precisamos.
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De Corvo a 12.05.2017 às 22:11

Alice Alfazema. Uma Senhora de classe.
Pelo bom-gosto, saber estar, delicadeza e cuidada beleza descritiva, Um blog de grande qualidade e referência obrigatória.
Particularmente honra-me a sua leitura.
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De Alice Alfazema a 13.05.2017 às 12:37

Muito obrigada, Corvo.
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De C.S. a 17.05.2017 às 12:01

Triste, comovente e, de certa forma, enternecedor.
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De Alice Alfazema a 18.05.2017 às 21:40

Eu não queria que isto fosse triste, mas apenas um alerta para quem precisar enquanto ainda é tempo. :)
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De Maria Araújo a 17.05.2017 às 13:16

Um belo texto.
Saudades da minha, que confiava muito em mim.
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De Alice Alfazema a 18.05.2017 às 21:41

A confiança é um bem precioso, é um dos ramos do Amor. :)
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De Cristina Torrão a 17.05.2017 às 14:39

Tão bonito, Alice! Estou aqui a chorar. Este seu texto tocou-me de maneira incrível. Será a beleza? Será por aquilo que não vivi? Será por tanto amor? Será por tudo isso e mais alguma coisa...
A essência da vida num texto. Do mais bonito que já li.
Parabéns e obrigada!
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De Alice Alfazema a 18.05.2017 às 21:54

Talvez seja pela diferença daquilo que viveu e do que precisava ter vivido. Por vezes os pais não têm a capacidade de mudar a forma de como foram amados, e transportam isso para o amor que dão aos filhos, ou o que julgam dar, dão o que receberam. Eu creio que o perdão pode transformar laços, sei que não apaga nem faz esquecer as acções a que fomos sujeitos, mas faz-nos mais felizes.

Um abraço grande Cristina.
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De Cristina Torrão a 19.05.2017 às 11:53

É isso mesmo, Alice. Penso que faltou esse olhar para as coisas simples da vida. Mas cada um sabe da sua vida, há circunstâncias, há convicções, há diferentes sensibilidades... Não me estou a queixar e sei que ninguém teve o propósito de me prejudicar, fosse no que fosse. Pelo contrário, foi tudo a pensar no melhor. Mas há certas coisas que tenho (e tive) de aprender por mim. Não tem sido fácil e, afinal, pode ser tão simples... Acho que é isso que me emociona no seu texto.

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