Saltar para: Post [1], Comentários [2], Pesquisa e Arquivos [3]




Contra os terroristas, informar, informar(-nos)

por João André, em 27.03.16

Trabalho em na Bélgica, e vivo na Holanda. Isso significa que todos os dias atravesso a fronteira. Depois dos atentados da semana passada, comecei a ver que para entrar na Holanda havia engarrafamentos de 10 km a provocar attrasos de uma hora. Consequência dos controlos fronteiriços impostos pelas autoridades holandesas. Ao mesmo tempo as estações de Maastricht e Leuven estiveram fechadas por causa de embalagens abandonadas (talvez tenha havido outros casos nos dois países, mas estes conheço melhor). Também me chegou aos ouvidos que uma auto-estrada belga foi encerrada temporariamente porque estaria uma embalagem à beira da estrada.

 

Casa roubada, trancas à porta. É a natureza humana. Depois dos atentados, mesmo sendo inútil, tomam-se medidas excepcionais para tentar evitar que se repitam. Não adianta muito, claro. Os bombistas eram suicidas - não deixaram embalagens abandonadas, e eu nunca me atrasei porque o Google Maps me deu alternativas onde não existiam engarrafamentos - logo, sem controlos fronteiriços. Isso não impede que se tente, até porque é necessário para tentar transmitir a imagem de se estar a fazer qualquer coisa.

 

Por isso não concordo com uma linha que seja do Luís neste post. A polícia belga está a usar imensos recursos nas suas buscas por possíveis cúmplices dos terroristas. Está simultaneamente a procurar outras possíveis células. Não tem neste momento condições para deslocar forças que protejam os muitos milhares que certamente surgiriam numa manifestação permitida. Com os mil que surgiram já houve problemas. Imaginemos com uns 20, 30 ou 100 mil. Além disso há a simples questão de bom senso: se a polícia tem informações que ainda existirão terroristas não identificados, activos e livres, uma tal manifestação seria o mesmo que abrir um camião de mel numa zona de ursos.

 

Já quanto à referência a Alberto Gonçalves, fiquei de início de pé atrás. Confesso que não gosto de o ler. Normalmente prefiro as cartas da Maya, uma literatura infinitamente mais inteligente. Decidi dar o benefício da dúvida e agora, depois de dois lexotans, posso concluir que é o monte de esterco habitual. Desde a imbecilidade inicial sobre "terrorismo islâmico" ser um pleonasmo até ao facto de não perceber absolutamente nada sobre o que, por exemplo, serão medidas que recaem sobre a população afectada (mostrar solidariedade, o elogio pontual do trabalho das autoridades, etc) e aquilo que poderão ser medidas de combate aos terroristas. Alberto Gonçalves, o burro idiota (estes sim, pleonasmos), não percebe aquilo sobre que escreve (sic) e ainda aproveita para demonstrar a sua intolerância. Volto assim à minha dieta e não o lerei nos próximos anos, a bem da minha saúde mental.

 

Há por fim um aspecto que é essencial entender: há sempre razões para os terroristas decidirem um dia enfiar um cinto de explosivos e matarem tanta gente quanto possível enquanto se suicidam. Não é por serem muçulmanos, não é por serem árabes, não é por serem loucos e criminosos, não é por serem - nem que por uns momentos - absolutamente desumanos. É por isto tudo e por muito mais. No penúltimo parágrafo, Alberto Gonçalves parece ter um momento de lucidez (terá o editor escrito isso?) e contradiz tudo aquilo que escreveu atrás. Os terroristas são-no por diversas razões, incluindo o local onde cresceram, as mensagens a que foram expostos, a percepção dos eventos que vão tendo, etc. Ignorá-lo e ignorar as vozes que o apontam - mesmo que apontem a sua razão como sendo "a única" - é perpetuar o problema.

 

Não sei resolver a questão. Se o soubesse posso garantir que o escreveria aqui para que pudesse ser devidamente ignorado. Sei no entanto que as razões para esta explosão se encontram no nosso presente e no nosso passado. Encontram-se nos cruzados de há mil anos e nos modernos (ou pelo menos percebidos como tal) que estupidamente ignoraram o xadrez geopolítico da região. Estão na pobreza de quem sofre todos os dias e na riqueza de quem lhes dá os meios para se irem explodir. Estão em muitos mais pontos que muita gente bastante mais informada e inteligente que eu já apontou. Mas não estão nem no post do Luís nem no artigo de AG (à excepção do momento out of body do parágrafo atrás).

 

Há muito que se sabe que informação é necessária para vencer guerras. Muita gente julga que bastam bombas ou um estado policial. Enquanto estes últimos dominarem, a guerra continuará a ser vencida pelos terroristas.

Autoria e outros dados (tags, etc)


17 comentários

Sem imagem de perfil

De ali kath a 27.03.2016 às 23:31

talvez possa dar pormenores sobre a morte do director da segurança da central nuclear de Charleroi
Imagem de perfil

De João André a 29.03.2016 às 11:17

Não, não posso.
Sem imagem de perfil

De jj.amarante a 28.03.2016 às 01:11

Palavras sábias, no meio da algazarra é reconfortante encontrar textos sensatos. E por curiosidade fui ver a origem de "algazarra" e diz a wikipédia que era o alarido ou a gritaria que faziam os mouros quando iniciavam um combate.
Imagem de perfil

De João André a 29.03.2016 às 11:17

Nunca tinha pensado em procurar saber a origem da palavra. Fico mais informado. Obrigado.
Sem imagem de perfil

De gtu a 28.03.2016 às 07:09

"Não é por serem muçulmanos, não é por serem árabes, não é por serem loucos e criminosos, não é por serem"

Devo andar distraído, mas pode dizer onde é que por esse mundo não muçulmandos, se estão a fazer explodir e a matarem inocentes?
Imagem de perfil

De João André a 29.03.2016 às 11:18

Faz diferença se se explodem a si mesmos? Se faz, então vai encontrar poucos. Se o que interessa é a morte de inocentes, então basta ir abrindo jornais e encontrará muitos casos.
Sem imagem de perfil

De Anónimo a 28.03.2016 às 08:47

vives na bélgica mas és um bocado parvo. Também os lideres belgas preferem a Maya a lidarem com a realidade. Há noite não há rusgas nos bairros muçulmanos. E na sexta feira ? com lideres destes e gajos que preferem a Maya, prepara-te pois no próximo atentado podes estar por perto.
Imagem de perfil

De João André a 29.03.2016 às 11:19

O tipo de comentário perfeito para mim. Agradeço-o, porque nem preciso de o comentar.
Terminar com o desejo camuflado da minha morte é o melhor elogio que este tipo de sabujos me pode dar.
Imagem de perfil

De Paulo Sousa a 28.03.2016 às 14:26

Então, segundo o que diz, quando estivermos a chorar aqueles que tombaram e tombarão ceifados pelas bombas caseiras, devemos ignorar que todos os bombistas suicidas das últimas décadas são muçulmanos, e ainda que devemos engolir em seco pensando que a culpa é dos cruzados de há mil anos e dos modernos. Teremos também de bater com a mão no peito e proferir o Mea Culpa.
Recuso-me a aceitar isso.
Os tempos que vivemos são compatíveis com o politicamente correcto apenas para quem quiser expiar pecados alheios.
Mesmo que o negue o mundo ocidental está sob ataque. Já se ouvem explosões e já cheira a sangue. O seu texto mostra o estado de negação habitual após os choques violentos. É normal, afinal foram mais de 70 anos de paz, mas é apenas uma fase.
É sabido que a guerra corrompe moralmente quem nela é envolvida e o fim do politicamente correcto será apenas o primeiro nível dessa corrupção moral.
Como eu gostaria de estar errado, mas o pior está ainda para vir.
Imagem de perfil

De João André a 29.03.2016 às 11:32

Está mal informado, nem todos os bombistas suicidas das últimas décadas foram muçulmanos. Há quem diga que o primeiro bombista suicida "moderno" era russo (não muçulmano). Os Tigres Tamil também usaram a táctica de forma ainda mais entusiasta que os muçulmanos.

Independentemente disso, faz diferença que o atacante se rebente a si próprio? A mim isso é indiferente. Se explodir com a carga a uma distância segura isso já o tornaria menos terrorista? McVeigh era apenas um tipo que se enganou no edifício a demolir, suponho.

Há ainda um problema com a sua lógica, que é o facto de não existir.
Você parte do princípio que, por todos estes terroristas serem muçulmanos, os muçulmanos são terroristas. Aconslho-o a reaprender a amtemática do oitavo ou nono ano e reler alguma coisa sobre condições necessárias e condições suficientes.
Imagem de perfil

De Paulo Sousa a 30.03.2016 às 00:12

Se quer aliviar a carga negativa ao Islão, no seu lugar teria antes falado da ETA e do IRA que eram católicos e, embora noutros tempos, mataram muito mais gente na Europa que os radicais islâmicos na atualidade. Mas os alvos escolhidos representavam a autoridade do estado que respectivamente combatiam. As baixas civis eram colaterais.
Apesar disso não lhe recomendo que reaprenda história ou qualquer outra matéria porque as questões académicas são a sua especialidade.
Digo-lhe ainda que conheço razoavelmente o Médio Oriente, região onde me desloco confortavelmente e onde tenho vários amigos. Sei o que são muçulmanos moderados sunitas e xiitas, e sei que muitos deles manifestar-se-iam contra os radicais que dão mau nome à religião, mas não fazem por medo de represálias. O mesmo acontece também entre muitos islamitas residentes na Europa.
Ao fim e ao cabo 99% de todos nós, homo sapiens sapiens, o que queremos mesmo é conseguir alimentar diariamente os nossos filhos e… chegar a velhos. Para uns o instinto de sobrevivência explica a flexibilidade conceptual com enfrentamos as ameaças. Para outros é falta de coragem. Eu acho que, como disse, é apenas a fase de negação.
Se o entender também pode contrapor a segunda metade do meu comentário.

PS: Lembrei-me de um texto meu de 2009 sobre o Ramadão.
http://vilaforte.blogs.sapo.pt/270346.html
Imagem de perfil

De João André a 30.03.2016 às 08:55

Não referi esses grupos por duas razões: 1) como referiu eram grupos diferentes, com tácticas diferentes e objectivos estratégicos diferentes. Não queriam destruir o inimigo, apenas tirá-lo daquilo que viam como os seus países. Tinham também ambições políticas para o "pós-guerra" e como tal queriam manter uma certa aura de legitimidade. 2) não estamos a falar desses grupos. Apenas referi outro grupo (os Tigres Tamil) pela referência aos ataques suicidas.

Há ainda um aspecto importante a recordar: a ETA e o p-IRA eram grupos não só nacionalistas como também motivados ideologicamente (salvo erro maoístas, embora isso dependesse das células em questão, que poderiam ser leninistas, trotskistas, etc...). No médio oriente muitos dos grupos no passado eram também comunistas (difícil definir comunismo no meio das diferentes vertentes, mas deixemos o termo genérico) e agora são aparentemente motivados apenas pela religião.

Eu não conheço a região, nunca tive oportunidade para isso. Estive no Egipto e parei uma ou outra vez em Abu Dabhi (que não conta, eram trânsitos) e foi tudo. Conheço bastantes árabes e persas, tanto sunitas como xiitas (e até cristãos), mas não é o mesmo. Não têm problema em ser moderados e dizem-me que também nos seus países (Iraque, Iémen, Eritreia, Irão, Palestina, Líbano, mas não conheço sauditas) o são sem problemas. Ainda assim isso pouco significa, tal como a sua experiência o poderá significar. São casos pontuais e eu não faço ideia de o quão representativos o serão. Consigo imaginar que na Arábia Saudita não seja aconselhável ser-se moderado. Sei também que em qualquer daqueles países (pouco democráticos, para ser simpático) é má ideia distinguirem-se da multidão (como se costuma dizer, o prego que salta é martelado primeiro).

Eu concordo consigo: a maioria da população (eu diria que mais de 99%) quer de facto chegar a velho, reproduzir-se para passar o seu ADN e gozar a vida como possa. Uns quantos não. Alguns são muçulmanos e outros são outra coisa qualquer. A diferença é que, neste momento, alguns destes muçulmanos decidiram matar os outros e fazem-no baseando-se em leituras enviezadas da sua religião, numa leitura selectiva da sua história e recrutam entre populações receptivas à mensagem de jihad.
Imagem de perfil

De João André a 30.03.2016 às 08:58

Gostei muito do seu texto sobre o Ramadão. Coincide com o que vi(vi) quando estive no Egipto. Apanhei os últimos dois dias de Ramadão e a festa final. É um excelente texto, agradeço-lhe a partilha.

PS - só para me poder acusar de ser um "math nazi" : em português, um bilião é um milhão de milhões. Em inglês, um "billion" é um milhar de milhões. No seu texto everia ter escrito "mil e quinhentos milhões" ou algo de semelhante.
Imagem de perfil

De Paulo Sousa a 30.03.2016 às 23:13

Partilhei o texto sobre o Ramadão para o enquadrar da minha perspectiva sobre o islão. Não que lhe deva explicações mas, entenda o que quiser, não considero que a minha opinião seja baseada em meia dúzia de atoardas ouvidas e ditas com a barriga no balcão do café.
Apesar disso concordo com muitas das sugestões que critica no seu texto. O nosso modo de vida está a ser ameaçado. Os alvos dos terroristas não são as vitimas, para mim anónimas, de Bruxelas, de Paris ou de Nova Iorque. Os alvos são a nossa liberdade, a democracia, os direitos das mulheres e muitos outros valores do mundo ocidental.
Quando as explosões ecoam pelos ares e há sangue de inocentes no chão, é chegada a hora de deixar de lado a analise académica das motivações, o politicamente correcto e urge defendermos os valores que herdamos e tanto custaram a estabelecer.
Como naquela passagem de "O bom, o mau e o vilão" em que o vilão diz: "When you have to shoot, shoot. Don't talk".
Como eu gostaria de estar errado, mas o pior está ainda para vir.
Imagem de perfil

De João André a 31.03.2016 às 10:42

Antes de mais uma pergunta: depois da sua réplica à minha resposta, dei-lhe a impressão que tenho pouca consideração pela sua opinião? É que expressões como "não lhe devo justificações" normalmente vêm de pessoas que se sentem ofendidas ou atacadas. Espero que não se sinta essa forma.

O seu comentário: nem as suas experiências pontuais, nem as minhas nem as de (quase) ninguém individualmente servirão de guia para o que sucede ou se pensa no médio oriente. Só a colecção das mesmas poderá dar indicação. Caso contrário nunca sabemos se a nossa amostra é representativa ou não.

No meu texto eu não critico quaisquer sugestões porque não existe uma única nos textos de LML nem de AG. Apenas críticas a uma forma de pensar (e no caso de AG nem sequer são críticas honestas porque distorcem intencionalmente aquilo que analisam). Se existirem sugestões eu poderei criticar, elogiar ou confessar-me ignorante acerca dos seus méritos. Mas elas têm que existir.

E eu concordo consigo quando fala nos alvos. Apenas adiciono que são também as pessoas, porque são vistas como bónus: são infiéis que merecem a morte e que Alá os julgue. Os seus destinos estão escritos e, como tal, os actos dos terroristas são apenas os meios para cumprir a vontade de Alá que quer esses infiéis mortos. É uma forma de pensar bastante útil a quem quer atacar outros, porque os desculpabiliza e permite que, se houver virtuosos entre os mortos, esses serão vistos como mártires. Nada disto invalida aquilo que V. escreveu: os principais alvos são a nossa sociedade e os seus valores.

Aquilo que esencialmente critico é a ideia que para defender os nossos valores não temos que compreender os adversários. Se não o fizermos é necessário avançar com redes de malha fina (ou espadas muito grandes, como preferir a metáfora) e isso irá inevitavelmente apanhar pessoas que nada têm a ver com terroristas, muçulmanos ou não. Nesse caso, ao defender os nossos valores, esteremos a violá-los. Pense no waterboarding e terá o perfeito exemplo de um método que é contra os nossos valores e nem sequer é eficaz.

A verdade é que a linhas dos filmes são muito boas para citar mas não são boas para servir de política. A sua referência faz-me lembrar uma de Mike Huckabee quando andava nas primárias do Partido Republicano há uns anos. Ao lhe perguntarem qual a sua política de defesa respondeu: "Duas palavras. Chuck. Norris." Grande resposta, mas não é uma política nem uma estratégia.
Imagem de perfil

De cristof a 28.03.2016 às 19:10

O que me interessa mais é a sua opinião, já que vive aí e presencia as dificuldades duns e doutros. As opiniões de quem sabe e tem a certeza de tudo são como as do orelhudo: não chegam ao céu.
Imagem de perfil

De João André a 29.03.2016 às 11:34

Obrigado cristof. De facto não vale a pena termos certezas além do facto de estes crimes serem atrozes. Podemos discordar (e nós dois discordamos muitas vezes) mas a troca de opiniões deve levar em consideração que se trata disso mesmo: opiniões.

Comentar post





Links

Blogue da Semana

  •  
  • Afinidades

  •  
  • Lá fora cá dentro

  •  
  • Mais ligações

  •  
  • Informações úteis


    Arquivo

    1. 2017
    2. J
    3. F
    4. M
    5. A
    6. M
    7. J
    8. J
    9. A
    10. S
    11. O
    12. N
    13. D
    14. 2016
    15. J
    16. F
    17. M
    18. A
    19. M
    20. J
    21. J
    22. A
    23. S
    24. O
    25. N
    26. D
    27. 2015
    28. J
    29. F
    30. M
    31. A
    32. M
    33. J
    34. J
    35. A
    36. S
    37. O
    38. N
    39. D
    40. 2014
    41. J
    42. F
    43. M
    44. A
    45. M
    46. J
    47. J
    48. A
    49. S
    50. O
    51. N
    52. D
    53. 2013
    54. J
    55. F
    56. M
    57. A
    58. M
    59. J
    60. J
    61. A
    62. S
    63. O
    64. N
    65. D
    66. 2012
    67. J
    68. F
    69. M
    70. A
    71. M
    72. J
    73. J
    74. A
    75. S
    76. O
    77. N
    78. D
    79. 2011
    80. J
    81. F
    82. M
    83. A
    84. M
    85. J
    86. J
    87. A
    88. S
    89. O
    90. N
    91. D
    92. 2010
    93. J
    94. F
    95. M
    96. A
    97. M
    98. J
    99. J
    100. A
    101. S
    102. O
    103. N
    104. D
    105. 2009
    106. J
    107. F
    108. M
    109. A
    110. M
    111. J
    112. J
    113. A
    114. S
    115. O
    116. N
    117. D