Saltar para: Post [1], Comentários [2], Pesquisa e Arquivos [3]




Confrangedor

por Sérgio de Almeida Correia, em 07.06.14

 

(foto da Lusa)

 

Ano após ano, a lista repete-se com uma assustadora previsibilidade e um traço comum que é a desvalorização da noção de serviço à comunidade, à causa pública, numa repetição parola e cada vez mais pungente daquilo que devia ser o reconhecimento de uma cidadania de excepção. Ao invés, continua-se a valorizar a banalidade, a misturar o azeite mais puro com o detergente barato, a colocar no mesmo patamar a carreira construída a pulso, com trabalho e empenho, com a carreira construída à sombra da sorte, do favor político e empresarial, da porta que se abriu em nome do apelido ou da origem da casta. Como se a atribuição de medalhas a eito no Dia de Portugal devesse ser eternamente uma celebração barata e ordinária com ofertas de brindes, recepções e espectáculos anódinos para o povo ignorante se entreter antes de se entregar aos tendões de Cristiano Ronaldo. Como se o momento mais importante para a exaltação de uma cidadania de excepção, talhada no rigor, na seriedade intelectual, na força do carácter, pudesse ser tão recorrentemente desvirtuado perante a complacência e vacuidade dos frequentadores de salões, o silêncio dos partidos políticos e seus dirigentes e a acomodação dos espíritos livres.

Que me perdoe Eduardo Lourenço, mas quando um dia a República num acto de inteligência fizer a contabilidade das condecorações que os seus Presidentes atribuíram numa democracia adulta e consolidada, não será bonito de ver os nomes alinhados. E mais triste será ver os nomes de quem as atribuiu.

No dia em que o Dia de Portugal for celebrado por Portugal e pelos portugueses não haverá este espectáculo boçal e boçalizante das condecorações. E o Presidente da República será mais um no meio dos seus. E nesse dia, então, o cidadão número um será capaz de perceber por que razão um dia se fez Portugal e Portugal nunca se cumpriu. Só nesse dia a República atingirá a idade adulta. Portugal cumprir-se-á. E poderá, finalmente, sair da letargia em que vive há décadas controlada na sombra por meia dúzia de estupores. E levantará a cabeça para honrar os seus verdadeiros heróis, recordar a sua obra, recolher a sua lição e projectar um futuro que faça jus à dimensão do sonho camoniano.

A única e verdadeira medalha que enquanto portugueses estaremos em condições de poder receber, celebrar e honrar.

Autoria e outros dados (tags, etc)


2 comentários

Sem imagem de perfil

De António Cabral a 07.06.2014 às 12:19

Muito boa tarde.
Aceite o meu aplauso pelas suas palavras acerca desta cada vez mais (minha opinião, naturalmente) bafienta e indecorosa "cena" medalhística. Cena a que se junta, por exemplo, a cada vez mais caricata chegada do presidente da república (minúsculas ) rodeado de viaturas militares num aparato ridículo, à cerimónia na manhã de 10 Junho. Enfim, é como estamos, como continuamos. Cumprimentos. António Cabral (marrevoltado.blogspot.com)
Sem imagem de perfil

De da Maia a 07.06.2014 às 15:32

Muito bem, e aplaudo.

Porém, meu caro, quantos foram os que recusaram a medalha?
Conhecem-se poucos, por exemplo Defensor Moura:
http://www.dn.pt/inicio/portugal/interior.aspx?content_id=1743171
... e só isso é sinal de cumplicidade anuída entre medalhador e medalhado.

Uma medalha pode ser também uma nódoa, como a tradição nos ensina.
No formato actual é uma escolha personalizada no PR, pelas consultas pessoais que decide fazer.
A legitimidade de invocar o nome de Portugal vem da legitimidade que o PR tem neste regime. Portugal não é mais que isso, mais do que se constata ser.
O "Portugal que está por cumprir", da verdade acima do ilusionismo de Luís de Matos (honorável medalhado pelo Infante D. Henrique), esse Portugal tem muito poucos adeptos visíveis, e por isso a visibilidade das medalhas liga-se às nódoas que tem e não à limpeza que poderia ter.

Sei também que alguns candidatos a medalhados, órfãos de reconhecimento, pedintes de atenção, quase que se transmutam com tal medalhinha. Mais do que as medalhinhas de Fátima pode fazer milagres de conversão.
É uma celebraçãozita menor da República, importada da monarquia, e como qualquer moeda de troca, pelo seu fabrico desacreditado tende a perder valor, mesmo nos antiquários.

Comentar post





Links

Blogue da Semana

  •  
  • Afinidades

  •  
  • Lá fora cá dentro

  •  
  • Mais ligações

  •  
  • Informações úteis


    Arquivo

    1. 2017
    2. J
    3. F
    4. M
    5. A
    6. M
    7. J
    8. J
    9. A
    10. S
    11. O
    12. N
    13. D
    14. 2016
    15. J
    16. F
    17. M
    18. A
    19. M
    20. J
    21. J
    22. A
    23. S
    24. O
    25. N
    26. D
    27. 2015
    28. J
    29. F
    30. M
    31. A
    32. M
    33. J
    34. J
    35. A
    36. S
    37. O
    38. N
    39. D
    40. 2014
    41. J
    42. F
    43. M
    44. A
    45. M
    46. J
    47. J
    48. A
    49. S
    50. O
    51. N
    52. D
    53. 2013
    54. J
    55. F
    56. M
    57. A
    58. M
    59. J
    60. J
    61. A
    62. S
    63. O
    64. N
    65. D
    66. 2012
    67. J
    68. F
    69. M
    70. A
    71. M
    72. J
    73. J
    74. A
    75. S
    76. O
    77. N
    78. D
    79. 2011
    80. J
    81. F
    82. M
    83. A
    84. M
    85. J
    86. J
    87. A
    88. S
    89. O
    90. N
    91. D
    92. 2010
    93. J
    94. F
    95. M
    96. A
    97. M
    98. J
    99. J
    100. A
    101. S
    102. O
    103. N
    104. D
    105. 2009
    106. J
    107. F
    108. M
    109. A
    110. M
    111. J
    112. J
    113. A
    114. S
    115. O
    116. N
    117. D