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Conflito europeu

por Luís Naves, em 05.06.14

As crises dão origem a transformações e esse pode ser o caso da Europa, como sugere o antigo primeiro-ministro francês Michel Rocard, em Le Monde. O que está em causa é um conflito em torno da escolha pelo Conselho Europeu de Jean-Claude Juncker para candidato a presidente da comissão. O nome deve ser apresentado a votação no Parlamento Europeu, mas alguns países ainda recusam, entre eles o Reino Unido, para irritação francesa.

Os líderes deviam escolher outra pessoa e a apresentação de Juncker não é democrática, como tentei argumentar aqui. A rebelião dos eleitores tem muito a ver com a ideia de que as instituições europeias exorbitam os seus poderes à custa da soberania dos Estados. O Parlamento tem poderes a mais e, no caso Juncker, procura ocupar a esfera dos governos. 

Por isso, devemos discordar de Rocard, mas este texto a convidar os ingleses a uma saída da UE mostra o verdadeiro conflito do futuro. É natural que o Reino Unido acabe por desistir, antes de ‘destruir a Europa’, como admite o socialista francês. No texto são claras as ambições dos federalistas, ou seja, aprofundamento da união, decidido através de voto maioritário aplicado em políticas sociais, justiça ou fiscalidade.

A crise europeia dará talvez origem a um avanço destes planos e quem não tiver unhas para tocar guitarra ficará de fora. Os ingleses têm condições para manter o seu modo de vida, preservando a ligação ao mercado único. Franceses e alemães irão mais depressa, após resolverem os problemas do euro por meio de uma união política.

Em Portugal, esta possível evolução é mal compreendida, pois os políticos continuam a falar de uma Europa que nunca existiu, onde só há mecanismos de solidariedade e se podem ignorar as regras. Portugal é uma constante fonte de frustração: a crise do ano passado acabou com as reformas, a recente decisão do Tribunal Constitucional impossibilita a consolidação orçamental a que nos comprometemos. A esquerda não tem qualquer intenção de cumprir o Tratado Orçamental. Os europeus perdem a paciência e tratam os portugueses como crianças.

Se as recentes dificuldades europeias ensinaram alguma coisa foi o facto de comportamentos irresponsáveis de países pequenos poderem arrastar os maiores. Por isso, para nós não haverá colunas de jornal com educados pedidos de saída. Não temos essa importância. Haverá exigências, imposições, pegar ou largar, segundo resgate ou ainda pior.

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9 comentários

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De Manuel a 05.06.2014 às 11:19

Esta sim. Grande entrada.
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De da Maia a 05.06.2014 às 12:58

Pois, o nevoeiro adensa-se no Canal da Mancha e o continente está a ficar isolado.
Uma Europa sem a Inglaterra é tudo aquilo de preocupante que o Pedro enunciou sobre a paz.
A Europa continental perdeu a 2ª Guerra Mundial, perdeu na Guerra Fria, e vai perder a Guerra da globalização, só os franceses mais lerdos e os alemães mais casmurros é que não percebem isso.

A Inglaterra tem visão aberta do mundo, e os outros têm visão fechada da Europa.
Portugal quando sabia o que fazer, nunca teve dúvidas sobre o lado em que estava.

Assim que a Inglaterra sair, os portugueses vão perceber cada vez mais que o regresso ao "escudo" já deveria ter sido feito há 4 anos.
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De lucklucky a 05.06.2014 às 15:52

Tantos com o sonho de imprimir moeda. Para claro darem ainda mais poder à política. Que já tem pouco...

A criação de moeda via crédito não chegou. Ao poder de se endividar teremos o poder de imprimir.

Que tal não termos moeda. Ainda não pensou nessa possibilidade?
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De da Maia a 05.06.2014 às 21:59

Lucky,
eu acho que já lhe expliquei o que é moeda, não?
Então por que razão não quer que haja confiança nacional?
É que se não tem confiança no seu país, não sei o que está cá a fazer.
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De l.rodrigues a 05.06.2014 às 15:12

"Onde só há mecanismo de solidariedade..." para resgatar os bancos alemães e franceses, em primeiro lugar.
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De Luís Naves a 05.06.2014 às 16:33

Claro, tem toda a razão: por isso acho absurdas algumas teses dominantes. Os políticos têm descrito uma Europa que nunca existiu, por exemplo, com a obrigação de pagar as dívidas portuguesas, sem que isso fosse sequer possível segundo os tratados. Os contribuintes alemães e franceses financiaram os resgates e salvaram os bancos dos seus países, mas a dívida nacional, essa, temos de a pagar nós. A solidariedade está limitada aos fundos comunitários (aliás, generosos), mas há o reverso da medalha, a responsabilidade. Sem a segunda, não haverá a primeira. A futura UE não vai cometer os erros do passado e haverá maior vigilância sobre os orçamentos nacionais.
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De l.rodrigues a 06.06.2014 às 10:22

"Os contribuintes alemães e franceses financiaram os resgates e salvaram os bancos dos seus países,"

Errado. Foram os contribuintes portugueses, espanhóis e gregos que foram chamados à tarefa.
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De tric a 05.06.2014 às 15:52

"Portugal é uma constante fonte de frustração: a crise do ano passado acabou com as reformas, a recente decisão do Tribunal Constitucional impossibilita a consolidação orçamental a que nos comprometemos. A esquerda não tem qualquer intenção de cumprir o Tratado Orçamental."
.
a esquerda e a direita...a direita abstencionista! os fanáticos do euro já fizeram estragos demasiado grande na Nação !
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De Carlos Cunha a 05.06.2014 às 20:06

ia (vai) ser um fartorte, se (quando) o reino unido abandonar a ue e esta continuar (lá terá que ser) a publicar e etc... os seus documentos oficiais em...inglês.

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