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Como juntar a injúria ao drama

por Pedro Correia, em 12.06.14

 

Um novo despedimento colectivo no grupo Controlinveste. O segundo em cinco anos. Em 2009, já tinha sido o maior de sempre na imprensa portuguesa: de uma vez só, da noite para a manhã, foi apontada a porta de saída a 122 profissionais. Agora o mesmo sucede a 160 trabalhadores, num novo e ainda mais lamentável recorde. Decidido no Dia de Portugal, por amarga ironia. Em vésperas do início do Mundial de futebol, quando as atenções gerais andam dispersas pelos estádios brasileiros. E com o requinte acrescido de ocorrer quando toda a fachada do edifício-sede está engalanada com um cartaz alusivo às festas de Lisboa, como a Teresa já aqui observou.

Pior ainda: numa edição que devia trazer hoje a solenidade do luto ou pelo menos o recato que o pudor impõe, em elementar respeito pela dignidade de profissionais que no seu conjunto deram milhares de anos àquela empresa (e sei de quem falo pois conheço-os a todos), o DN surge nas bancas com um eufórico encarte, ligeiro e colorido, cheio de meninas risonhas, com a legenda "Vamos viver juntos as emoções do Mundial". Nem é publicidade paga: trata-se de um anúncio da própria empresa proprietária encimado com o histórico cabeçalho do matutino. Como se o tempo na Controlinveste fosse propício a festas. Como se ainda ali houvesse algo para celebrar.

Pior: a notícia do brutal despedimento surge com o seguinte título, na página 44 do jornal: "Controlinveste Conteúdos faz redução de 160 efe[c]tivos". Ou, como se escreve noutro periódico do grupo, "Controlinveste avança para reestruturação". Que títulos vergonhosos são estes, meus senhores? Despedir é "avançar"? Pôr na rua é "reestruturar"? Como se a palavra trabalho queimasse. Como se trabalhar fosse algo indigno. Como se um trabalhador devesse ocultar esta sua condição numa sociedade - e num continente inteiro, como bem revelam as estatísticas europeias - onde um posto de trabalho é um bem cada vez mais escasso.

Quem pretendem iludir com tão inaceitáveis eufemismos?

Nessa casa, tanto quanto sei (e trabalhei lá 14 anos), um trabalhador sempre foi um trabalhador - nunca foi um "efe[c]tivo". Nessa casa, que foi domicílio profissional de muitos dos melhores jornalistas portugueses desde o século XIX, nunca se escreveu "fazer redução"[sic] para evitar recorrer ao termo despedimento.

É duro, bem sei. É incómodo, não duvido. Mas corresponde a uma das principais regras da escrita de imprensa, que recusa a imprecisão e a ambiguidade. E evita juntar ao drama do despedimento, já de si tão chocante, a injúria de ver esta palavra banida do dicionário jornalístico quando está mais presente que nunca na vida real.

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5 comentários

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De da Maia a 13.06.2014 às 04:35

Houve uma transformação económica dos jornais e outros meios informativos quando a publicidade passou a ser a principal fonte de receita, mesmo antes de qualquer crise.

Quando um jornal se sustentava pelos seus compradores, esses detinham o controlo sobre o que compravam. O público era o único destinatário do jornal, e de certa forma o seu único accionista. Quando o público diminuiu, muito por via da internet, as receitas publicitárias passaram a constituir o grande bolo orçamental do jornal.

Quem pagava a publicidade e quem a vendia passava a deter um papel cada vez mais importante na economia dos jornais. Portanto, o foco dos jornais, que era o público em geral, passou a estar condicionado por ver o público como um mero consumidor de supermercado. Os publicitários pagavam para isso, pagavam para que o jornalismo fosse um meio de vender produtos. Afinal um grande anunciante que pagasse mais que 10 mil jornais, valeria mais que 10 mil leitores... passou a haver uma dúzia de "leitores" privilegiados, por contraposição aos restantes.

Há muito que o arco da governação também foi entrando na jogada, querendo vender como produto as suas políticas, e seduzindo os jornalistas para uma participação cada vez mais íntima no círculo de poder. Afinal, já havia os "sindicalistas", com outra participação política.

A prática foi ainda evoluindo para um jornalismo de "fontes", um eufemismo para largar na praça pública mexericos de quadrilheiras.
Jornalismo de investigação... daquele que demora meses de trabalho dedicado para construir uma notícia - pois esse era demasiado caro. Os leitores não pagavam isso, e nem os governos, nem os publicitários, queriam isso - porque há muitos esqueletos nos armários de onde sai o poder e o dinheiro.
Para evitar polémicas, os artigos jornalísticos passaram a ser tão sensaborosos quanto possível, e só encontraram forma de se tornar mais humanos com "artigos de opinião"... autorizada especialmente a alguns "senadores", que queriam ser ou continuar a ser actores, mas fora do palco.

Olhando para um jornal o que vemos nos dias que correm?
Os mexericos das fontes e da ressonância política, coordenada entre jornais e televisões, onde tudo é muito caseiro, e compete com a telenovela da noite no enredo. Depois, as notícias oficializadas do regime por via da Lusa ou da Reuters.
Como sobremesa, umas tantas curiosidades, da ciência à gastronomia.

Portanto, objectivamente, deixou de haver interesse na informação ao cidadão, enquanto pessoa livre. Passou a haver interesse enquanto pessoa manipulável, enquanto consumidor, enquanto eleitor.

Quando se trata de evidente manipulação, as pessoas afastam-se, tal como quando colocam na caixa de correio "publicidade não, obrigado".
Actualmente, para além de verem o mexerico político, que serve de telenovela, estão mais interessadas em saber se há ou não greve amanhã, ou se chove.

Perante esta total falta de liberdade jornalística, o que fazem os governos?
Agradecem... porque o conceito de democracia que têm é o do poder absoluto, sem contrapoder, e as eleições assim manipuladas informativamente são uma mera formalidade de legitimação de poderes absolutos com máscara democrática, visando perpetuar oligarquias.

Consegui escrever isto sem falar na maçonaria.
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De teresinha a 13.06.2014 às 11:14

Bravo, Pedro.
Dizer as coisas com nomes próprios, rigorosos e realistas é o que se espera de um jornalista.
Ao contrário de muitos outros textos sobre o assunto, igualmente valiosos numa outra perspectiva, este tem o mérito de acertar no âmago do problema: o facto de haver jornalistas a dourarem a pílula sobre uma verdade/realidade que atingiu os seus pares. De facto, é de bradar aos céus!! Esteve muito bem, com este seu apontamento.
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De Miguel Ribeiro a 13.06.2014 às 22:11

Surpreende-me esta visão do Pedro. Certamente provocado por envolver conhecidos.
Sabe? Isto já acontece há vários anos e quer queira quer não, nenhum investidor quer pagar salários a ninguém pelo facto de serem conhecidos do Pedro.
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De teresinha a 15.06.2014 às 14:57

Ó Miguel Ribeiro, vá-se catar!!

Se eu fosse uma gaja sensata nem me dava ao trabalho de lhe dar uma resposta, mas, como não sou, aqui fica: Qual foi a parte que o Miguel não entendeu?
Esta:«Que títulos vergonhosos são estes, meus senhores? Despedir é "avançar"? Pôr na rua é "reestruturar"? Como se a palavra trabalho queimasse. Como se trabalhar fosse algo indigno. Como se um trabalhador devesse ocultar esta sua condição numa sociedade - e num continente inteiro, como bem revelam as estatísticas europeias - onde um posto de trabalho é um bem cada vez mais escasso.Quem pretendem iludir com tão inaceitáveis eufemismos?»?

Os investidores não têm que querer pagar salários por serem conhecidos deste, daquele, ou daquele outro. Enquanto administradores (em alguns casos infelizmente porque de "bons administradores" têm muito pouco), tem o poder de decidir quem querem mandar para a rua, ainda que os critérios (quanto aos escolhidos) possam ser discutidos, contestados e impugnados legalmente. Sim, legalmente, porque a lei define os critérios e estes não são arbitrários, nem dependem só da livre vontade dos administradores/investidores.
Mas não é isso que está em causa no texto do Pedro Correia. O que aqui foi abordado, foi a forma como DN se portou no dia seguinte, a forma como tentou branquear os acontecimentos do dia anterior, escamoteando-os, suavizando-os, faltando à verdade.
Ora leia também este artigo da Fernanda, para ver se entende um pouquinho que seja sobre a génese da missão jornalística: http://www.dn.pt/inicio/opiniao/interior.aspx?content_id=3969514&seccao=Fernanda+C%E2ncio&tag=Opini%E3o+-+Em+Foco
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De lucklucky a 14.06.2014 às 10:28

Continuem a tornar o trabalho demasiado valioso como têm feito aqui...
Depois acontece como com as crianças: deixam de nascer.

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