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Coisas, pessoas, fronteiras

por José António Abreu, em 10.11.16

Ontem à noite, na SIC Notícias, Mariana Mortágua - estrela da «geringonça», ideóloga em formação - recusava comparações entre o proteccionismo do Bloco e o proteccionismo de Donald Trump. Explicava ela, com trejeitos de nojo, que Trump quer fechar fronteiras às pessoas enquanto o Bloco defende um mundo onde estas possam movimentar-se livremente. O proteccionismo do Bloco, a sua recusa da «globalização», aplica-se apenas à circulação de produtos e destina-se a proteger e a «dignificar» a produção local contra as «grandes multinacionais». Como de costume, a verve resulta ligeiramente encantatória - desde que não se reflicta muito sobre o assunto. Não parece ocorrer a Mortágua que várias das economias com maior crescimento nas últimas décadas, aquelas onde mais gente saiu da pobreza, dependem precisamente das exportações. Não parece ocorrer-lhe que fechar as fronteiras aos produtos originados nesses países (sejam de índole industrial, sejam de índole agrícola ou pecuária), representaria desemprego e regresso à pobreza. Não parece ocorrer-lhe que a pobreza reforçaria os fluxos de migração, nem que o excesso de imigração gera tensões sociais, custos para o erário público e fenómenos populistas como Trump, o Brexit ou Marine Le Pen. Ou então ela sabe-o perfeitamente - afinal, dizem-na inteligente - e, tal como os seus colegas do Bloco, é apenas muito mais revolucionária do que tenta parecer.

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8 comentários

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De António Afonso a 10.11.2016 às 15:54

Nada a obstar do post numa única e particular palavra, "nojo", penso que "nojo" é uma palavra que deveria ser abolida do discurso político, pode ser uma mera questão semântica, mas estamos a discutir ideias, mesmo que o Bloco tenha ideia que discordamos veementemente, e agora com o exemplo de Trump, ainda mais, isso não resulta numa posição tão visceral que implique "nojo". E lembro que muitos tinham "nojo" de Trump e mesmo assim ele construiu o seu caminho para a vitória sem precalços. Podemos ter nojo de baratas, não de pessoas ou ideias. Digo eu...
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De José António Abreu a 10.11.2016 às 16:04

"Nojo" é uma interpretação minha dos trejeitos de desconforto dela.
Convenhamos que o pessoal de esquerda se considera habitualmente num patamar ético muito superior àquele onde coloca pessoas como Trump. Não deve ser fácil encaixar acusações de que partilham ideias.
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De Luís Lavoura a 10.11.2016 às 16:03

várias das economias com maior crescimento nas últimas décadas, aquelas onde mais gente saiu da pobreza, dependem precisamente das exportações

Certo. Mas a Mortágua é uma política portuguesa, que propõe soluções para Portugal. Ela observa que as exportações provindas de países pobres empobreceram vários trabalhadores portugueses. E portanto quer limitá-las. Faz todo o sentido. Ela procura defender o bem-estar dos portugueses, não dos paquistaneses. Ela deseja o enriquecimento dos portugueses mais pobres, não dos bengalis mais pobres.

a pobreza reforçaria os fluxos de migração

Isto parece-me errado. Migrar custa (muito) dinheiro. Quem emigra nunca são os mais pobres, são os remediados. Repare-se que o desenvolvimento de países pobres coincide geralmente com mais emigração, não com menos. Portugal desenvolveu-se brutalmente na década de 1960 - precisamente quando os portugueses mais emigraram. Portugal está hoje cheio de bengalis, precisamente quando o Bangladeche se está a desenvolver consideravelmente. Populações muito, mas mesmo muito pobres não emigram.
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De JSC a 10.11.2016 às 16:06

http://apps.urban.org/features/wealth-inequality-charts/

Enquanto as pessoas não perceberem que a globalização deu umas migalhas à população comum e milhões às elites.... Vai continuar haver uns tipos a achar que a globalização da forma que está a ser feita é muito boa.
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De Anónimo a 10.11.2016 às 17:12

Apenas desajustada. Na Coreia do Norte, ou ao lado do Fidel aí estaria com a sua gente.
Aqui, como está, é motivo de chacota de um lado do espectro político. Uma função importante.
Do outro serve de catarse para os orfãos, mais radicais, do soarismo. Os mais sábios estão acomodados nos meandros do poder.
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De lucklucky a 10.11.2016 às 18:03

É simplesmente desonestidade Marxista.

Ou então a Mariana Mortágua vai começar a elogiar o embargo de produtos de multinacionais Americanas a Cuba e defender que o regime Cubano abra as Fronteiras a todos para entrar e sair...

Também segundo a D. Mortágua Portugal deve começar a não permitir as exportações Portuguesas.
Afinal nunca se sabe que maldade capitalista e destruição da produção local estão a fazer pelo mundo fora.


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De Vento a 11.11.2016 às 00:32

Trump não vai fechar as fronteiras, vai limitar a entrada e impedir que existam excedentários.
Ele apanhou esta ideia da Alemanha que está a expulsar migrantes que se encontram em solo alemão há bastante tempo para acomodar os que acolheu da Síria. Trump é inteligente mas os outros também não são burros. O que ele pretende é evitar os excedentários e contrariar a contratação ilegal a baixo salário para adoçar a boca a alguns de seus eleitores.

Quando Trump compreender que pode existir boicote a produtos farmacêuticos aí produzidos e que os mesmos poderão ser produzidos noutros cantos do mundo sem licença dos laboratórios aí instalados, compreenderá que o caminho não é bom para a sociedade americana. Mas também pode encontrar os mesmos obstáculos no software aí fabricado e em muitos outros exemplos que não citarei agora.
Poderá ser bom para a indústria automóvel americana. Porém depois de construir pontes e estradas e de fazer todo o investimento que pretende verificará que os EUA não possuem escala suficiente para todos esses gigantes que hoje existem - e são gigantes porque se espalham pelo mundo -, e eles começarão a minguar. Resultará esta política em menos receita, menos riqueza produzida, menos postos de trabalho etc.

O problema reside no facto de Trump não se ter dado conta que ele mesmo desvalorizaria as expectativas que gerou aos seus apoiantes. E também não se deu conta que se fizer tudo quanto tinha dito que faria estará a reduzir a economia do país a uma escala tão insignificante que necessitaria estar em constantes investimentos para trazer a população feliz. E isto é impossível tendo em conta também que mesmo reduzindo o orçamento da defesa e retirando as boots from the ground estaria simplesmente a aniquilar a indústria de armamento americana.
Trump não se deu conta que tem uma pescadinha de rabo na boca e que a gestão da nação não é a mesma gestão da construção civil nem do imobiliário.

No lugar de Trump recorreria somente ao expediente de mudar o establishement, regular o sector financeiro e dividir a banca nos sectores que prometeu, fazer investimento público na educação, rodovias e as mexidas nas questões sociais, como o aborto, e já tinha muita obra para mostrar. Para mudar o Obamacare ele vai ter de suar a estopinhas, e não conseguirá.
Já estou de acordo que na questão do comércio oversea ele deve limitar o espectro, em particular por causa das empresas americanas oportunistas que se deslocam para outros pontos do globo e depois colocam os produtos novamente aí.

Quanto a Mortágua, não tenho visto a tv portuguesa.
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De Vento a 11.11.2016 às 13:22

Só para informar que aquela vogal a mais que coloquei na palavra establishment não é um erro, pois um ser divino nunca erra. É um bónus para os leitores.

Obrigado

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