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Coisas a resolver até ao Mundial

por João André, em 13.10.17

Felizmente que me enganei e que Portugal se qualificou sem engulhos para o Mundial. A Suíça ajudou, apresentando-se como uma equipa muito fraquinha que só não perdeu por bastante mais porque não calhou. Quem os apanhar nos play-off não se deverá preocupar por aí além.

 

Agora que Portugal está apurado, está na hora de começar a preparar o trabalho para uma competição de um mês onde haverá potencialmente 7 jogos (média de um jogo a cada 4 dias). Há certas áreas que Fernando Santos terá que definir depressa.

 

 

1. Como lidar com Cristiano Ronaldo?

Ronaldo carregou com a selecção às costas na fase qualificação, com 15 dos 36 golos portugueses. O único jogo em que Portugal perdeu, Ronaldo estava ausente (o primeiro, derrota de 2-0 com a Suíça). Além da pura quantidade de golos marcados, Ronaldo também abriu o marcador ou fez o segundo golo que ofereceu tranquilidade em vários jogos. E mesmo quando não está a ser influente, a sua presença condiciona imenso os adversários, que não arriscam deixá-lo sozinho (amiúde tem 2 adversários por perto), o que abre espaços para outros.

 

Só que Ronaldo terá 33 anos de idade no próximo mundial e, é actualmente óbvio, já não está no pico das suas capacidades. É um predador mais eficaz que no passado e tem beneficiado da emergência de André Silva e Bernardo Silva, que atraem atenções e criam espaço para ele (além de oferecerem melhores parceiros que Éder ou Postiga), mas é de prever que a sua influência será cada vez mais reduzida ou espaçada. Como maximizar o seu impacto será essencial. Nisto beneficia da gestão de Zidane, que tem cuidado de Ronaldo, mas a cert alatura não bastará. A verdade é que Fernando Santos terá de criar um estilo de jogo que não necessite de Ronaldo mas que esteja feito para que ele tenha o máximo de impacto. Isto não será fácil.

 

Por fim, será bom que Ronaldo se habitue a deixar outros marcar mesmo quando tem oportunidades de o fazer ele mesmo. Contra a Suíça ele perdeu uma oportunidade incrível quando isolado por João Mário. Se Ronaldo tinha boas opções para fazer o golo, a opção mais sensata (e igualmente a mais justa, depois do trabalho que fez) teria sido deixar a bola para o lado, onde João Mário encostaria. A sua fome de golos é fundamental para Portugal, mas não pode eclipsar o resto da equipa.

 

2. Tratar do centro da defesa

Se Ronaldo terá 33 anos, Pepe terá 35, Bruno Alves 36, José Fonte 34 e Neto 30. Mesmo numa época em que o limite de idade para defesas é cada vez mais elevado, esta média de idades não augura nada de bom. Dado que não parece que Rúben Semedo, Paulo Oliveira ou Rúben Dis venham a conseguir um lugar no avião a não ser em caso de lesões, será esta a lista de centrais na Rússia. Jogar com centrais trintões significa que a defesa tem de jogar recuada, para não ser apanhada com bolas sobre o topo e por avançados rápidos. Como Ronaldo também já não tem a velocidade de outrora, não se pode contar com ele para contra-ataques rápidos. Isso irá colocar uma enorme pressão sobre os médios e laterais, que terão de correr imenso. Num torneio com jogos a 4 dias e viagens de permeio, isso poderá ser demasiado. O que me leva ao ponto seguinte.

 

3. Equilibrar o resto da equipa

Como escrevi acima, os laterais e os médios terão de correr muito. Entre os laterais há alguma abundância de qualidade, pelo menos no lado direito. Cédric é ainda a primeira escolha e Nélson Semedo só poderá melhorar. Ambos são jogadores capazes de fazer o flanco sem dificuldades e ainda existe Cancelo de reserva. No lado esquerdo muito dependerá de ter Raphäel Guerreiro em condições e, idealmente, poder usar Coentrão (se não estiver lesionado). Ter de depender de Eliseu será preocupante, até porque também ele continua a perder velocidade e pulmão (nota-se já), além de não ter a qualidade de Coentrão.

 

No meio campo temos imensa qualidade e equilíbrio. Danilo e William Carvalho são ambos bons escudos da defesa e são diferentes o suficiente para oferecerem opções tácticas distintas. Adrien Silva, Moutinho ou Pizzi cumprem funções semelhantes mas de forma diferente, o que é sempre útil. Para a criatividade existe João Mário e, caso recupere níveis passados, Renato Sanches poderá oferecer energia. E ainda existem André Gomes ou Bruno Fernandes, que também poderão complementar o meio campo. Isto será útil porque o meio campo terá que equilibrar tudo. Assumindo que Ronaldo e André Silva começarão sempre os jogos, será necessário que um dos médios caia mais para a lateral (direita ou esquerda, de acordo com as necessidades) para equilibrar a equipa. Isso melhora a ocupação de espaços, mas retira eficácia ao jogador sacrificado nessa função.

 

Será também importante definir muito cedo o que fazer com William Carvalho e em que jogos. William tem melhor qualidade de passe que Danilo, mas menor disciplina defensiva e menor presença física. Fernando Santos já o fez jogar algumas vezes, juntamente com Danilo, numa função de médio box to box, à inglesa. Nessa função William pode ser importante, talvez ainda mais que como médio defensivo, especialmente se (como eu penso), Renato Sanches não estará em 2018 ao seu nível de 2016 e, como tal, não poderá cumprir essa função.

 

4. Alas, alas, alas

Durante as últimas duas ou três décadas Portugal foi conhecido como uma fábrica de alas. Futre, Figo, Conceição, (até Paneira ou Capucho), Ronaldo, Nani e já nem sei quem mais. Agora parecemos estar limitados a Gelson Martins e Gonçalo Guedes. Quaresma está a ficar demasiado velho (embora os seus cruzamentos continuem a "ter olhos") e Bernardo Silva, embora jogue na ala, não é um ala clássico, antes um organizador de jogo que começa nominalmente na direita. A dificuldade de usar alas é manifesta até no facto de Gelson Martins ser um extremo clássico (é mais eficaz não "invertido") e como tal menos adequado ao actual conceito de extremos invertidos apoiados por laterais ofensivos. Sabe fazê-lo, evidentemente, mas se prefere encostar à linha lateral, os lateral tem menos espaço por onde subir. Já Gonçalo Guedes parece começar a tornar-se um avançado multifunções, sem ser um extremo clássico mas mais orientado para estar na ala apenas de forma a encontrar espaço antes de seguir para o centro. Além disso ainda falta saber se estará ao nível necessário para ir para um Mundial.

 

Isto é importante porque, tendo dois avançados em André Silva e Ronaldo que sabem jogar bem de cabeça, é importante ter quem os alimente. Isso pode normalmente ser feito por laterais ou extremos, mas à falta de extremos o jogo tornar-se-à perigosamente dependente dos laterais, com todo o risco que isso acarreta em termos de lesões ou forma (ver ponto 3). Uma forma de compensar é fazer alinhar um meio campo com 4 homens em que os mais laterais também sobem, mas isso traz outros problemas em si mesmos. Decidir como criar largura no campo sem sobrecarregar os laterais será essencial.

 

5. André Silva

André Silva poderá um dia ver um super-jogador capaz de vencer bolas de ouro por si só. Talvez. Hoje, a sua maior importância é retirar pressão de Ronaldo e ir molhando a sopa quando possível. Isto é importante e, jogando no Milan, a sua qualidade táctica só poderá melhorar. Um aspecto importante a melhorar será no entanto a sua disciplina. Neste caso com duas vertentes: a mais literal, que se manifesta em cartões, e outra que se manifesta em comportamento em campo e manter a cabeça fria. André Silva tem infelizmente o hábito de se lançar aos adversários e de cair de forma demasiado fácil ou teátrica. Será importante que alguém o chame e lhe indique que não só ele não tem um estatuto elevado para ser protegido pelos árbitros, como também não convém reclamar demasiado. Cartões amarelos, especialmente em torneios, poderão custar muito, mas mesmo muito caro.

 

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4 comentários

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De Plinio a 13.10.2017 às 13:47

Toca em todos os pontos essenciais.
Antevejo problemas no centro da defesa. Pepe é muito bom mas este ano está num campeonato pouco competitivo. José Fonte parece-me até mais lento que Pepe, pelo que o ideal seria alguém novo ao lado de Pepe mas não vejo abundarem por aí centrais de qualidade na casa dos 20 anos.
Quanto a extremos são escassos, embora nani possa ainda reaparecer o que não será fácil. Poderá haver Diogo Jota, haverá Gelson e Gonçalo Guedes, eventualmente Podence poderia ser opção. William parece-me que tem vantagem sobre Danilo porque sabe construir, faz passes com qualidade mas infelizmente não remata e por vezes parece demasiado lento, o que seria compensado por Adrien à sua frente. Bernardo Silva parece-me que renderá mais atrás de André Silva e Ronaldo, menos descaído para as alas, mas nalguns jogos pode dar-se o caso de jogar só Ronaldo e ou só André Silva, assim podendo aparecer um extremo.
Rui Patrício, Cédric, Pepe, alguém, Rapael Guerreiro, William, Adrien (se em forma) João Mário, Bernardo Silva, Cristiano Ronaldo/André Silva, mais um extremo.
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De João André a 14.10.2017 às 19:09

Tentei não entrar nos jogadores que ainda poderão surgir e ficar apenas nos que já jogaram ou pelo menos têm sido convocados. Diogo Jota ou podence ainda não fazem parte desse cenário, embora possam sempre ser novos Renatos Sanches, como é óbvio.

Ainda assim, a minha maior preocupação continua a ser o centro da defesa...
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De Anónimo a 14.10.2017 às 00:14

Desculpe mas não li o que escreveu.
Ainda assim permita-me, ainda bem que você se engana e muito, já agora é mais um treinador de bancada que usa mal esta bancada que aqui tem, mas de "bola" não percebe nada.
O futebol não é (felizmente) um jogo geométrico e como dizia o "Outro" prognósticos só final dos jogos.
WW
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De João André a 14.10.2017 às 19:10

Comentou o que não leu. Suponho que também ganha jogos que não joga.Nem Maradona.

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