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A hipocrisia do pessimismo

por Luís Naves, em 15.01.15

Durante os três anos do programa de ajustamento foi criado um clima de pessimismo que será difícil desfazer. Muitos jornalistas, políticos e comentadores destruíram a auto-estima dos portugueses. As boas notícias foram sistematicamente apresentadas na sua pior vertente, quando a veracidade não era logo posta em causa. Enfim, a ideia da desgraça do País entrou nas consciências e autores de artigos de opinião que não acertaram uma única vez durante esta crise continuam tranquilamente a espalhar o derrotismo e a exercer a sua liberdade de expressão sem um mínimo de responsabilidade.

Um bom sítio para ver os efeitos deste problema é num curso para desempregados de longa duração. Sou testemunha. As pessoas deixaram de acreditar nas suas forças e dizem que é impossível o regresso ao mercado de trabalho. No grupo onde participo, há trabalhadores com excelentes qualificações, mas sobretudo trabalhadores indiferenciados, cujo desespero é evidente. Estas pessoas estão marcadas pela hipocrisia da sociedade e foram vítimas de demasiados gestos de indiferença. O pior, do seu ponto de vista, é a noção clara de não haver qualquer esperança. Segundo acreditam, a situação do País não tem saída e qualquer tentativa para incentivar o ânimo é vista como optimismo inútil.

O clima de catástrofe criado pela comunicação social vira-se também contra a própria. Os leitores perderam a confiança e recusam este massacre inesgotável, mas os autores com acesso a colunas de opinião não vão mudar, o que só prolongará a mentalidade da crise. Quem tenta sair da narrativa oficial da calamidade é imediatamente atacado pela brigada dos fatalistas, cujos membros falam sempre do alto dos seus empregos seguros e das suas opiniões superficiais.

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6 comentários

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De Realista a 15.01.2015 às 20:30

Infelizmente, para desempregados de meia-idade (ou a caminho dela) e fracas qualificações, a viabilidade do optimismo é reduzidíssima: quanto ao mercado social de emprego, Guterres, que pretendeu lançá-lo em tempo de vacas muito menos magras, não o conseguiu, quanto mais agora (ou de futuro)... Entre os desempregados, acho que serão as maiores vítimas. Os qualificados e os jovens podem passar um mau bocado, incluindo a emigração, mas a gravidade da vicissitude não se compara, por deterem outros recursos e/ou o ânimo da juventude.
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De V. a 15.01.2015 às 20:30

O problema é ter de escrever e aparecer para encher chouriços. Da sociedade ninguém deve esperar coisa nenhuma. Só o Presidente da República imagina lá no seu recato que os Portugueses querem viver uns com os outros. Como? Se uns apenas destroem tudo para vitórias circunstanciais?
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De Anónimo a 15.01.2015 às 21:59

Participa como formando ou como formador?
Sabendo isso, enquadra-se melhor o seu postal.
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De l.rodrigues a 16.01.2015 às 12:21

Fala como se a crise fosse apenas uma questão de narrativa. Como se não tivesse havido um efectivo ataque ao "factor trabalho" que traduzido para português comum é a vida das pessoas.
Desvalorizando-a em todas as suas dimensões, e colocando-a como carneiro sacrificial no altar dos mercados.

Não é só uma questão de discurso dominante, (que de resto o que domina é a afirmação contínua de que não havia e não há alternativas ao caminho escolhido, domina o pessimismo resignado, para garantir a complacência desses cujo desânimo lamenta). O pessimismo de que se queixa esteve sempre ao serviço do projecto político que defende.

A esperança só está na verdadeira alternativa: o optimismo da vontade de mudar.
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De jo a 16.01.2015 às 12:50

Não foi só a comunicação social.
Quando um governo passa 3 anos a dizer que vêm aí sacrifícios e convida os portugueses a emigrar, não se pode esperar que, só porque há eleições, agora se acredite que afinal era mentira e está tudo bem.
Vejamos coisas noticiadas na comunicação social que aumentam o desespero, mas não por causa da comunicação social:
A segurança social vai despedir (ou por na prateleira, tanto faz) 700 trabalhadores, que estão a ser substituídos por desempregados que não têm direitos laborais.
Vai haver professores colocados na disponibilidade, apesar de o ministro ter clamado e batido no peito a dizer que tal não aconteceria (o ministro note-se, não os sindicatos).
A TAP vai ser privatizada e 50% dos seus trabalhadores são declarados publicamente aptos para o despedimento coletivo, ainda antes de se saber sequer quem é o comprador e se tenciona despedir alguém (quer dizer que nem o governo acredita que não vai haver despedimentos)
A PT vai ser vendida e provavelmente vai despedir bastante gente.
A troika já se foi embora mas continua a dizer que é preciso liberalizar despedimentos (flexibilizar o mercado de trabalho dizem eles).
Podíamos continuar por muito mais tempo,
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De Vento a 16.01.2015 às 15:17

É também importante abordar os dados realistas e não os actos paliativos que são feitos com uns para favorecer uns quantos, Luís.

Vamos aos dados:
http://visao.sapo.pt/indice-de-atividade-economica-cai-09-em-dezembro-banco-de-portugal=f807367

Não me surpreendem os dados e não os uso para tornar as coisas piores que são, faço-o para revelar-lhe que a propaganda governamental faz-me compreender que a bota não bate com a perdigota.
E pretendo também ser tratado por estes governantes como a pessoa adulta que sou.

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