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Churchill: um herói do século XX

por Pedro Correia, em 24.01.15

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De entre as figuras que se impuseram no século XX, fosse para o bem ou para o mal, Winston Churchill foi a mais importante para a humanidade, e foi também a mais amável de todas. Não há outra personalidade da qual se possam extrair tantas lições, em especial para a juventude: a tirar partido de uma infância difícil; a aproveitar ao máximo todas as oportunidades, físicas, morais e intelectuais; a ousar em grande, para reforçar o êxito e ultrapassar os inevitáveis fracassos; e a ter ambições elevadas, aplicando-lhes toda a energia e paixão, sem deixar de cultivar a amizade, a generosidade, a compaixão e a elevação moral."

Paul Johnson, Churchill

 

Winston Spencer Churchill, filho de um aristocrata inglês e de uma beldade norte-americana, recebeu notas medíocres como estudante e jamais foi tratado com afecto pelo pai, um indivíduo propenso a depressões. Tinha todos os requisitos para ser considerado uma "criança problemática", de acordo com um jargão agora muito em voga, mas foi o mais bem sucedido político britânico de todos os tempos.

Era, simultaneamente, um homem de reflexão e um homem de acção. Escreveu excelentes obras, como The World Crisis (1923/27) e Aftermath (1929). Os seis volumes das suas memórias sobre a II Guerra Mundial - na qual foi um dos grandes protagonistas -, concluídos em 1951, tinham vendido mais de seis milhões de exemplares só em língua inglesa dois anos mais tarde, quando recebeu o Prémio Nobel da Literatura. Pintou mais de 500 quadros - "mais do que muitos pintores chegaram a pintar em toda a vida", como acentuou Paul Johnson na biografia do homem que foi deputado durante 55 anos, ministro (do Interior, da Marinha, das Colónias e das Finanças) durante 31 e primeiro-ministro - em dois mandatos - durante quase nove.

 

Morreu faz hoje meio século, aos 90 anos, após uma vida intensa: combateu como militar em 15 batalhas em quatro continentes (Cuba, Índia, Sudão, África do Sul na guerra dos Boers e Flandres durante a I Guerra Mundial), e recebeu 14 condecorações de guerra. Viu a morte várias vezes à sua frente, mas nunca perdeu a alegria de viver. Publicou quase dez milhões de palavras ("mais do que muitos escritores profissionais publicam ao longo de toda a vida"), teve um casamento feliz que durou 56 anos e terá bebido perto de 20 mil garrafas de champanhe, a sua bebida favorita.

Expressões hoje de uso corrente foram cunhadas ou popularizadas por ele - Médio Oriente, Cortina de Ferro, "sangue, suor e lágrimas". Foi o primeiro político a fazer com os dedos o V da vitória, gesto que quase todos os outros depois dele adoptaram. Era um grande caçador e um viajante infatigável: deu várias vezes a volta ao mundo. Desportista, praticou pólo até aos 53 anos. Não escondia o fascínio pelo cinema. Adorava conduzir e tinha brevet de aviador.

Cometeu muitos erros, mas acertou nas opções essenciais. Como quando levantou a sua voz solitária no Reino Unido contra o avanço das hordas nazis que na década de 30 iam devorando a Europa, país após país. Ou quando criticou sem reservas o seu antecessor, Neville Chamberlain, adepto do "apaziguamento" com Hitler. "Toda a história do mundo teria sido diferente se ele não tivesse assumido o poder em 1940", assinalou ontem o jornalista John Simpson na BBC.

Disfrutava de autoridade natural mas nunca se levou excessivamente a sério: no auge do seu poder, todos os britânicos lhe chamavam Winston.

 

8061773_6C0kI[1].jpg

 

Se existem figuras exemplares, Churchill foi uma delas. "Era um homem de coragem, que é a mais importante de todas as virtudes, e um homem de fortaleza, que é a companheira da coragem - recursos que são inatos, mas que também podem ser cultivados, e que Churchill cultivou toda a vida", escreveu Paul Johnson na excelente biografia do homem que se bateu quase isolado contra Hitler.

O historiador britânico é um admirador confesso de Churchill, com quem se cruzou uma vez, quando tinha apenas 17 anos. Foi em 1946. O então adolescente perguntou-lhe: "Senhor Churchill, a que atribui o sucesso que teve na vida?" Resposta pronta do político que no ano anterior emergira como um dos vencedores da II Guerra Mundial: "À conservação da energia. Nunca se levante se pode estar sentado, nunca se sente se pode estar deitado."

 

Um liberal de sempre, Churchill nunca se deixou abater pelos desaires e costumava dizer, cheio de razão: "Não há nada mais esgotante do que o ódio."

Na biografia que lhe dedicou (Churchill, Alêtheia, 2010) Johnson prestou justiça àquele que foi talvez o maior tribuno parlamentar do século XX, dotado de uma eloquência que nunca deixou de ser temperada com uma pitada de humor. Mesmo nos momentos mais dramáticos, como sucedeu a 4 de Junho de 1940, ao discursar na Câmara dos Comuns na qualidade de recém-empossado primeiro-ministro, já com Paris ocupada pelas tropas nazis. "Lutaremos nas praias, lutaremos nas pistas de aterragem, lutaremos nos campos e nas cidades, lutaremos nas montanhas. Lutaremos sem jamais nos rendermos", afirmou, numa alocução que se tornou célebre.

Logo acrescentando, num aparte em sotto voce: "E lutaremos com ancinhos e vassouras porque não teremos mais nada."

Winston era assim.

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18 comentários

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De ze luis a 24.01.2015 às 22:06

Há uns tempos, não muito recuados, apanhei um momento da RTP Memória de Churchill chegando ao Funchal, de barco, em férias. Parece um sketch, pois o repórter da RTP (claro) pediu-lhe para ele dizer duas palavras sobre a sua chegada à Madeira e ele disse duas palavras, já não lembro quais mas do género Bom Dia ou Sinto-me bem.
Ri-me imenso, senti que havia ali um tipo às direitas.
É uma pena a RTP não exibir estas coisas mais vezes.
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De Pedro Correia a 24.01.2015 às 22:37

A RTP tem esse tesouro que não sabe nem quer utilizar. É algo lamentável, pois só aí seria capaz de fazer realmente a diferença em relação aos canais privados.
Quanto a Churchill, entre inúmeros outros méritos, nunca é de mais salientar o notável contributo que deu para o rol de frases mais célebres do século XX. E mesmo algumas não tão célebres são admiráveis. Como estas, de que muito gosto e que são de algum modo complementares:
«Não sou muito exigente. Contento-me com o melhor.»
«Não há mal nenhum em mudar de opinião -- desde que seja para melhor.»
«Melhorar é mudar, ser perfeito é mudar regularmente.»
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De Miguel a 24.01.2015 às 23:05

O Winston também é o político a quem podemos agradecer o fim da democracia iraniana em 1954 - para proteger os interesses petrolíferos da BP -, substituída por um ditador cujo regime precipitou a revolução de 1979. Esse Winston também merece ser conhecido.
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De Pedro Correia a 24.01.2015 às 23:28

Toda a gente sabe que Churchill se dedicava a "derrubar democracias" por esse mundo fora. Ficou na História por isso mesmo.
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De jo a 25.01.2015 às 12:27

Há democracias e democracias. Uns têm direito a elas, outros não.
Se vir quais foram as batalhas em que Churchill participou como militar, dificilmente se poderá dizer que defendeu a democracia em todas elas. Foi um grande defensor do império colonial britânico e cometeu muitas atrocidades em nome desse império.
Isto não quer menosprezar a sua participação na II guerra mundial, mas estes panegíricos são sempre muito a preto e branco. O que não seria um problema se não nos arriscássemos a aceitar o mal que as personagens fizeram à conta das coisas positivas.
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De Pedro Correia a 25.01.2015 às 14:05

Pois. O Irão é um dos regimes mais opressivos do planeta devido ao Churchill. Toda a gente sabe isso.
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De Pedro Correia a 25.01.2015 às 14:21

"Churchill cometeu muitas atrocidades". Eis uma frase que Hitler teria subscrito.
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De João Lisboa a 25.01.2015 às 00:06

... por outro lado...
http://lishbuna.blogspot.pt/search?q=Antes+que+volte+a+ouvir-se+o+refr%C3%A3o+%22j%C3%A1+n%C3%A3o+h%C3%A1+pol%C3%ADticos+como+antigamente%22
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De Pedro Correia a 25.01.2015 às 10:40

João, Churchill sempre despertou ódios. Na extrema-direita, na extrema-esquerda e nas próprias fileiras dos partidos em que militou (Conservador, Liberal e novamente no Conservador). Esteve 60 anos na vida política. Não é difícil, ao longo de todos esses anos, encontrar frases desgarradas e excertos de discursos capazes de dar dele uma visão oposta à que a História registou. Essa é a "fraqueza" dos grandes homens - aqueles que não se escondem atrás de biombos e de palavras ocas que jamais os comprometem porque são incapazes de tomar posição sobre coisa alguma.
Churchill tomou partido. Enganou-se algumas vezes, errou várias outras vezes. Mas esteve certo no essencial. E quando os britânicos precisaram de uma voz de comando contra a barbárie, o velho aristocrata noctívago e beberrão estava lá. Subiu ao posto de comando e bateu-se como um leão para conservar o essencial: a liberdade.
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De Miguel a 25.01.2015 às 11:58

Sim, o Churchill é o epítome do conceito daquela democracia que gosta de liberdade para si, mas não se importa de tirar as dos outros. Aliás, da democracia que para conseguir liberdade para si tem de negar a dos outros, como o infeliz exemplo do Irão que 60 anos mais tarde continua a ter consequências nefastas na geopolítica da zona e mundial.
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De João Lisboa a 25.01.2015 às 13:54

"Não é difícil, ao longo de todos esses anos, encontrar frases desgarradas e excertos de discursos capazes de dar dele uma visão oposta à que a História registou. Essa é a "fraqueza" dos grandes homens - aqueles que não se escondem atrás de biombos e de palavras ocas que jamais os comprometem porque são incapazes de tomar posição sobre coisa alguma"

A questão não é bem essa, Pedro. Se reler as citações que postei (e há mais), pode verificar que, por exemplo, em matéria de racismo, há ali um pensamento aterradoramente consistente. Alguma figura política que, hoje, ousasse dizer sequer metade seria imediata - e justissimamente - crucificada.

E o "não se esconder atrás de biombos e de palavras ocas" poderia, facilmente, levar-nos a preferir o Le Pen-pai à Marine-filha, não lhe parece?
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De Pedro Correia a 25.01.2015 às 14:19

João, se analisarmos todos os líderes políticos de todas as épocas da história à luz dos critérios actuais, e se alinhavarmos os defeitos de que padeciam precisamente sob o clarão dessa luz, teremos uma tarefa interminável pela frente. Imperfeitos, certamente. Carregados de defeitos, sem dúvida alguma. Perfeitos, aliás, só os regimes e consulados que rejeitaram e rejeitam o essencial da condição humana - de Calígula a Pol Pot.
Tudo depende, de facto, do nosso olhar. Churchill combateu Gandhi pela palavra, mas a verdade é que Gandhi foi assassinado por um fanático hindu.
Quando Churchill assumiu o poder, havia mais de cem milhões de pessoas sob o tacão de ferro nazi: este racista, snob, insuportavelmente pedante aristocrata britânico enfrentou Hitler quase só. Quando abandonou o poder, cinco anos depois, esse tacão de ferro já não existia. É quando me basta para o avaliar em termos históricos.
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De rmg a 25.01.2015 às 15:51


É o velho problema, meu caro.

A malta vive no anacronismo permanente, compara-se com uma ligeireza que roça a estupidez pura e dura os modos de estar no mundo de há 60 anos com os de hoje, nem ao espelho se olham, nem do que disseram há um mês se lembram.

O passado é um país diferente mas os políticamente correctos nem isso admitem,na sua ânsia de ficarem bem em todas as fotografias mesmo que ninguém os queira fotografar.

A coisa acaba por ter graça quando conhecemos o passado de alguns deles, os que nos chamavam comunistas a 24 de Abril e nos passaram a chamar fascistas a 26 de Abril, por exemplo...



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De da Maia a 25.01.2015 às 17:10

Esse é um ponto importante, rmg.
A vontade de colar a exemplos passados, traz não apenas o aspecto positivo, mas também o aspecto negativo dos mesmos.
Podemos sobrevalorizar Churchill pelo lado positivo, quando teve que enfrentar Hitler e aliar-se a Estaline, e relativizar o seu lado negativo na Índia. O problema é que ao relativizar a época de Churchil, estamos também a relativizar a época de Hitler e Estaline, seus contemporâneos. Por isso não convém fazer retratos a preto-e-branco, colocando todo o mal de um lado e todo o bem do outro.
O pior que as sociedades de Hitler e Estaline queriam impor era justamente esse aspecto mecânico do preto-e-branco, de que tudo seria cortado pela sua lâmina infalível. O aspecto mais agradável de Churchill foi o seu humor sarcástico nas suas contradições.
A frase que define melhor como ele se via, penso ser a famosa frase sobra a democracia - ele era o pior líder, tirando todos os outros. É nesse aspecto que ele é diferente dos que se achavam ungidos.
Por isso, cai-se num erro em vê-lo como grande líder à luz de todas as épocas, é bem melhor usar a sua definição de contexto - terá sido o pior, tirando todos os outros.
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De António Cabral a 25.01.2015 às 09:47

Exmo Senhor Pedro Correia
Muito bom dia.
É como refere, a meu ver, ele acertou muito mais do que errou.
O seu texto não tem comparação com outro que anda por aí, penso eu, IRREVOGAVELMENTE. Bom Domingo.
António Cabral
(Chapéus há muitos - marrevoltado.blogspot.pt)
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De Pedro Correia a 25.01.2015 às 14:05

Muito lhe agradeço as suas palavras.
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De JSP a 25.01.2015 às 16:50

Para quem não tiver "tempo ou paciência" , uma sugestão de leitura : "Cinco dias em Londres", de John Lukacs.
Patéticos , os angelismos ignorantes ( premeditadamente?...), sabujos da cartilha do pulhìticamente correcto.
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De Pedro Correia a 25.01.2015 às 20:17

Uma excelente sugestão de leitura.

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