Saltar para: Post [1], Comentários [2], Pesquisa e Arquivos [3]




Chavões

por José António Abreu, em 07.04.16

E, de súbito, a calma antes da tempestade. Tudo parece adormecido, numa paz que muitos, por ingenuidade ou interesse, classificarão de positiva. Ocupado na reversão das tímidas reformas dos últimos anos e ainda sem ter de enfrentar números que exponham de forma clara (indícios não bastarão) o falhanço das suas políticas, o governo limita-se a chavões. Um documento que seria recebido com desdém se proviesse do governo anterior, a abarrotar de verbos no infinitivo («melhorar», «simplificar», «garantir», «lançar», «modernizar», «promover», «reforçar», «incentivar») mas confrangedoramente parco em detalhes (quando? como? com que dinheiro?), passa por base séria para discutir reformas. A ânsia de afastar Passos Coelho da liderança do PSD faz socialistas e comentadores encartados dispararem críticas a Passos por manter a pose de primeiro-ministro mas também por não mostrar sentido de Estado suficiente para aceitar as posições do governo (um «sentido de Estado» que o PS nunca teve enquanto oposição).

No fundo, PS, Bloco e PCP, ajudados por grande parte da intelligentsia, seguem entretidos na reescrita da História recente – ao ponto de o representante dos comunistas no congresso dos sociais-democratas ter declarado por várias vezes, com a convicção inabalável dos dogmas (são afinal tão religiosos), que o PSD ainda não se refez da derrota nas eleições legislativas. Mas presos ao passado estão os partidos da «geringonça». Tudo o que fazem é em função dele, tudo o que propõem conduz a ele. O futuro apenas lhes merece chavões.

Autoria e outros dados (tags, etc)


18 comentários

Sem imagem de perfil

De Vento a 07.04.2016 às 11:37

"Mas presos ao passado estão os partidos da «geringonça». Tudo o que fazem é em função dele, tudo o que propõem conduz a ele".
Estou de acordo consigo, chama-se a este processo Reverter a Refundação levada a efeito por PSD/CDS.

Os cidadãos cada vez que lhes falavam em Refundação e Reformas deitavam as mãos à carteira, os que ainda tinham carteira. Por isto mesmo nada melhor que estabelecer uma geringonça capaz de eliminar o efeito dos carteiristas. Chama-se a esta geringonça eficiência.

Quanto ao Congresso do PSD: o resultado do congresso foi visto na Assembleia pelas mãos de Montenegro no debate com o Ministro da Economia. Dizia ele que o PSD estava ali para lhe dar uma mãozita. Claro está que eles também querem fazer parte da geringonça. Mas estou em crer que a geringonça já compreendeu que o que o PSD visa é isolar o PS da restante geringonça para capitalizar a seu favor junto da massa falida.
Como tal lá vão aparecendo umas propostas para ajudar os pobrezinhos que eles mesmo tão estoicamente produziram.

Tá visto que o PSD já compreendeu que a via é a que conduz ao passado. Eu sei, são uns saudosistas.
Sem imagem de perfil

De Anónimo a 07.04.2016 às 12:31

Este texto remete claramente para a política do governo anterior.
Anseia por reverter a reversão.
Depois do panamapaper, que, tudo indica, não passa de uma pequena amostra, será que ainda haverá alguém com a coragem e a pouca vergonha de vir falar ao povo de austeridade?
Será?!...
Sem imagem de perfil

De jo a 07.04.2016 às 12:59

Foram tão derrotados que formaram governo.

As eleições servem aos partidos para acederem ao governo. Os partidos que no fim da contagem dos votos não conseguirem formar governo, desde que não haja ilegalidades, PERDERAM AS ELEIÇÕES. Tenham tido os votos que tiverem.

Nunca percebi esta raiva por a defunta PÀF ter tido o maior número de votos e não governar. Parece que o PS coligar-se com a esquerda é pecado, já coligar-se com a direita contra a qual concorreu, era só politica como usual.

Como se a coligação que nos governou nos últimos quatro anos tivesse alguma coisa que a recomende.

Deixe lá as pessoas irem à sua vida: o irrevogável para as empresas, a ministra das finanças contar o que sabe na Arrows, Passos há de achar uma Tecnoforma qualquer.
Sem imagem de perfil

De io a 07.04.2016 às 14:38

..E bem verdade, esses sempre seriam capazes de "arranjar" qualquer coisa para se sustentarem!
O pior seria o AC e outro que tais se têm passado a vida a ser sustentados por nós ....e sem o tacho do governo e depois do poucochinho estavam tramados no partido!

Sem imagem de perfil

De Fernando S a 07.04.2016 às 18:24

JO,

O PS teve menos votos do que o PàF. Perdeu as eleições.
O PCP e o BE, que sempre se opuseram ao PS, quando este esteve no governo e nos últimos 4 anos, dizendo que o PS também se propunha fazer uma politica de direita se fosse governo, e dizendo que tinham (e, pelos vistos, ainda têm) propostas completmente diferentes, que passavam, por exemplo, pela reetruturação da divida pública, pela recusa dos compromissos orçamentais com a UE, por uma saida organizada do Euro, etc, etc., tiveram votações muito minoritárias, da ordem dos 10% e menos cada uma. Mesmo somando os votos dos dois, o que até poderia fazer algum sentido tendo em conta a grande proximidade ideológica e programática que têm, e mesmo descontando o facto de serem tradicionalmente rivais e de não se terem apresentado coligados, a verdade é que não vão além de 1/5 dos votantes. Portanto, estes partidos, isolados ou somados, com as propostas que apresentaram aos eleitores, perderam claramente as eleições.
Ou seja, as eleições foram ganhas pela força politica que teve mais votos em absoluto.
De notar que, pelo menos até uns meses antes do dia das eleições (até às sondagens começarem a mostrar que o resultado até poderia ser bastante diferente), a maioria dos protagonistas e observadores considerava como muito provável uma derrota estrondosa do PàF, tendo em conta que o governo apoiado nesta coligação aplicar uma politica de austeridade dura e, naturalmente, impopular.
Não foi o que aconteceu, o PàF teve mais votos e o PS menos, na percepção de práticamente toda a gente o PàF de Passos Coelho ganhou as eleições e o PS deAntónio Costa perdeu-as.

Dito isto, com o sistema que temos, é verdade que ganhar eleições não significa automáticamente que se está em condições formar e manter um governo suportado por uma maioria parlamentar.
Não havendo um partido ou coligação com maioria absoluta, o partido vencedor das eleições é normalmente chamado para tentar governar desde que consiga assegurar no Parlamento as condições necessárias para que não seja derrubado por moções de censura e para aprovar orçamentos e outras propostas de leis importantes.
Isto pode passar por um acordo post-eleitoral e parlamentar entre o partido vencedor das eleições e um ou mais partidos com um numero de deputados suficiente para viabilizar um governo, minoritário ou de coligação.
Mas pode mesmo passar por um governo minoritário sem esse tipo de acordo formal desde que um numero suficiente de deputados se abstenha no sentido de deixar o vencedor das eleições formar governo e governar.
Foi o que se passou por diversas vezes ao longo das 4 décadas do actual sistema politico democrático : governos de coligação entre o PS e o PSD (e CDS), governos minoritários do PS e do PSD (mais do PS viabilizados com a abstenção do PSD).

No seguimento das últimas eleições, era razoável esperar que acontecesse algo do género.
Tanto mais que, no plano institucional, era também a expectativa e a vontade do Presidente da Républica em funções, orgão de soberania eleito por maioria absoluta e ao qual a Constituição reconhece um papel determinante na resolução de situações deste género.
Não foi o que aconteceu.
Por três razões.
Primeiro, porque o PS, rompendo com a prática anterior, optou desde o inicio por não chegar a qualquer acordo com o PàF que viabilizasse um governo minoritário ou de coligação.
Segundo, porque o PS, afastando-se pela primeira vez de um posicionamento de principio de não fazer alianças de governo com partidos à esquerda contrários à opção europeia, procurou obter o apoio destes partidos para a obtenção de uma maioria parlamentar de rejeição de um governo minoritário do PàF e de viabilização de um governo minoritário ou alargado liderado pelo PS.
Terceiro, porque, ao contrário do que sempre tinham dito e de todas as expectativas, o BE e o PCP mostraram-se disponiveis para viabilizar um governo PS minoritário.

Assim sendo, é inegável que o governo actual tem uma maioria para governar e tem, por isso, legitimidade institucional.
O que não se pode dizer é que este governo resulte de uma vitória nas eleições por parte de qualquer um dos partidos que o apoiam ou de um conjunto que não existia como opção consistente.
O governo actual é um governo legitimo dos partidos que perderam as eleiçõe.
Sem imagem de perfil

De Anónimo a 07.04.2016 às 19:52

Os partidos da geringonça como diz são aqueles que tudo fazem para dar aos portugueses a dignidade que lhes foi retirada pelo anterior governo. Agora, os portugueses podem ver uma luz ao fundo do túnel, antes, não viam nada, a não ser ficarem todos os dias com menos porque lhes confiscavam tudo, em nome duma dívida que apesar de tanto sacrifício, ainda conseguiram a proeza de a aumentarem. Que moralidade têm os anteriores governantes e seus apoiantes, para falarem deste governo, quando o que têm feito é dar melhores condições de vida aos seus cidadãos enquanto os outros lhes tiraram tudo? Chavões são a "geringonça" e quem baptizou este governo de tal porque ao fazerem-no, revelam que o único que sabem fazer não é governar, é apelidar os outros com chavões tão triste como "geringonça".
Sem imagem de perfil

De Fernando S a 07.04.2016 às 22:57

Anónimo : "Agora, os portugueses podem ver uma luz ao fundo do túnel, antes, não viam nada ..."

Finantial Times (2016.04.07) :

"Há um ano a situação parecia melhorar em Portugal.
O BCE comprava titulos da divida portuguesa e os juros a 10 anos eram negociados a um nivel históricamente baixo de 1,5%.
Mas, apenas 12 meses mais tarde, a maré mudou outra vez.
Apesar das ainda maiores facilidades por parte do BCE, os titulos de divida publica portuguesa estão agora a 3,2%. Em Fevereiro estiveram mesmo acima de 4%, o nivel mais elevado desde há dois anos.
Em 2016, até agora, a divida portuguesa degradou-se mais do as dividas italiana e espanhola.
Desde o inicio do ano que um forte aumento dos riscos politicos e económicos do pais fez cair a confiança dos investidores.
O novo governo socialista, minoritário, formado no final do ano passado, entrou em confronto com Bruxelas a propósito de medidas destinadas a "virar a página da austeridade."
A situação macro é bastante frágil. O crescimento é mediocre. A situação politica é incerta, assim como o contexto global."

Pelos vistos, a "luz" está antes a desaparecer !!...
Sem imagem de perfil

De Vento a 08.04.2016 às 12:05

http://contasconnosco.pt/artigo/entenda-as-subidas-e-descidas-dos-juros-da-divida-publica

Mais isto:
http://www.jornaldenegocios.pt/mercados/obrigacoes/detalhe/juros_da_divida_aliviam_com_maior_queda_em_tres_semanas.html

Não se deixe influenciar por conversa do finantial times. As subidas de juros têm outras causas. Gostaríamos de saber quem são esses investidores que deixaram de investir. Pode dizer-nos?

Abraço
Sem imagem de perfil

De Vento a 08.04.2016 às 12:26

Desculpe.

não incluí estes dados:
http://www.jornaldenegocios.pt/economia/conjuntura/detalhe/negocios_na_industria_recuperam_mas_continuam_negativos.html

Sobre a indústria no RU:
http://www.telegraph.co.uk/business/2016/04/08/uk-manufacturing-slumps-as-trade-deficit-with-eu-hits-fresh-reco/
Sem imagem de perfil

De Fernando S a 08.04.2016 às 14:01

Os dois links que o amigo Vento acrescenta mostram por um lado que a industria portuguesa abrandou desde há alguns meses e não recuperou entretanto e, por outro lado, que para tal pode estar a contribuir uma desacelação equivalente nos nossos principais parceiros.
O que faz naturalmente sentido.
Mas convém não deixar que a árvore esconda a floresta ...
Os fatores externos são importantes e condicionam naturalmente economias pequenas e abertas como a nossa.
Mas não explicam tudo.
E, sobretudo, não explicam evoluções que são mais próprias ao nosso pais do que de uma situação geral.
Todos os paises são afectados pela perspectiva de um crescimento mundial menos importante do que estava inicialmente estimado.
Mas os diferentes paises são vistos, nomeadamente pelos investidores e mercados, como estando mais ou menos aptos para fazer face e a gerir a situação.
E a verdade é que o que se tem vindo a vêr quanto à evolução comparativa das taxas de juro mostra que essa percepção é de que Portugal, com a politica anunciada e inicial do governo actual, está mais fragilizado e menos preparado.
Um dos aspectos de uma boa governação é precisamente a prudência no sentido de evitar que o pais fique sem margem de manobra no caso de se verificar uma deterioração das condições envolventes, nomeadamente externas.
Tendo em conta a situação ainda frágil do nosso pais e tendo em conta que a possibilidade de um abrandamento no crescimento dos nossos parceiros não era de excluir e era até um receio já ressentido desde há meses, a precipitação do governo actual em querer "reverter" a austeridade e certas reformas estruturais foi um mau sinal para os mercados e para os investidores.
E o que é preocupante é que provávelmente o pior está ainda para vir.
Oxalá me engane !!
Sem imagem de perfil

De Vento a 08.04.2016 às 17:01

O que o Fernando vem dizer é exactamente aquilo que eu sempre referi, isto
é, que o buraco que estavam a cavar aos outros se abriria aos pés desses que o cavavam.
Os investidores em causa só vêem a rentabilidade de seus movimentos especulativos. E se para que isto continue puderem inverter políticas a seu favor, fazem-no.

Não são eles que têm de garantir as políticas a seguir. Alguns deles queixam-se pelas perdas nas obrigações séniores. Mas isso é problema que eles deviam ter previsto nos seus investimentos. O que pretendem fazer é manter ganhos nos seus maus investimentos custe a quem custar.
Sem imagem de perfil

De Fernando S a 08.04.2016 às 13:14

Boa tarde,
Eu não me fio mais no Finantial Times do que o meu amigo se fia no conto da virgem ...
O seu primeiro link descreve sumáriamente os mecanismos de subida e descida dos juros.
Mas nem sequer explica teóricamente os factores que fazem com que subam ou desçam.
Acresce que o que importa não são as oscilações diárias ou pontuais dos juros, determinadas por multiplos factores conjunturais de efeito curto e limitado, mas sim as tendências de fundo e de mais longo prazo.
O seu segundo link, para uma noticia de finais de Fevereiro, é precisamente um exemplo de uma das descidas pontuais determinadas por circunstâncias passageiras. No caso, foi a noticia de que uma agência de rating fizera um comentário positivo pelo facto do governo português ter aprovado no Parlamento uma versão do Orçamento menos expansionista do que fora inicialmente esboçado. Mas depois, outras circunstâncias, incluindo até comentários menos favoráveis da mesma agência, voltaram a fazer subir as taxas.
Ou seja, o que mais importa é a tendência de fundo, de mais longo prazo, que reflete a percepção que têm os observadores e investidores sobre factores mais fundamentais da situação financeira e económica.
E, neste plano, a verdade é que, como lembra o artigo do FT que reproduzi parcialmente acima, as taxas de juro da divida portuguesa passaram de cerca de 1,5% há 1 ano, com o governo anterior, para cerca do dobro, acima dos 3%, com o governo actual.
E não se trata sequer de algo que se explique pela politica do BCE tendo em conta que a compra de divida portuguesa até aumentou entretanto e mesmo assim o diferencial das taxas portuguesas para as de outros paises aumentou.
Os "investidores que deixaram de investir" são precisamente aqueles que têm hoje menos confiança na qualidade da divida portuguesa porque percebem que o pais mudou de politica e segue por um caminho mais arriscado.
Mas mais do que "deixar de investir" o que a generalidade dos investidores faz é aceitar emprestar a um juro mais elevado, que compense os maiores riscos.
A não ser que o amigo ache que são investidores que optaram por perder oportunidades de ganhos apenas para sabotar politicamente o governo actual !!...
Mas neste caso é o amigo que deve dizer quem seriam esses personagens e porque é que se comportariam desse modo estranho !
Abraço.

Sem imagem de perfil

De Vento a 08.04.2016 às 16:55

O meu caro Fernando confunde dois factores: o investidor financeiro e o investidor que gera produção e cria a tal sustentabilidade que apregoa atribuindo a mim a crença no conto da virgem.

Vejamos o que já referi por muitas vezes: o investidor financeiro é um agente especulativo do mercado. Como em tempo lhe disse o factor de quebra na procura de matérias primas, onde se inclui o ferro, traduzir-se-ia no aumento das taxas de juro. Como tal ocorreu, o BCE voltou a intervir no mercado para inverter a tendência. Foi mais longe ainda, disponibilizou liquidez à banca para que esta se pudesse escudar na compra de dívida soberana.
Portanto, se a banca se escuda na compra da dívida soberana, então, veremos aqui que o investidor produtivo não tem capacidade para inverter o ciclo económico.
Não tendo esta capacidade o factor de sustentabilidade que tanto apregoa terá de vir pela expansão orçamental e, consequentemente, através do investimento público.

A política do uso dos 1400 milhões do fundo da SS revela o que já lhe tinha referido: é necessário avançar com o investimento para se colher os frutos. Contabilisticamente estaremos perante as tais IMOBILIZAÇÔES EM CURSO que em nada desvirtuam o resultado contabilístico.

Concluindo, as flutuações das taxas de juro só revelam que o ciclo iniciado anteriormente conduziu precisamente a efeitos recessivos nefastos; e que o modelo a seguir é exactamente aquele que se provou nos EUA pelo ainda presidente Obama. Isto é, apostar no consumo das pessoas e não dos financeiros e dos grupos económicos. O mercado é isto e não os operadores que anuncia.

Por outro lado, pretendi demonstrar-lhe que as taxas de juro em Portugal tiveram o mesmo comportamento dos restantes países, com alguma diferença na Alemanha, por enquanto.

Já respondi sobre quem são as personagens.
Sem imagem de perfil

De Fernando S a 10.04.2016 às 00:25

VENTO : "confunde dois factores: o investidor financeiro e o investidor que gera produção e cria a tal sustentabilidade que apregoa (...) o investidor financeiro é um agente especulativo do mercado."

Há investidores. Que avaliam e optam por diferentes tipos e formas de aplicação do seu dinheiro. Muitas vezes estão em diferentes niveis em simultâneo. Muitas vezes concentram-se mais num ou noutro. Mas todos, enquanto investidores, desempenham um papel no processo de criação de valor, de riqueza. A distinção que faz entre investidores "financeiros" e "produtivos", embora se possa aceitar e perceber em termos discritivos, não têm o sentido conceptual que lhe atribui : apenas os "produtivos" criam valor enquanto que os "financeiros" (ou especulativos") apenas captam uma parte desse valor já criado. Esta é uma versão revisitada da velha teoria marxista do trabalho. Todos os investimentos, se feitos criteriosamente, contribuem para a criação e preservação de valor. Os "financeiros" mobilizam e disponibilizam recursos que são indispensáveis a qualquer investimento "produtivo". Os "produtivos" utilizam recursos, dos "financeiros" ou próprios (e nesta qualidade são também "financeiros"), para levar a cabo processos de produção de bens e serviços. Estes bens e serviços apenas representam valor, riqueza, na medida em que circulam, isto é, são postos à disposição dos utilizadores finais nas condições e nos tempos apropriados. O que exige ainda investimentos, isto é, a mobilização e aplicação de recursos para o efeito. Sem "produtivos" e sem "financeiros não haveria criação de riqueza, de valor.
A "sustentabilidade" tem a ver com o conjunto, tanto é "produtiva" como "financeira".
Concretamente, se não existirem investidores dispostos em disponibilizar recursos financeiros que possam ser canalizados para actividades produtivas em volumes suficientes e a custos comportáveis, podem-se ter todas as politicas "industriais" e de "consumo" que se queiram que a produção dos bens e serviços desejados não vai acontecer.
Assim sendo, é importante garantir a credibilidade do pais, do Estado, do sistema bancário, das empresas, das familias, de cada um e do conjunto.
Sub-estimar e desprezar o papel dos investidores ditos "financeiros", aqueles que disponibilizam recursos produtivos (sim, porque dinheiro é um poder sobre recursos), é o primeiro passo para não garantir a sustentabilidade de uma economia criadora de riqueza.
Sem imagem de perfil

De Fernando S a 10.04.2016 às 00:26

VENTO : "o factor de quebra na procura de matérias primas, onde se inclui o ferro, traduzir-se-ia no aumento das taxas de juro. Como tal ocorreu, o BCE voltou a intervir no mercado para inverter a tendência. Foi mais longe ainda, disponibilizou liquidez à banca para que esta se pudesse escudar na compra de dívida soberana. Portanto, se a banca se escuda na compra da dívida soberana, então, veremos aqui que o investidor produtivo não tem capacidade para inverter o ciclo económico."

O aumento das taxas de juro depende naturalmente de multiplos factores que influenciam as condições económicas e financeiras que os investidores têm em conta nas suas decisões. Na economia tudo tem a vêr com tudo. Mas tudo não é equivalente. Quem empresta dinheiro avalia sobretudo o risco e o potencial de ganho. As taxas de juro sobem porque os investidores consideram o risco elevado e apenas aceitam corrê-lo em troca de uma maior remuneração. A intervenção do BCE, comprando divida pública (ou aceitando-a como colateral para empréstimos à banca), tende a moderar ou mesmo a compensar factores de risco ligados à situação real do pais. O que é bom para a economia do pais, para o seu financiamento, do Estado que reestrutura divida em melhores condições, da banca que tem mais liquidez disponivel, das familias e das empresas que têm acesso a mais crédito a custos mais baixos. Deste modo, é bom para o consumo e para o investimento, públicos e privados. Em particular, só pode ser favorável ao investimento das empresas, ao investimento "produtivo" que tanto interessa ao Vento (e a mim também).
Ou seja, ao contrário do que o Vento diz, a melhoria da situação financeira e económica do pais e a intervenção do BCE favoreceram o financiamento da economia por parte dos investidores (os que emprestam dinheiro, aqueles que o vento chama "financeiros", parte fundamental dos famigerados "mercados"), com mais crédito a custos mais baixos, e portanto, também favoreceram o investimento "produtivo" das empresas (de resto, apesar da existência de outros factores negativos, e apesar de ter sido ainda insuficiente para recuperar a totalidade do desinvestimento anterior, o investimento privado aumentou desde 2014, precisamente em paralelo com a redução progressiva das taxas de juro).
Sem imagem de perfil

De Fernando S a 10.04.2016 às 00:29

VENTO : "Não tendo [o investidor produtivo] esta capacidade o factor de sustentabilidade que tanto apregoa terá de vir pela expansão orçamental e, consequentemente, através do investimento público."

Como indiquei acima, não é verdade que o investimento produtivo tenha sido prejudicado pela compra de divida pública por parte da banca comercial e, indirectamente, do BCE. Antes pelo contrário. Foi precisamente a divida pública detida pelos bancos que lhes serviu para obterem liquidez junto do BCE a taxas de juro ainda mais baixas e que pôde de seguida ser passada para a economia através da concessão de crédito, nomeadamente para investimento produtivo.
É verdade que o elevado endividamento dos Estados desvia recursos financeiros que de outro modo poderiam ser canaizados para o crédito à economia. Mas esta situação resultou de politicas públicas despesistas e, embora desejável, a correcção desta situação não é fácil nem se consegue de um dia para o outro. Os Estados precisam de continuar a serem financiados sob pena de acontecerem rupturas que, para além de interomper serviços públicos, podem ainda afectar a própria economia.
Mas é precisamente para que se libertem recursos excessivamente concentrados no financiamento do Estado e para que estes recursos possam antes ser canalizados para o financiamento da economia, das empresas e das familias, com mais liquidez e com juros mais baixos, que o saneamento das contas públicas deve ser uma prioridade da politica governamental.
Assim sendo, o aumento dos gastos públicos, incluindo o investimento público, é exactamente o contrário do que deve ser feito.
Desde logo porque o Estado não tem sequer o dinheiro necessário para tal.
Quando muito pode tentar endividar-se ainda mais.
Mas, mesmo que o consiga, tal significaria um agravamento ainda maior da situação já dificil das contas públicas e, consequentemente, um aumento importante das taxas de juro da divida pública e, por arrastamento, de financiamento ao resto da economia.
Ou seja, trata-se de uma falsa solução, com efeitos perversos, ainda piores.

VENTO : "o modelo a seguir é exactamente aquele que se provou nos EUA pelo ainda presidente Obama. Isto é, apostar no consumo das pessoas e não dos financeiros e dos grupos económicos."

Não vou aqui discutir o que foi feito nos EUA a seguir à crise de 2008, nomeadamente pelo presidente Obama.
Quero apenas dizer-lhe que o caso especifico de um pequeno pais como Portugal é muito diferente do da maior economia mundial. Portugal nunca poderia fazer o mesmo que os EUA. Nem sequer a politica americana post crise se pode caracterizar como sendo uma "aposta" no consumo das pessoas contra os "financeiros" e os "grupos económicos.
A "aposta" no consumo, público e privado, foi efectivamente um aspecto central do modelo económico seguido em Portugal desde os finais dos anos 90 até 2011.
Em 2011 viu-se que este modelo, levando ao aumento crescente do endividamento público e privado, atingira os seus limites, era insutentável, explodiu numa quase bancarrota com consequências negativas que ainda hoje estamos a pagar.
Pior ainda, perante a crise internacional que rebentou em 2008, o governo de José Sócrates quiz fazer como os grandes paises, com muitos mais recursos e economias menos desequilibradas, aumentado ainda mais despesas e investimentos públicos. O resultado foi o descontrolo das contas públicas, a perda de credibilidade, a subida em flecha das taxas de juro. O resultado foi uma crise e uma forte recessão que só parou em 2013, quando a situação financeira apareceu controlada e o pais reganhou credibilidade.
Não, amigo Vento, a saida não está em começar por aumentar gastos e investimentos públicos nem por aumentar artificialmente consumos distribuindo rendimentos à custa de um ainda maior desequilibrio das finanças públicas.
O que é preciso é antes consolidar as contas públicas de modo a poder em seguida libertar recursos para a economia, estes sim produtivos e susceptiveis de gerar o crescimento de riqueza que permite aumentos de consumos privados e públicos de forma sustentada e duradoura.
Sem imagem de perfil

De Anónimo a 08.04.2016 às 15:18

BCE e companhia dão as opiniões que lhes interessam e que não correspondem à realidade. Basta ver que as medidas impostas só nos levaram a aumentar a dívida e a tornar a vida impossível. Podem ver a luz ao fundo do túnel e estão a vê-la. O governo socialista não é minoritário porque com ele estão outros partidos e se entrou em confronto com Bruxelas óptimo. Até que enfim apareceu alguém a dizer: basta de massacre, chega de imposições que degradam o país porque se assim não fosse, tudo isto estava errado, as eleições eram escusadas e a democracia estava em risco total.
Sem imagem de perfil

De Fernando S a 08.04.2016 às 19:33

ANONIMO : "BCE e companhia dão as opiniões que lhes interessam e que não correspondem à realidade."

Não sei o que é a "companhia".
O BCE é o Banco Central Europeu. O seu "interêsse", a estabilidade e solidez do Euro, é que um pais como Portugal tenha contas públicas equilibradas e faça as reformas estruturais indispensáveis para que a sua economia possa convergir com as restantes.
Mas mais importante do que as "opiniões" é aquilo que o BCE faz.
Tem vindo a comprar divida portuguesa contribuindo assim para que o financiamento do pais se faça a taxas de juro contidas.
O que, bem ou mal, corresponde exactamente "à realidade".

ANONIMO : "as medidas impostas só nos levaram a aumentar a dívida e a tornar a vida impossível."

As medidas de austeridade e ajustamento foram uma consequência do sobre-endividamento do pais.
O subsequente aumento da divida foi o menor dos males e o máximo possivel e aceitável para evitar a bancarrota do pais e uma degradação muitissimo maior da vida das pessoas.
A divida publica tinha mesmo de aumentar, porque o orçamento do Estado, embora diminuido, continuou deficitário (para não ser teria sido necessário "tornar a vida [das pessoas ainda mais] impossivel"), em grande parte para pagar os juros da enorme divida anteriormente acumulada (o saldo primário, sem juros, passou a ser positivo a partir de 2014).
Mesmo assim, o aumento da divida foi o menor possivel, abrandou significativamente, e foi estabilizado em 2015 (começou mesmo a baixar em % do Pib).
A verdade é que a divida está hoje controlada e é sustentável (ou seja, o pais e o Estado português conseguem financiar-se nos mercados a taxas de juro baixas).
Infelizmente, estas taxas voltaram a subir nos ultimos meses (as a 10 anos duplicaram em menos de 1 ano desde que os mercados começaram a antecipar riscos de mudança de politica em resultado de uma mudança de governo).

ANONIMO : "Podem ver a luz ao fundo do túnel e estão a vê-la."

Eu diria que estão mesmo ofuscados, de tal modo ela é forte !!... ;)

ANONIMO : "O governo socialista não é minoritário porque com ele estão outros partidos ..."

O governo é constituido apenas por ministros do PS.
É portanto um governo minoritário.
Mas é verdade que não é minoritário nas votações no Parlamento porque tem tido o apoio de 2 partidos comunistas e anti-UE.

ANONIMO : "se entrou em confronto com Bruxelas óptimo. Até que enfim apareceu alguém a dizer: basta de massacre, chega de imposições que degradam o país"

Entrar em confronto com a UE, o principal parceiro e financiador do pais, nunca pode ser bom.
Este foi um dos maus sinais que prejudicaram a credibilidade do governo e explicam a subida das taxas de juro.
E só não foi pior porque o governo acabou por recuar e por ter de aceitar grande parte das exigências da UE.
E ainda a procissão vai no adro porque se sabe que novos recuos (o tal Plano B) são previsiveis num prazo relativamente curto.
No final, a austeridade afinal não acaba, o que muda é a distribuição dos sacrificios : foram devolvidos rendimentos a categorias com remunerações acima da média e foram aumentados impostos indirectos, pagos por toda a gente.
Os aumentos irrisórios das pensões mais baixas não chegam para disfarçar que os verdadeiros beneficiados foram as clientelas dos partidos que apoiam o governo.

ANONIMO : "se assim não fosse, tudo isto estava errado, as eleições eram escusadas e a democracia estava em risco total."

As eleições foram tidas em conta e a democracia foi respeitada.
A prova é que o governo é do partido que conseguiu uma maioria de deputados no Parlamento.
Enquanto e na medida em que se forem entendendo !...

Comentar post





Links

Blogue da Semana

  •  
  • Afinidades

  •  
  • Lá fora cá dentro

  •  
  • Mais ligações

  •  
  • Informações úteis


    Arquivo

    1. 2017
    2. J
    3. F
    4. M
    5. A
    6. M
    7. J
    8. J
    9. A
    10. S
    11. O
    12. N
    13. D
    14. 2016
    15. J
    16. F
    17. M
    18. A
    19. M
    20. J
    21. J
    22. A
    23. S
    24. O
    25. N
    26. D
    27. 2015
    28. J
    29. F
    30. M
    31. A
    32. M
    33. J
    34. J
    35. A
    36. S
    37. O
    38. N
    39. D
    40. 2014
    41. J
    42. F
    43. M
    44. A
    45. M
    46. J
    47. J
    48. A
    49. S
    50. O
    51. N
    52. D
    53. 2013
    54. J
    55. F
    56. M
    57. A
    58. M
    59. J
    60. J
    61. A
    62. S
    63. O
    64. N
    65. D
    66. 2012
    67. J
    68. F
    69. M
    70. A
    71. M
    72. J
    73. J
    74. A
    75. S
    76. O
    77. N
    78. D
    79. 2011
    80. J
    81. F
    82. M
    83. A
    84. M
    85. J
    86. J
    87. A
    88. S
    89. O
    90. N
    91. D
    92. 2010
    93. J
    94. F
    95. M
    96. A
    97. M
    98. J
    99. J
    100. A
    101. S
    102. O
    103. N
    104. D
    105. 2009
    106. J
    107. F
    108. M
    109. A
    110. M
    111. J
    112. J
    113. A
    114. S
    115. O
    116. N
    117. D