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Cem anos de mentiras

por Pedro Correia, em 14.11.17

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«Foi a União Soviética que, na Segunda Guerra Mundial, enfrentando sozinha durante três anos a besta nazi-fascista e os seus exércitos, deu um contributo determinante e decisivo para a sua derrota.»

Esta foi a tese propalada no passado dia 7, em que se assinalou o centenário da chamada Revolução de Outubro, pelo secretário-geral do PCP no Diário de Notícias. Tese repetida ipsis verbis dois dias depois no editorial do semanário Avante!, órgão central dos comunistas: «Foi a União Soviética que na Segunda Guerra Mundial, enfrentando sozinha durante três anos, os exércitos nazi-fascistas, deu um contributo determinante e decisivo para a sua derrota e para a profunda alteração da correlação de forças internacional, dando origem a uma nova ordem mundial, que inscreveu na Carta da ONU o respeito pela soberania dos povos, o desarmamento, a solução pacífica e negociada de conflitos entre estados e abrindo caminho a grandes avanços sociais e de libertação nacional.»

 

Assumidas como evidência histórica, estas palavras constituem uma homenagem explícita a Estaline, que comandava com mão de ferro a URSS na II Guerra Mundial e no ano da fundação da ONU, embrião de "uma nova ordem mundial" (há quem prefira chamar-lhe Guerra Fria). Tais ditirambos têm, no entanto, o inconveniente de partirem de uma premissa errada. São mentiras, enunciadas como verdades no espaço mediático.

A mentira, aliás, é uma componente essencial do projecto leninista, que o PCP assume como elemento estrutural do seu pensamento político.

 

A URSS e os seus filhotes ideológicos (PCP incluído) fizeram tudo, durante dois anos, para sabotar o esforço de guerra, nomeadamente nas fábricas de armamento. Não apenas na Europa, deixando o Reino Unido então liderado por Winston Churchill isolado no combate aos sanguinários esquadrões nazis, mas nos próprios EUA, em que os simpatizantes e militantes comunistas foram isolacionistas até 22 de Junho de 1941, quando Adolf Hitler accionou a Operação Barbarossa, invadindo território soviético.

Durante dois anos, portanto desde o Verão de 1939, os diversos partidos comunistas tinham funcionado como "pregoeiros da paz", entoando insistentes loas à neutralidade face ao Eixo nazi-fascista. Chegando-se ao ponto de, na França ocupada pelas divisões hitlerianas, o Partido Comunista ter pedido autorização formal à tropa ocupante para continuar a publicar o seu jornal, L' Humanité, na mais estrita legalidade.

No Portugal salazarista, oficialmente neutral, o próprio Álvaro Cunhal escreveu um célebre artigo, publicado em Março de 1940 no jornal O Diabo, intitulado "Nem Maginot nem Siegfried", advogando a equidistância entre verdugos e vítimas. «Haverá alguma diferença entre a Alemanha do sr. Hitler e a França do sr. Daladier ou mesmo a Inglaterra do sr. Chamberlain?», questionava o futuro líder do PCP nessa prosa.
É um artigo infame, redigido seis meses depois da invasão e anexação violenta da Polónia. Um artigo que devia cobrir de vergonha os comunistas portugueses.

 

Nunca a URSS estalinista esteve isolada "durante três anos" no combate a Hitler e Mussolini. Pelo contrário, o pacto germano-soviético forneceu uma espécie de livre-trânsito às hostes nazis para ocuparem mais de metade da Europa entre 1939 e 1941.

Isolado, sim, esteve o Reino Unido, até ao segundo semestre de 1941 - e sobretudo até à entrada dos EUA na guerra, logo após o bombardeamento de Pearl Harbor pelos japoneses, aliados de Hitler, e à declaração de guerra de Berlim a Washington, a 11 de Dezembro desse ano.

Diga o PCP o que disser, tentando distorcer o sucedido, "os factos são teimosos". Nisto tinha Lenine muita razão.

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52 comentários

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De Vlad, o Emborcador a 14.11.2017 às 16:41

Não fosse a ajuda dos americanos.....

A História do "Se" dá pano para mangas.....não houvesse uma ditadura Estalinista e os alemães tinham ganho a guerra. Houvesse uma democracia na Rússia e os alemães tinham ganho a guerra ( foi a opinião pública que impediu, durante anos, a entrada dos EUA na guerra - 1941); houvesse uma opinião pública no Império russo e nunca poderiam ter morrido 25.000.000 de russos. Esse número de mortos só é possível em ditaduras brutais. A mesma que foi necessária para derrubar Hitler).

A URSS desempenhou um papel fundamental na derrota da Alemanha nazista. Tudo se inverteu a partir de Estalingrado. E em Estalingrado o que contava era o número de homens, e não o de tanques. Combatia-se casa a casa. Buraco a buraco.

A URSS perdeu cerca de 25 milhões de pessoas (mais que na Alemanha e mais de 26 vezes o número de mortes que sofreram os Estados Unidos e o Reino Unido juntos).

E quanto à Wermacht poderiam ter eliminado Hitler se......não houvessem generais que o apoiassem e uma maldita mesa de carvalho :

Mostra-se sob a pressão dos eventos da guerra, que ainda amplos círculos do povo alemão e também da tropa, estão infestados do veneno judeu e democrático da maneira de pensar materialista.
—Walter Model

Paul Ludwig Ewald von Kleist (8 de agosto de 1881 – 13 de novembro de 1954) foi um Marechal de Campo alemão durante a Segunda Guerra Mundial, havendo-se destacado como um dos principais comandantes da Wehrmacht naquele conflito.

E se eu ontem....hoje não. ...e amanhã tampouco.
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De Costa a 14.11.2017 às 18:13

Aqui há ainda não muitos anos, os afectos ao PC faziam questão de repetidamente anunciar a soma global dos anos que os seus passaram nas prisões do anterior regime. O número, claro, impressionava e era imbatível como registo sacrificial.

Aqui há não muitos anos e, decerto, sempre que o vejam como apropriado.

Os mortos de uns valem mais do que os dos outros. Para alguns, talvez. Mas nada disso apaga o pacto celebrado com o Reich e o mais que por aqui já se denunciou. Nem menoriza os mortos dos outros e o esforço e dores dos outros. A simples lei dos números deve ser interpretada sempre com respeito e sem menosprezo pelos mais pequenos. Ou devia ser assim.

Costa
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De Pedro Correia a 14.11.2017 às 22:01

Concordo em absoluto.
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De Vlad, o Emborcador a 15.11.2017 às 11:50

Acordo de Munique:

O objetivo da conferência era a discussão do futuro da Checoslováquia e terminou com a capitulação das nações democráticas perante a Alemanha Nazi de Adolf Hitler.
Este episódio ilustra melhor do que outros o significado da "política de apaziguamento".

A Checoslováquia não foi convidada para a conferência. A conferência é vulgarmente conhecida na República Checa como a "Sentença de Munique".

A frase "traição de Munique" também é usada frequentemente, uma vez que as alianças militares em vigor entre a Checoslováquia, Reino Unido e França foram ignoradas.

Foi alcançado com cerca de uma hora e meia um acordo, assinado a 30 de setembro mas datado de 29 de setembro de 1938. Adolf Hitler, Neville Chamberlain, Édouard Daladier e Benito Mussolini foram os políticos que assinaram o Acordo de Munique. O ajuste dava à Alemanha os Sudetas (Sudetenland), começando em 10 de outubro, e o controle efetivo do resto da Checoslováquia.
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De Alexandre Policarpo a 15.11.2017 às 00:23

Tão giro...já ouviu falar no Porto de Murmansk no Ártico? entre Junho de 1941 e Outubro de 1942, os americanos deixaram lá entre muitas outras coisas, mais de 1200 aviões, de 2700 carros de combate e 27 milhões de kilos de explosivos. Foi por Murmansk que nunca gela e é navegável praticamente todo o ano, que os americanos abasteceram Estaline de tudo o que ele precisou para derrotar os nazis. Isto não são ses, são factos!
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De Vlad, o Emborcador a 15.11.2017 às 08:46

Meu caro Alexandre, aponte-me um livro que não dê especial destaque à determinante influência soviética no desfecho da guerra.

Cerca de noventa por cento das forças armadas alemãs do terceiro Reich, pereceram na frente oriental.

O famoso historiador americano Robert Sherwood, em seu livro de referência, Roosevelt e Hopkins: An Intimate History (Nova York: Grossett & Dunlap, 1948), cita Harry Hopkins mediante a reivindicação de que os americanos “nunca acreditaram que a nossa ajuda Lend-Lease tinha sido o principal fator para a derrota de Hitler na frente oriental soviética. Que isto tinha sido feito pelo heroísmo e sangue do Exército russo.

Harry Lloyd Hopkins (August 17, 1890 – January 29, 1946) was one of President Franklin Delano Roosevelt's closest advisors. He was one of the architects of the New Deal.

Os próprios funcionários governamentais americanos (Raymond Goldsmith, George Herring, e Robert H. Jones) reconhecem que a ajuda Aliada à URSS foi igual a não mais do que 1/10 da produção de armas próprio dos soviéticos, e a quantidade total de Lend Lease-suprimentos, incluindo os enlatados irrelevantes sarcasticamente apelidados pelos russos como a “Segunda Frente”, composta por cerca de 10-11%.

Finalmente :

Harry Truman, foi citado nas páginas do New York Times em junho de 1941 como dizendo:

“Se vemos que a Alemanha está vencendo a guerra, devemos ajudar a Rússia; e se que a Rússia está ganhando, devemos ajudar Alemanha, e dessa forma deixá-los matar o maior número possível… ”
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De Vlad, o Emborcador a 15.11.2017 às 09:13

Continuação :

Entre 1941 e 1942, apenas 7% da carga em tempo de guerra enviada dos EUA chegou à União Soviética. A maior parte das armas e outros materiais chegaram à União Soviética em 1944-1945, uma vez que os ventos de guerra tinha decisivamente mudado.

http://www.globalresearch.ca/history-of-world-war-ii-americas-was-providing-military-aid-to-the-ussr-while-also-supporting-nazi-germany/5449378
http://www.globalresearch.ca/roosevelts-world-war-ii-lend-lease-act-americas-war-economy-us-military-aid-to-the-soviet-union/5449160

Como sabemos:

Batalha de Estalinegrado:

Entre 17 de julho de 1942 e 2 de fevereiro de 1943, durante a Segunda Guerra Mundial. A batalha foi o ponto de virada da guerra na frente oriental, marcando o limite da expansão alemã no território soviético, a partir de onde o Exército Vermelho empurraria as forças alemãs até Berlim, e é considerada a maior e mais sangrenta batalha de toda a história, causando a morte e ferimentos em cerca de dois milhões de soldados e civis.

Sobre o Pacto de Ribbentrop - Molotov:

Munich agreement, in which British and French politicians dismembered Czechoslovakia at the Nazi dictator's pleasure. The one pact that could conceivably have prevented war, a collective security alliance with the Soviet Union, was in effect blocked by the appeaser Chamberlain and an authoritarian Polish government that refused to allow Soviet troops on Polish soil.

Poland had signed its own non-aggression pact with Nazi Germany and seized Czech territory, which puts last week's description by the Polish president Lech Kaczynski of a Soviet "stab in the back" in perspective. The case against the Anglo-French appeasers and the Polish colonels' regime over the failure to prevent war is a good deal stronger than against the Soviet Union.

But the pretence that Soviet repression reached anything like the scale or depths of Nazi savagery – or that the postwar "enslavement" of eastern Europe can be equated with wartime Nazi genocide – is a mendacity that tips towards Holocaust denial. It is certainly not a mistake that could have been made by the Auschwitz survivors liberated by the Red Army in 1945


https://www.theguardian.com/commentisfree/2009/sep/09/second-world-war-soviet-pact




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De Alexandre Policarpo a 15.11.2017 às 18:28

Foi então a próspera industria soviética que forneceu os equipamentos militares, incluindo as rações de combate, que vieram da Ucrânia, com que o papai dos povos venceu a ameaça nazi. A próspera industria soviética dos anos 30/40, deixou de fabricar automóveis, frigorificos e máquinas de lavar roupa, e loiça já agora, e passou a fabricar aviões e tanques de guerra para abastecer o esforço de guerra que libertou a Mãe Rússia dos invasores. O Vlad acabou de nos dar uma enorme lição de história sobra a WWII.
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De Vlad, o Emborcador a 15.11.2017 às 18:57

Ora essa!!

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