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A L. é uma amiga minha catalã. Até aqui nada de especial, não sou o único, nem ela é a única amiga catalã. Só que a L., apesar de nascida na Catalunha e lá ter crescido a vida inteira, tem as raízes na Galiza. Os pais mudaram-se para a Catalunha antes de ela nascer em busca de melhor vida. A L. (e irmãos) nasceram e cresceram em democracia e ao abrigo da Constituição de 1978. Entre eles fala o catalão. Com os pais o castelhano (ou espanhol, quem quiser que use o termo preferido). A L. vai várias vezes por ano à Galiza. É também a favor do referendo e, parece-me, da independência da Catalunha. Só que neste aspecto tem menos certezas: «sinto-me também espanhola» respondeu ela na única vez que entrei na discussão pelo lado dos afectos.

 

Já conheci outros catalães que são acérrimos defensores da independência. Outros são a favor de manter as coisas como são, aumentar a autonomia ou, já me aconteceu, reduzir a mesma. Se tiver que estimar, penso que haverá mais gente a favor da independência que contra ela. Mas raro é aquele que tem uma ideia do que acontece depois. Claro, isto é a amostra que tenho ao meu dispor e nada representativa de nada na Catalunha.

 

A melhor forma de avaliar a presente opinião, à falta de um voto real, é a ferramenta das sondagens. Apresento em baixo a que a Economist publicou na edição da semana passada. Não se trata de ver se há ou não maioria para a independência (não há). Para mim o mais revelador é como o apoio à independência subiu de cerca de 15% em 2006 para quase 50% em 2013/14 (depois de uma subida fortíssima a partir de 2009) e agora caiu novamente para cerca de 35%. É obviamente tentador atribuir este apoio à recessão económica: os catalães viram a sua vida piorar, culparam um dos governantes (entre os dois à escolha) e o outro aproveitou para fazer o mesmo. O mesmo mecanismo que leva ao crescimento de forças anti-democráticas.

 

economist_polls catalonia independence.png

 

É simples e algo simplista. Muitos outros factores terão influenciado este apoio à independência. Até poderia apontar o pico da equipa do Barcelona FC quando treinada por um catalão favorável à independência e a jogar com múltiplos jogadores formados "na casa", muitos deles também catalães. Isto é ainda mais importante quanto o Barcelona foi, no passado, um foco de reunião dos catalães.

 

Só que o crescimento rápido também aponta para uma população com opiniões algo efémeras. Não é um crescimento sustentado, resultante de uma ou mais gerações a serem expostas aos malefícios da nação espanhola. É uma mudança que surge ao sabor dos posts no Facebook, Tweets e manifestações que são festas. É um crescimento que deveria fazer parar para pensar. É um crescimento obviamente resultante de um período de propaganda intensa dos partidos independentistas que tentaram (e não conseguiram) controlar a Generalitat.

 

Significa isso que um referendo estará fora de questão? Obviamente que não. Todas as populações devem ter direito à sua independência se o desejarem. Só que o "povo" catalão não é exactamente oprimido. Tem uma autonomia enorme e poucas são as áreas em que não tem autodeterminação. A sua língua é inclusivamente protegida e pode ser usada nas escolas sem problemas (há muitos outros países onde isso não sucede com línguas regionais). Ainda assim apenas 36% da população aponta o catalão como língua de identidade (47% fá-lo com o espanhol/castelhano). Contribuirão mais do que recebem, no balanço total, em termos fiscais. No entanto, sendo uma região mais rica, isso sucederia sempre, como sucede noutros países ou na UE. Aquilo que não têm é independência. Querem alcançá-la? É legítimo. Só que tal deve ser feito por meios legítimos.

 

A Espanha aprovou a sua actual constituição, que proclama o Estado como indivisível, no referendo de 1978. A Catalunha também votou nesse referendo e um total de 61,4% dos eleitores aprovaram a mesma (90,46% a favor com abstenção de 32,09%). Não se pode dizer que a Catalunha não tenha sido ouvida na discussão ou que a tenha rejeitado. Ora, se assim foi, o resto do país pode e deve ser ouvido na discussão sobre a independência da Catalunha, dado que foi isso que aprovaram há 40 anos. Não o fazer, como pretendem os governantes catalães, é de facto ilegal e um atentado aos direitos daqueles, maioria ou minoria, que preferem manter as coisas como estão.

 

Está mais que visto que, se o referendo de 1 de Outubro for avante, o resultado será esmagadoramente a favor da inependência. Sê-lo-ia mesmo que Rajoy, com o seu estilo de touro raivoso, não tivesse quase militarizado a situação. Isto porque, sendo visto como ilegal, os catalães contra a independência não iriam comparecer. Aquilo que resultará será um aumentar das tensões de forma desnecessária.

 

A melhor forma de resolver o problema teria sido simples: o Estado espanhol aceitaria dar mais algumas concessões aos catalães (inclusive a simbólica de aceitar a língua catalã como parte da identidade) em troca de um referendo organizado pelo país. Se esse referendo, que deveria ter discussões esclarecedoras e as consequências de qualquer independência bem claras, desse na independência, então assim fosse. Só que essa independência deveria ser tão clara como o voto em favor da constituição de 1978. Caso contrário deveria ser rejeitada.

 

O Reino Unido, sem grandes alaridos nem pesos legais, assim procedeu em relação à Escócia. Os escoceses acabaram por preferir ficar no RU. Pessoalmente penso que os catalães acabariam por perceber que, por muito que possam pagar à Espanha, o facto de nela estarem integrados trar-lhes-á muitos outros benefícios. No caso da L., penso que traria também paz de espiríto.

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10 comentários

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De Luís Lavoura a 29.09.2017 às 11:08

[alcançar a independência] deve ser feito por meios legítimos

Mas tais meios não existem nem em Espanha, nem na maior parte dos países. A generalidade dos países não contempla formas legítimas de alcançar a independência.
No caso específico de Espanha, não somente não há meios legais para alcançar a independência, como também há uma recusa total do poder político central em discutir a possível criação de tais meios.
Perante este facto, que meios legítimos propõe o autor do post?

os catalães contra a independência não iriam comparecer

Essa é uma forma cómoda e cobarde de ganhar um referendo (qualquer referendo) - defender a abstenção. Como há sempre (nas democracias modernas) uma grande quantidade (talvez 30%) de abstencionistas, um qualquer grupo pode sempre ganhar um referendo defendendo a abstenção.
o resto do país pode e deve ser ouvido na discussão sobre a independência da Catalunha

Isso, perdoe-me o autor do post, é ridículo. Nunca se pergunta ao resto de um país se está de acordo que uma parte dele se separe. O direito à autodeterminação dos povos diz que um povo se pode ir embora, sem ter que perguntar aos outros povos se o deixam. Já se fizeram referendos à independência da Escócia, do Québeque e do Curdistão e em nenhum desses casos se fez referendos no resto dos países (Reino Unido, Canadá ou Iraque, respetivamente) a perguntar se achavam bem que essas partes se separassem.
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De João André a 29.09.2017 às 13:23

Caro Luís, num país democrático e com estado de direito é sempre possível ter meios legítimos para alcançar a independência. Pode passar por mudar a constituição ou aprovar certas excepções no parlamento, mas é sempre possível fazê-lo. Pode ser raro ou inédito, mas isso não impede que possa ser feito.

Em relação ao argumento da cobardia, de acordo. Nada a comentar.

O "perguntar ao resto do país" não é feito em referendo: é feito através dos seus órgãos de soberania: o governo, o parlamento, o chefe de estado. Tudo após um debate nacional. Não defendo em momento nenhum um referendo em toda a Espanha sobre a independência da Catalunha.
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De Luís Lavoura a 29.09.2017 às 11:12

O post é confuso: defende que se faça um referendo por toda a Espanha e depois diz que o Reino Unido procedeu assim em relação à Escócia. Mas isso é falso - o Reino Unido fez um referendo somente na Escócia, não em todo o reino. Que defende então, concretamente, o autor do post - que se faça um referendo em toda a Espanha, ou somente na Catalunha? Que se faça um referendo em todo o Reino Unido, ou somente na Escócia?
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De João André a 29.09.2017 às 13:24

O meu post foi talvez pouco claro: ouvir o resto do país passa pelos seus órgãos de soberania, não por referendos em todo o país. Nunca pretendi dar essa opinião.
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De tric.Lebanon a 29.09.2017 às 11:16

eu conheço um português que é um acérrimo defensor da prisão dos independentistas catalães em tempo de expansão islâmica, eu. colocar a segurança de Portugal por causa de líricos, em tempo de ventos predominantes islamicos!!!?? é de loucos...uma das fases mais importantes do Califado Islâmico na Ibéria começa com o caos no Reino Católico de Espanha!!!
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De Pedro Correia a 29.09.2017 às 11:41

É curioso que nunca se fale da Alta Catalunha, historicamente chamada Rossilhão, agora integrada numa região denominada Occitânia.
https://www.nytimes.com/es/2016/09/13/los-catalanes-protestan-por-la-perdida-de-su-identidad-en-francia/?mcubz=1

Ali não há autonomia nem a língua catalã prospera. O jacobinismo francês, com o seu centralismo sem complexos, asfixiou todas as aspirações ao autogoverno, ao contrário do que sucedeu na Catalunha espanhola, e na prática interditou o ensino do catalão.

E no entanto o País Catalão sonhado pelos separatistas inclui a Alta Catalunha (sob domínio francês desde 1659), parte da ilha italiana da Sardenha, e ainda o arquipélago das Baleares e parte do território espanhol hoje incluído nas regiões de Aragão e Valência. No fundo, a parcela territorial que correspondia ao antigo Principado.

Nunca se fala deste tema, mas uma hipotética "independência" da Catalunha abriria de imediato não apenas uma fractura com o Estado espanhol mas também com os Executivos regionais sediados em Valência, Barcelona e Palma. E um inevitável conflito fronteiriço de baixa intensidade com a própria França.
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De Luís Lavoura a 29.09.2017 às 12:40

o País Catalão sonhado pelos separatistas

A que separatistas se refere concretamente o Pedro? Diga nomes, aponte textos, etc.

Esses separatistas estão politicamente representados? Ou não passam de minorias insignificantes e sem expressão política?
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De Luís Lavoura a 29.09.2017 às 12:43

O jacobinismo francês, com o seu centralismo sem complexos, asfixiou todas as aspirações ao autogoverno

Exatamente.

Uma vez falei com uma nativa (francófona) do Québec e perguntei-lhe de onde derivava o independentismo dessa província. Ela respondeu que "os franceses perderam a guerra mas não perderam os seus direitos". Estes problemas derivam precisamente de países que ganharam guerras mas que depois não oprimiram de forma suficientemente dura e continuada os povos conquistados.
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De João André a 29.09.2017 às 13:26

Está a defender a repressão ou apenas a constatar?
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De Anónimo a 29.09.2017 às 15:58

A repressão nunca resolveu nada.
Já a supressão...

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