Saltar para: Post [1], Comentários [2], Pesquisa e Arquivos [3]




Camilo e a mesa

por Luís Naves, em 20.05.17

581full-amor-de-perdição-screenshot.jpg

 

Este post do Pedro Correia sobre o humor e a gastronomia na literatura suscita algumas observações, sobretudo em relação ao caso de Camilo Castelo Branco. Parece evidente que Camilo tinha um terrível humor sarcástico, mas não acho tão óbvio que se interessasse grandemente por gastronomia. Os exemplos em que o autor se refere a comida podem dar para um volume, mas isso deve-se mais à vastidão da obra do que a um interesse particular. Dos quase 200 títulos de Camilo (talvez mais de 150 volumes) não se extraem muitos elementos sobre as funções básicas da natureza humana. É difícil, por exemplo, perceber como é que as pessoas se lavavam, saber pormenores de higiene ou qual o valor relativo de um objecto, em comparação ao salário de um camponês. Esse tipo de informação pode extrair-se da obra de Balzac, mas no caso de Camilo é difícil, pois sabemos a renda das quintas sem sabermos coisas menores, por exemplo o custo de uma galinha ou o preço de um fato.

Claro que há referências a gastronomia, mas julgo que têm geralmente uma função narrativa. Estou a lembrar-me de uns pastéis em A Brasileira de Prazins ou das opíparas refeições do falso D. Miguel no mesmo romance: aquilo serve como comédia. Há referências a glutões e a banquetes, um piquenique em Coisas Espantosas, ocasionais autênticos petiscos nas miscelâneas, mas na maioria dos livros de Camilo não encontramos qualquer referência a refeições; quando estas existem, as cozinheiras são trabalhadoras do povo mais interessadas em sexo (Anátema) ou a comida não merece descrição especial, a ponto de não reconhecermos variantes regionais.

O modo de fazer está ausente e Camilo é um provinciano que desconfia das novidades da culinária francesa, veja-se esta passagem de O Sangue: “Quem come francêsmente cria alma; corpo é que não. Aquele magro molho em que bóiam cascas farináceas não entulha os ductos da intelectualidade. A víscera vital por excelência não escoiceia o vizinho de cima, como sucede nos casos em que o esófago arfa sacudido pelo estômago repleto de fibrina. O coração agita-se docemente quando o novo quilo se está elaborando”. Enfim, o escritor, aqui narrador, não acredita nas subtilezas dos sabores, mas apenas no coice intelectual da proteína, nas virtudes substantivas do colesterol e, acima de tudo, na luxúria da linguagem e do estilo.

Em O Santo da Montanha, há duas cenas à mesa, mas a primeira serve para o encontro entre as personagens, a segunda para a tragédia, com uma descrição alimentar pouco abonatória. Neste romance (um dos meus favoritos na parte que conheço da obra de Camilo), a comida que surge na primeira refeição parece antecipar a desgraça futura das personagens, quando os leitores ainda não sabem que se trata de uma história de ciúmes assassinos: “Abancados à tosca mesa, cuja toalha tresandava ao fartum do azeite e bacalhau, apareceu a travessa fumegante com duas galinhas, sobre as quais se levantava uma pirâmide de três salpicões, assentes num grosso lardo de toucinho”. A descrição tem um elemento substancial, quase doentio, e intenção repugnante (não quero exagerar, mas talvez isto seja alusão inconsciente ao horror do sexo), como se houvesse aqui um aviso do escritor para as personagens se afastarem umas das outras, pois nesta altura ainda vão a tempo de o fazer.

Podia referir outros exemplos de excertos da obra de Camilo onde a comida tem função narrativa, caracteriza a classe social das personagens, introduz um momento de humor ou é mera decoração de uma cena burguesa. Há também citações sobre fome, mas julgo que Camilo estava longe de se interessar por gastronomia ou culinária. O que explica a aparente abundância de referências a comida é a dimensão invulgar da obra, sobretudo dedicada à violência, ao amor, à maldade, à hipocrisia, enfim, às paixões e ao destino.

Autoria e outros dados (tags, etc)


1 comentário

Imagem de perfil

De João Pedro Pimenta a 26.05.2017 às 18:08

Tem graça; quando vi a fotografia, à pressa, a personagem de António Silva pareceu-me Fernandel, que ficou famoso por interpretar D. Camilo. Ainda para mais, passando os olhos pelo texto e vendo o nome do antigo preso da cadeia da Relacção, pensei mesmo, por segundos, que era sobre ele, até ver o engano. Mas há equívocos que parecem mesmo fazer sentido.

Comentar post





Links

Blogue da Semana

  •  
  • Afinidades

  •  
  • Lá fora cá dentro

  •  
  • Mais ligações

  •  
  • Informações úteis


    Arquivo

    1. 2017
    2. J
    3. F
    4. M
    5. A
    6. M
    7. J
    8. J
    9. A
    10. S
    11. O
    12. N
    13. D
    14. 2016
    15. J
    16. F
    17. M
    18. A
    19. M
    20. J
    21. J
    22. A
    23. S
    24. O
    25. N
    26. D
    27. 2015
    28. J
    29. F
    30. M
    31. A
    32. M
    33. J
    34. J
    35. A
    36. S
    37. O
    38. N
    39. D
    40. 2014
    41. J
    42. F
    43. M
    44. A
    45. M
    46. J
    47. J
    48. A
    49. S
    50. O
    51. N
    52. D
    53. 2013
    54. J
    55. F
    56. M
    57. A
    58. M
    59. J
    60. J
    61. A
    62. S
    63. O
    64. N
    65. D
    66. 2012
    67. J
    68. F
    69. M
    70. A
    71. M
    72. J
    73. J
    74. A
    75. S
    76. O
    77. N
    78. D
    79. 2011
    80. J
    81. F
    82. M
    83. A
    84. M
    85. J
    86. J
    87. A
    88. S
    89. O
    90. N
    91. D
    92. 2010
    93. J
    94. F
    95. M
    96. A
    97. M
    98. J
    99. J
    100. A
    101. S
    102. O
    103. N
    104. D
    105. 2009
    106. J
    107. F
    108. M
    109. A
    110. M
    111. J
    112. J
    113. A
    114. S
    115. O
    116. N
    117. D