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Brexit à bruta

por Diogo Noivo, em 14.03.17

HouseofCommons.jpg

 

O Parlamento Britânico autorizou ontem o Governo a accionar o artigo 50 do Tratado de Lisboa, a norma que contempla a saída de um Estado-Membro da União Europeia. Theresa May fica então com o caminho livre para avançar de imediato para o processo de desvinculação da União Europeia, muito embora a imprensa britânica afirme que a Chefe do Executivo esperará pelo final do mês para dar esse passo. Associada a esta proposta estava uma garantia de direitos aos cidadãos europeus a residir no Reino Unido. Votada a proposta, esta garantia de direitos foi chumbada graças a Conservadores e Trabalhistas - os Liberais foram os únicos a opor-se a este hard stance
São duas as razões que explicam a recusa de uma garantia de direitos. Por um lado, em ambos os lados do Parlamento há quem tema que oferecer esta garantia crie um efeito-chamada, isto é, que de repente entre no Reino Unido uma vaga de cidadãos europeus em busca de residência antes da oficialização do Brexit. Por outro lado, o Reino Unido quer usar este assunto como bargaining chip: antes de oferecer garantias a cidadãos oriundos dos Estados-Membros da União, Londres quer ver que garantias serão oferecidas aos cidadãos britânicos a residir em solo comunitário. Em suma, os direitos dos cidadãos ficam em carteira como moeda de troca para as conversas sobre a operacionalização do Brexit.
Porém, e como quase sempre sucede, existe ainda a matemática de mercearia, típica da política partidária. Theresa May, Chefe do Governo e membro do Partido Conservador, não quer ser ultrapassada pela direita dentro do seu partido. Como escreveu John McTernan no Telegraph em Julho do ano passado, é o mundo ao contrário. Enquanto políticos profundamente conservadores como Andrea Leadsom não hesitam em oferecer garantias aos europeus a residir no Reino Unido (estão de tal forma à direita que oferecer estas garantias não constitui um capitis diminutio político junto do eleitorado Conservador), Theresa May, supostamente mais ao centro, opta pela abordagem dura. 
Entretanto, o Governo Britânico continua sem uma estratégia para o Brexit que aparente um mínimo de consistência (pelo menos em público), a libra sofre uma desvalorização acentuada, e os estrangeiros residentes no Reino Unido vão de incerteza em incerteza até uma muito provável angina de peito final. Do lado da União a abordagem não é mais meiga, sob pena de abrir um precedente que incentive outros a abandonar o projecto comunitário. Se a tendência de extremar posições se mantém chegará o momento em que será impossível recuar sem perder a face.

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8 comentários

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De Manuel a 14.03.2017 às 13:25

Mesmo depois do final impera a agenda particular e egoísta, enfim, uma "união" de hipócritas.
Tudo isto em torno de tratados mal e porcamente tratados.

Adiante. Quem quer sair de algo não mais direitos do que o algo. Ou seja, ainda que mal tratado, quem está na mó de cima é quem fica e não quem sai - se não é assim, é assim que deveria ser.
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De Diogo Noivo a 14.03.2017 às 16:09

O extremar de posições, juntamente com os actos eleitorais complexos que se avizinham, pode fazer com que não haja mó de cima. E esse é o drama.
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De Luís Lavoura a 14.03.2017 às 15:06

o Reino Unido quer usar este assunto como bargaining chip

É uma idiotice de todo o tamanho. O Reino Unido perde mais do que ganha se os outros europeus forem expulsos de lá. É, para o Reino Unido, dar um tiro no pé.

Espero que nenhum outro país na União Europeia se deixe cair nessa bargaining chip, se alguma vez o Reino Unido tiver a estupidez de a utilizar. Perde muito mais o Reino Unido em expulsar os estrangeiros que lá trabalham, do que os outros países da Europa em expulsar os britânicos que lá estão.
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De Diogo Noivo a 14.03.2017 às 16:08

É precisamente essa dinâmica de carrossel do "se tu fazes, eu faço pior" que pode atirar tudo às malvas. Nesta matéria, perdemos todos.
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De Luís Lavoura a 14.03.2017 às 16:19

Nem é preciso dinâmica de carrossel nenhuma. Basta ver que o Reino Unido só se prejudica a si mesmo se puser em causa os europeus que lá estão poderem lá ficar. Porque os europeus que estão no Reino Unido trabalham (e produzem filhos) mais do que os ingleses. Se o Reino Unido decidir expulsá-los, quem fica lá para trabalhar e produzir crianças?
Portanto, o que eu digo é, se o Reino Unido ameaçar expulsar os europeus que lá vivem, não se deve entrar no carrossel, não se deve acreditar no bluff. O Reino Unido fará isso em prejuízo próprio.
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De Diogo Noivo a 14.03.2017 às 17:32

Era bom que as coisas fossem assim, simples e lineares, e contidas a questões de emigração. Porque não são, o Ministro dos Negócios Estrangeiros de Espanha já fez o aviso à navegação: se o novo referendo na Escócia avançar, e se a separação do RU sair vendedora, a Escócia vai para o fim da fila dos países que querem aderir. Acrescentou o Ministro que o processo é necessariamente moroso. Vê, Lavoura? Mais do que um bluff, há vários tiros e vários pés (uns maiores do que outros) em jogo.
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De Luís Lavoura a 14.03.2017 às 18:00

Claro que a negociação do Brexit não terá somente a ver com questões de imigração. Porém, foram somente essas as questões que foram abordadas neste post e sobre as quais eu quis comentar. Em minha opinião essas questões não constituem grande problema, pois que o Reino Unido não tem qualquer poder negocial - se expulsar os imigrantes europeus, só fica a perder ele mesmo, a Europa pouco perde. Os portugueses que trabalham no RU podem perfeitamente ir trabalhar alhures, mas o RU não arranjará com facilidade quem substitua esses portugueses.
Sobre as outras questões do Brexit, como essa da Escócia, não tenho nada a dizer, mas também este post não versou sobre elas.
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De cristof a 15.03.2017 às 18:25

A Inglaterra e as suas excepções há muitos anos que deviam ter sido excluidas do projecto UE.

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