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Breve história de um fim provisório

por Diogo Noivo, em 13.04.17

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No passado fim-de-semana a ETA entregou as armas. Ao contrário do que sucedeu com o IRA ou com as FARC, o desarmamento da ETA foi unilateral, sem contrapartidas. Foi uma rendição. A organização terrorista chega aos dias de hoje sem ter ganho nada: nem independência, nem a junção do País Basco a Navarra, nem a transferência de presos etarras para estabelecimentos prisionais bascos, nem a internacionalização do “conflito”, nem amnistias. Nada. Chega aos dias de hoje sem apoio popular - o pouco que existiu é agora negligenciável. A única coisa que conseguiu foi deixar um rasto de terror feito à custa de mais de 800 cadáveres. 

 

O estertor do terrorismo etarra faz-se de duas datas: 10 de Janeiro e 20 de Outubro de 2011. A 10 de Janeiro de 2011 a organização terrorista ETA anuncia um cessar-fogo "permanente, geral e verificável", três palavras que nunca estiveram juntas em anteriores interrupções de hostilidades. A 20 de Outubro do mesmo ano, a ETA anuncia o "cese definitivo", o fim. Para decretar o óbito de 40 anos de terror faltava apenas que a organização entregasse as armas e, depois, anunciasse oficialmente a sua dissolução. No passado fim-de-semana cumpriu-se a primeira etapa. Aguardamos o cumprimento da segunda.

 

O estado da arte deve-se a diferentes factores que, juntos, criaram a tempestade perfeita. Em primeiro lugar, um processo negocial, o terceiro em 40 anos de terror. Já trouxe ao DELITO a história desta negociação: Negociador (Borja Cobeaga, 2014) é a adaptação cinematográfica criativa do livro onde Jesús Eguiguren, o principal negociador, conta como conversas exploratórias entre ele, do Partido Socialista Basco, e Arnaldo Otegi, uma das figuras mais conhecidas e activas da esquerda abertzale, evoluíram para rondas negociais entre o Governo, a esquerda abertzale e a ETA. Este processo, à semelhança dos anteriores, fracassou. Ainda assim, conseguiu cavar as clivagens existentes na esquerda pró-etarra e, assim, afastar a estrutura partidária da estrutura terrorista. Além do filme e do livro, o processo é agora explicado em El fin de ETA (Justin Webster, 2016), um documentário notável, muitíssimo bem feito, disponível em Portugal no Netflix. Espero trazê-lo em breve ao DELITO.

Em segundo lugar, a pressão policial e judicial. No ano 2000, a ETA contava com cerca de 1000 operacionais; seis anos depois este número desceu para aproximadamente 50. A aplicação da lei foi essencial para que a imensa maioria dos terroristas com experiência operacional e política acabassem presos. O vazio de poder na cúpula da ETA foi então preenchido por jovens impreparados, muitos vindos directamente da kale borroka (guerrilha urbana), gente com manifesta inépcia política.

A nova liderança terrorista é o terceiro factor: o seu fanatismo exacerbado impediu-a de ver a realidade e de perceber que à medida que o tempo passava a organização ficava cada vez mais isolada. A ETA continuou a matar, visando com frequência vítimas de oportunidade, os mais fracos ou mais desprotegidos, pessoas como Isaías Carrasco. Mostrou que a única forma de fazer política que conhecia era matar.

 

Tudo indica que a ETA chegou felizmente ao fim. Porém, manda o conhecimento do modus operandi da organização que esperemos pelo anúncio oficial de dissolução. Recorde-se que a 30 de Dezembro de 2006, em pleno processo negocial, a ETA detonou um carro-bomba no Terminal 4 do aeroporto de Barajas, em Madrid, matando duas pessoas e destruindo por completo um bloco de estacionamento. Recorde-se também que em Outubro desse ano a ETA roubou cerca de 300 armas e munições na véspera do dia em que o Executivo espanhol levou o Caso Basco e representantes das forças políticas separatistas ao Parlamento Europeu. O Governo esforçava-se por encontrar soluções, arriscava muito do seu capital político ao abrir a porta à internacionalização do “conflito”, mas a ETA aproveitava o momento para se rearmar. Por último, recordemos que a ETA defendeu e aplicou aquilo a que chamou de “socialização do sofrimento”, um conceito mórbido segundo o qual a violência tinha de chegar a todos: políticos, polícias, jornalistas, professores, enfim, a todos os que se opunham publicamente à utilização da violência como instrumento de acção política.

Compreende-se, assim, o cepticismo de vários sectores da sociedade espanhola. Além do mais, existe o risco de que os partidos independentistas recuperem o legado político da ETA, ainda que sem recorrer ao terror. Se tal acontecer, será praticamente impossível sarar a chaga social aberta ao longo de 40 anos de terrorismo. Também por isso é importante que a ETA assuma publicamente a sua dissolução.

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1 comentário

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De Peregrino a Meca a 18.04.2017 às 11:26

Só de salientar que o fim do apoio tácito do Estado francês à ETA e a colaboração por fim da policia francesa no desmantelamento do aparelho militar da ETA no território francês (que teve provavelmente como consequência alguma tentativa já muito tardia da ETA de estabelecer bases em Portugal), foi fundamental para a derrota militar da ETA no processo que descreve.

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