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Bestas humanas

por Pedro Correia, em 04.12.14

HieronymusBosch3[1].jpg

 

Não se passou entre bosquímanos ou bijagós, como alguns diriam com pseudo-superioridade etnocêntrica se tivesse ocorrido noutra latitude. Passou-se a dois passos de nossa casa, entre galegos e castelhanos. A pretexto de um jogo de futebol, o Atlético de Madrid-Deportivo da Corunha, dois grupos antagónicos de militantes radicais envolveram-se em violenta pancadaria na capital espanhola que terminou com a agressão fatal a um apoiante da equipa galega, atirado já gravemente ferido ao rio Manzanares. Acabou por morrer no hospital.

A polícia assistiu impávida a esta orgia de violência, que envolveu cerca de duzentos indivíduos. A cúpula dirigente do futebol em Espanha mandou que o jogo se realizasse, mesmo em atmosfera de luto e dor. E as redes sociais encheram-se de proclamações de ódio, a que infelizmente nos vamos habituando ao ponto da indiferença. Como se a fúria assassina não começasse precisamente nestas mensagens de quem diaboliza toda a diferença e apela aos instintos mais rasteiros para suprimi-la.

Leio com crescente repulsa a transcrição de alguns destes "tuítes do ódio", como lhes chama o El Mundo. Há um pouco de tudo - desde o sarcástico elogio ao Manzanares como um local óptimo "para nadar" até à expressão da boçal "alegria" pela morte de alguém transformado em inimigo póstumo pelo simples facto de apoiar um clube de futebol rival. Não falta mesmo quem solte este urro: "Oxalá morram mais!"

Que sociedade estamos a criar? Que valores andamos a incutir aos nossos filhos? De que Europa ainda falamos quando aludimos a padrões civilizacionais? Até onde nos conduzirá este caminho que trilhamos de absoluto desprezo por tudo aquilo que ao longo dos milénios foi distinguindo o homo sapiens da primitiva besta humana?

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24 comentários

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De Luís Lavoura a 04.12.2014 às 10:18

Não se deve tomar os gritos de ódio nas redes sociais com excessiva seriedade. Muitas pessoas são muito mais agressivas diante do computador do que alguma vez se atreveriam a sê-lo no mundo real.
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De Pedro Correia a 04.12.2014 às 12:04

Não ignoro isso, mas tomo essas mensagens - chamemos-lhes assim - como um espelho que reflecte uma espécie de face oculta da sociedade. A coberto do anonimato, muitas vezes, as pessoas exprimem aquilo que verdadeiramente pensam, sem censura social nem resquícios de correcção política. O problema é quando os meios de informação tradicionais funcionam como veículos de amplificação dessas mensagens, como é bem patente ainda hoje nas caixas de comentários da imprensa em linha. Conferindo assim uma caução de respeitabilidade às teses mais trogloditas.
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De João André a 04.12.2014 às 12:54

Tens razão Pedro, mas não vejo necessariamente isso como mau. Estes twitters e blogues de ódio serão quase uma válvula de escape para tais pensamentos. Não são menos odiosos por isso, mas por existirem talvez deixem uns quantos autores com a sensação de já "terem feito qualquer coisa". De outra forma alguns poderiam a certa altura explodir de forma pior - mais violenta.
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De Pedro Correia a 04.12.2014 às 15:05

Admito que sim, João.
Mas mesmo assim preocupa-me, por um lado, o potencial mimético da coisa: se A ou B propagam livremente teses execráveis que encontram eco nas caixas de comentários ou até nas notícias dos jornais, K ou W sentem-se no direito de fazer o mesmo numa espiral que não tem fim.
E preocupa-me também um certo efeito de banalização de tudo isto, o que nos leva por vezes a encolher os ombros. Como se estivéssemos perante algo quase aceitável. Como se estivéssemos a fazer recuar certas linhas que devem ser intransponíveis.
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De jj.amarante a 04.12.2014 às 11:27

"...este caminho que trilhamos de absoluto desprezo por tudo aquilo que ao longo dos milénios foi distinguindo o homo sapiens da primitiva besta humana?"

O "absoluto desprezo" que refere é um perigo permanente que nos tem acompanhado desde sempre e cujo controlo nunca pode ser abandonado. Mesmo assim, desde 1945 que na Europa se tem andado menos mal. É essa a principal vantagem da União Europeia, assegurar a paz.
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De Pedro Correia a 04.12.2014 às 12:05

De acordo. Eu próprio tenho escrito várias vezes sobre esse tema. Mas nem por isso devemos abrandar a vigilância. Porque a voz da besta está sempre pronta a irromper quando e onde menos se espera.
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De lucklucky a 05.12.2014 às 17:08

Menos mal? Metade da Europa aprisionada até 1989. A outra metade só por causa dos EUA.

Quando a solução para a Paz é sermos todos iguais como é o objectivo da Unionistas está tudo dito sobre a tolerância à diferença e o Direito a Dizer Não.
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De Pedro Correia a 06.12.2014 às 23:08

Menos mal é a expressão correcta.
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De Cristina Torrão a 04.12.2014 às 11:28

Perdoe-me, Pedro, mas discordo numa coisa: bestas, sempre fomos, mais do que as apelidadas bestas! Ou houve algum tempo em que os humanos, em geral, viveram em paz, amor e alegria?
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De Pedro Correia a 04.12.2014 às 11:56

Apesar de tudo, Cristina, fomos galgando patamares civilizacionais. Adquirimos - e bem - tabus culturais que nos foram distanciando do ser cavernícola dos primórdios. A antropofagia, o incesto, o esclavagismo, a tortura, a violentação e tantas outras expressões da "besta" foram sendo alvo de sucessivos anátemas sociais, formando uma espécie de cartilha universal de valores. O problema é que tudo isto está envolvido numa redoma demasiado fina, que se estilhaça com demasiada facilidade. Os últimos cem anos de história humana demonstram isso mesmo. E as chamadas "redes sociais", num revelador efeito de espelho, só confirmam a curta distância que ainda separa a civilização da barbárie.
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De Cristina Torrão a 04.12.2014 às 12:27

«tudo isto está envolvido numa redoma demasiado fina, que se estilhaça com demasiada facilidade» - bem dito!
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De Pedro Correia a 04.12.2014 às 15:05

Convém não nos iludirmos muito quanto a isso, Cristina.
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De Maria Dulce Fernandes a 04.12.2014 às 11:56

As chamadas Redes Sociais, criadas com a finalidade de sociabilizar ( vulgo engatar gajas), há muito que perderam a inocência, o propósito do convívio, da proximidade, até mesmo da amizade.
São campo de caça de predadores sexuais, de fanáticos ideológicos, de inescrupulosos manipuladores de consciências, até de criminosos e assassinos.
Á consciência de multidão basta uma pequena faísca para uma simples rixa convulsionar num motim cuja escalada se torna imprevisível. O verniz que prende a irracionalidade estala ao primeiro efúlvio do sangue derramado e a partir daí é a consciência de manada que agrega todos em um, com perda total dos sentidos da percepção excepto o da sobrevivência da espécie, o do animal cruel que nunca deixámos de ser.
Não pode haver leviana presunção de que às ex-inocentes redes sociais não deve ser dado grande crédito. Muito pelo contrário. Movem, seduzem, reduzem, angariam, armam milhões. Mobilizam mais adeptos para uma qualquer função, que 10 partidos políticos em campanha eleitoral conseguem juntos levar a votos.
Estamos à beira da pré-calíptica era Mad Max, que sucederá à dos Hunger Games, mais próxima no tempo do que se crê.
Lamento a perda daquela família cujo ente querido saiu para "ir à Bola". Podia ter sido a minha.
Lamento ainda mais a vida que se perdeu. Para ele tudo acabou num fim que não significará nada.
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De Pedro Correia a 04.12.2014 às 15:15

Sério candidato a comentário da semana, Dulce.
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De Vento a 04.12.2014 às 12:28

Quando olho para as redes sociais não vejo nelas nada de diferente do que observo no dia-a-dia. Na realidade sinto-me livre de optar.
Quero com isto dizer que as redes sociais são exactamente isso: as diversas expressões de uma sociedade.
Quando me dizem que elas têm o seu aspecto perigoso, respondo sempre que nelas se revela a perigosidade e não perigosidade de uma sociedade.

Afinal não há nada de novo debaixo do sol.

Já agora, mais uma mensagem da Senhora em Medjugorje para nos alertar que o verdadeiro perigo se encontra no coração de cada ser.

Na página inicial encontra-se a mensagem de 25-11-2014:

http://www.medjugorjebrasil.com/

E aqui a de 02-12-2014:

http://www.medjugorjebrasil.com/?cat=artigos&id=1438

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De Pedro Correia a 04.12.2014 às 15:16

"Quando me dizem que elas têm o seu aspecto perigoso, respondo sempre que nelas se revela a perigosidade e não perigosidade de uma sociedade."
Palavras que me apetece sublinhar.
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De xico a 04.12.2014 às 12:32

A única coisa que separa o homem moderno do homem da idade da pedra é a tecnologia. A evolução é só tecnológica. E atrevo-me a dizer que em certos casos de ética e moral desconfio bem que houve involução.
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De Pedro Correia a 04.12.2014 às 15:09

A evolução tecnológica não tem correspondência directa, como chegou a supor-se numa certa idade da inocência, no reforço dos parâmetros éticos e morais.
É um facto.
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De Alexandre Carvalho da Silveira a 04.12.2014 às 15:22

Não precisa citar este infeliz caso que se passou há dias em Madrid. Basta recordar o que se passou numa célebre final da Taça de Portugal entre o Sporting e o Benfica e refiro-me ao triste "caso do very-light".
Nesse tempo não havia twitter nem facebook, mas a atitude quer das autoridades policiais e desportivas quer dos adeptos do Benfica, não fugiram muito a este padrão de que o Pedro fala.
O comportamento das pessoas em face do futeból é imprevisivel. Quando nos anos 50 o Lusitano de Évora estava na 1ª divisão, o meu Pai levava-me à bola aos domingos de 15 em 15 dias; um dos vizinhos do meu Pai na central do velhinho Campo Estrela era um muito respeitável e circunspecto senhor Juíz. Esse senhor, sempre muito bem ataviado e delicadìssimo no trato pessoal, quando a bola começava a rolar transformava-se completamente, vociferava durante o jogo todo e não havia mãe de árbitro cuja honorabilidade não fosse posta em causa pelo meretrìssimo.
O homem passava-se completamente quando as coisas não corriam bem para o lado do nosso glorioso Lusitano, o que infelizmente acontecia muitas vezes.

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De Pedro Correia a 04.12.2014 às 22:09

Agardeço o testemunho que aqui nos traz, Alexandre. Mas este caso transcende o âmbito do futebol pois cruza aversões clubísticas com ódios de forças políticas extremistas - tudo potenciado pela crise social e (porque não dizê-lo?) também por uma notória crise de valores.
As "redes sociais" são a cereja em cima do bolo: funcionam como chave de ignição, lançando fogo à pradaria. Que tudo isto acabe por ter um elevado custo, até em vidas humanas, parece não incomodar nem comover alguns dos incendiários.
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De fernando antolin a 04.12.2014 às 15:28

Caro Pedro, há muitos anos e salvo erro na cena final do filme ( ou por aí ), no Ovo da Serpente, vem a frase "...através da casca translúcida do ovo, podemos ver o réptil perfeitamente formado..." ( acho que era algo assim ).

Há quem continue a fechar, bonacheironamente, os olhos à triste realidade.

Abraço
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De Pedro Correia a 04.12.2014 às 22:04

É isso mesmo, Fernando. Vi esse filme de Ingmar Bergman na estreia e nunca mais o revi. Mas jamais esqueci a cena final - tão certeira, tão perturbante. Andamos há demasiado tempo a chocar 'ovos de serpente' que serão utilizados para destruir o frágil edifício civilizacional que fomos erguendo nas últimas décadas.
Ou, como dizem os nossos amigos castelhanos, "cria cuervos y te comerán los ojos".
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De cristof a 04.12.2014 às 19:37

Um ponto positivo: os dois presidentes juntos a condenarem os acontecimentos; para que alguns incendiários daqui tomem nota.
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De Pedro Correia a 04.12.2014 às 22:00

Tem razão. Sublinhemos isso. É mais que merecido.

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