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Bestas e bestiais

por José Navarro de Andrade, em 21.06.14

A corporação dos moderados está a ter o seu momento glória a propósito da débâcle da selecção nacional.

Munidos de uma impermeável rectitude, os moderados saíram à liça a verberar os que até às 17h do dia 16 de Junho cantavam loas ao futebol lusitano e a partir das 19h propalaram os seus horrores evidentes. A dedo foram acusados de duplicidade quase todos os comentadores, esse escol infalível por natureza, cujos patriarcas são o cólico Joaquim Rita e o bilioso Rui Santos, detentores do dom da certeza instantânea, aquela que descreve o passado a partir do presente como se estivesse a realizar futuro. Os moderados escusaram-se porém de denunciar esta essência do negócio daqueles cavalheiros (que sem as suas certezas estariam desempregados) mas apenas a moralidade dos seus prognósticos.

Além do escabroso pendor moralista os moderados, na sua infinita moderação, brandiram ainda a mais danosa das armas: a fatalidade sistémica. Afirmando que selecção, sendo um sistema, não pode ser óptimo antes de um jogo e péssimo depois dele, então, ou a culpa (cá vem a moral) é do sistema, ou o sistema é bom e não pode ser posto em causa por causa de um mero desafio. Tudo isto vem sintetizado no célebre axioma: “não se pode passar de besta a bestial”.

A controvérsia filosófica atingiu tais proporções que infectou algumas das melhores meninges da pátria, como a do Dr. Pulido Valente ou a do Dr. José Neves, que explanaram os seus pareceres no opinativo “Público” de sexta 20. Pulido Valente jogou ao seu nível habitual, aquela espécie de tiki-taka que só ele sabe: a bosta do nosso futebol ilustra o nosso “patriotismo espúrio” (uma bosta) que eivou a bosta da nossa política, para rematar que Portugal é uma bosta – golo! Quatro páginas antes José Neves exibe o seu gabarito académico relacionando o penálti à Panenka com o ralenti cinematográfico, vislumbre estribado numa “sugestão” conceptual de Patrice Blouin que não é futebolista nem cineasta mas, obviamente, historiador. No fim do seu ensaio adverte-nos não se percebe bem do quê, mas envolve a dialética “loucura”-“racionalidade” que é a forma de os cientistas sociais tacharem os gentios de idiotas.

Pois a despeito de tão notáveis autoridades há que afirmar que a moderação servirá à política e à culinária, indústrias onde a justeza do tempero impede que se estraguem os ingredientes, mas no futebol e noutras artes similares é mesmo verdade que se pode passar num ápice de besta a bestial e vice-versa. Não sendo inimputável, o futebol é irresponsável e um dos privilégios que confere aos adeptos é precisamente o de assobiar a besta de um jogador que errou miseravelmente um remate e, no momento seguinte, aplaudir o seu golo bestial. É para isso que vamos ao futebol, para transferirmos e para nos alienarmos – não é para termos razão.

E a selecção? Ora, um bando de fedelhos demasiado bem pagos, descomandados por um teimoso. Claro que se ganharem no Domingo e depois ao Ghana, não hesitarei em enaltecer a persistência e a coerência de Paulo Bento, além da codícia dos nossos bravos, dando por bem empregues os € 26,79 que paguei à Sport.TV.

 

(também aqui)

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1 comentário

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De da Maia a 21.06.2014 às 15:40

Muito bem.
Era preciso um texto denunciador da violência dos moderados.

Tudo se apresenta como um belo bailado de incoerência.
Primeira tentação - a culpa do árbitro - não, isso é muito básico...
Segunda tentação - a culpa da equipa - não, isso é muito básico...
Terceira tentação - a culpa dos que culpam. Ah! Isso parece ponderado...

A culpa dos que culpam, esquece o emissor enquanto alguém que está a culpar.
É quase tão engraçado quanto ver um comentador criticar os comentadores, excluindo-se.
Tem a ontologia contraditória da Ciência dos nossos dias - só admite explicações materiais para tudo, esquecendo que a Ciência é imaterial.
Enfim, e o que nós fazemos com contradições, com absurdos?
Rimos a bandeiras despregadas.

Voltemos pois ao futebol.
Sim, sejamos consistentes. Se as vitórias encontram explicação no brilhantismo da equipa, porque não aceitar que as derrotas encontram explicação na sua mediocridade?

Sim, sejamos equilibrados. Se um regresso vitorioso motiva paradas triunfais pelas avenidas, com os jogadores a serem ovacionados, porque não instituir esse desfile como obrigatório, independentemente do resultado obtido?

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