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Balanço das Leituras de 2016

por Francisca Prieto, em 20.12.16

balanço 2016.jpg

 

O ano começou com Butcher’s Crossing de John Williams. Confesso que só me atirei ao livro porque me tinha rendido a Stoner uns meses antes. Stoner é um livro triste, mas lindíssimo, dos que só quem conhece os meandros do coração humano pode escrever.

Burcher’s Crossing é de uma violência atroz. Seria natural tê-lo deixado a meio pelo incómodo que me causou, mas está tão bem escrito que ficamos rendidos pelas páginas fora. É um “livro de rapazes”, à moda dos cowboys americanos, que vai ao fundo da cobiça humana e que nos destrói pelo caminho.

 

Disse-me Um Adivinho, de Ticiano Terzani, foi outra leitura improvável. Não tenho grande paciência para zodíacos, oráculos e afins. Mas foi-me tão recomendado que cedi e acabei por me render. Provavelmente porque o próprio autor era também um céptico relativamente a estas questões e, tendo mudado um ano da sua vida por causa de uma profecia, escreve sempre no fio da navalha da crença. Correspondente na Ásia de um jornal alemão, Ticiano Terzani um dia consulta um adivinho que lhe diz que em 1993 não pode voar, ou que algo de trágico lhe acontecerá. Não sendo crente, encara a profecia como um desafio para ter um ano diferente, pelo que resolve fazer todos os seus trajectos por terra. E é assim que vamos viajando por diferentes países asiáticos, dos quais ficamos a conhecer as entranhas, e entramos no misterioso mundo dos adivinhos orientais, que por vezes soam a charlatões e que, por outras, são verdadeiros magos.

 

Ham on Rye (julgo que “Pão com Fiambre” na versão portuguesa) de Bukowski foi uma das grandes leituras do ano. Já conhecia a versão adulta desbocada de Bukowski, mas nada sabia sobre a sua infância e adolescência. Ham on Rye é uma biografia dos seus verdes anos e uma peça essencial para perceber quem é o autor.

 

A Vida no Campo, de Joel Neto, foi encetado num voo para o Pico. Não podia ter escolhido melhor companhia. Trata-se de um conjunto de deliciosas crónicas de um açoriano que volta a morar nos Açores depois de vários anos em Lisboa. A visão de quem já esteve fora e consegue apreciar todas as pequenas idiossincrasias dos seus conterrâneos.

Muito bem escrito, com um pingar de ternura que não chega a ser lamechas.

 

Doce Carícia de William Boyd é o livro com os mais desadequados título e capa que já vi na vida. Quem passar por um escaparate pensará que se trata de um livro para oferecer à avó. Não sendo um Nobel, é um excelente livro de férias, que conta a história de vida de uma repórter de guerra. Às vezes até nos esquecemos que é ficção.

 

Fecho o balanço do ano com O Meu Nome É Lucy Barton de Elisabeth Strout. Há livros cuja história não consigo reproduzir porque não me fica na memória. Mas fica a sensação que me deixaram. Este é um desses casos, em que é inútil reproduzir a sinopse porque não é disso que se trata. Claro que me lembro que é a história de uma mulher que está numa cama de hospital e cuja mãe, que nunca foi particularmente afectuosa, a vai visitar. Mas nada disto faz adivinhar a ternura que nos invade ao passar de cada página e a vontade que temos de que o livro nunca acabe porque nos está a fazer uma companhia dos diabos.

 

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5 comentários

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De Jeremias a 20.12.2016 às 10:18

Pedro, até que ponto a literatura e toda a cultura é uma forma de escapismo? Uma fuga da realidade. Da nossa. Modesta. Inútil. Insignificante e sem significado. Tornámo-nos, por ela, viciados em emoções estrangeiras. A realidade já não chega. Mas, afinal quando foi que ela nos bastou?

A cultura, a suprema arte do esquecimento. Esquecimento das planuras. Embrulhamo-nos nela, amodorrados, e fechamos as janelas do nosso quarto. E perguntamo-nos no sobressalto de um sono acordado - É isto a Vida? Não há mais? Onde se esconde o mentiroso?

Preferimos a melodia palavrosa e fria que nos canta o Sol e esquecemo-nos de ir lá fora espreitá-lo - recordar como ele aquece. Cuidado aos que se esconderam tapados. Ele queima!

Deitemos os livros fora, ou agarremos apenas num, escrito a sangue e não a tinta. Decoremo-lo do principio ao fim, como antigamente (em que linha navega o barco de Ulisses? Se faz ouvir o choro de José? Em que circulo, Beatriz?) Saibamos pelo coração em que página está escrito : em verdade vos digo. Essa verdade velha e por isso verdadeira - O progresso será sempre pródigo nas maquilhagens da mentira.

Façamos como o Califa Omar. Arrasemos as bibliotecas. Queimemos os livros.
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De Francisca Prieto a 20.12.2016 às 10:27

Caro Jeremias,
É uma bonita reflexão filosófica, em retirando a parte em que se queimam livros. Não senhora, não há cá fogueiras nem bibliotecas arrasadas.
Não querendo ser picuínhas, não me chamo Pedro, chamo-me Francisca.
(não vá alguém achar que o Pedro andou a lker um livro chamado "Doce Carícia" - ah, ah, ah).
Feliz Natal para si e não pense tanto nisso. A literatura é a base do conhecimento e um entretenimento dos diabos. Goze-a.
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De Jeremias a 20.12.2016 às 10:42

Obrigado, Francisca!
Não se preocupe com os livros. Apenas gosto de "picar"
Boas Festas e Boas Leituras!
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De Leonor a 20.12.2016 às 19:57

Lá vou eu a caminho da wook ...
Faltam-me uns quantos dessa lista, o Boyd, o meu nome é Lucy Barton que dve ter a minha cara :)
Beijo

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