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Eduardo-Mendoza_ElDiario.es.jpg

Eduardo Mendoza

Não queria incomodar nem tem feitio para isso. Só queria escrever uma boa história. Escreveu e fez de Los soldados de Cataluña o seu primeiro livro. Para início de conversa, não esteve nada mal. Começou por incomodar a censura franquista, que lhe impôs uma mudança de título – La verdad sobre el caso Savolta, na versão que chegou aos escaparates e que o celebrizou enquanto escritor. Mas, mais importante, esta boa história inaugurou uma nova etapa na literatura espanhola, sendo consensualmente descrita como a primeira novela da Espanha pós-franquista. Em 1975, aos trinta e poucos anos, Eduardo Mendoza consegue com o seu primeiro livro aborrecer o regime – que descreveu o texto como “estúpido e confuso, escrito sem pés nem cabeça” – e provocar uma ruptura no estilo literário espanhol. Tudo isto para quem apenas queria contar uma boa história.
Os anos sucederam-se e os livros também. A ironia fina e certeira, a sobriedade, e a erudição expressa em linguagem simples tornaram-se a marca distintiva da identidade literária de Eduardo Mendoza. Poucas vezes participou em discussões candentes – a reprodução no El País de um discurso sobre a independência da Catalunha é uma das raras e admiráveis excepções. Ao contrário de outros escritores espanhóis, omnipresentes e ferozes no debate político, Mendoza não quis reclamar o estatuto de intelectual público. O que interessa são as histórias e os livros.
Em 2015, quando se assinalaram os 40 anos de La verdad sobre el caso Savolta, a imprensa espanhola dedicou muitas e boas linhas à revisitação de um livro que, segundo o escritor Javier Marías, é um “marco, uma revelação, um grande êxito, uma novidade distinta, e por isso se diz que, na literatura, marcou o início da democracia e a defunção do Franquismo”. Para António Muñoz Molina, “Mendoza não escrevia para submeter a exame as faculdades intelectuais do leitor, nem para lhe mostrar os seus conhecimentos sobre o nouveu roman francês, ou o monólogo interior ou as obscuridades mais difíceis de William Faulkner; não escrevia para doutrinar politicamente o leitor, nem para jactar-se das suas audácias sintácticas e sexuais. Mendonza, como Marsé, embora com recursos muito diferentes, procura a forma de contar, com a maior eficácia possível, uma história que é muito importante para ele, tão importante que decidiu dedicar-lhe um livro longo e complexo que talvez não chegasse a ser publicado”.

 

EduardoMendoza.jpg

 

A obra criou uma ruptura e o autor também. Para Muñoz Molina, Eduardo Mendoza é imune à “arrogância despectiva”, à “postura jactante”, à “desqualificação frívola daquilo de que não se gosta”, vícios predominantes na cultura intelectual espanhola da época, inclusive da anti-franquista. Não é hagiografia. Tive oportunidade de conhecer Eduardo Mendoza na última feira do livro de Madrid. Quando soube desta oportunidade, hesitei. Conhecer pessoalmente alguém que admiramos pode facilmente dar azo a uma decepção descomunal. E, por outro lado, o homem mudou o romance espanhol e eu nunca mudei nada digno de registo. Hesitei, mas lá fui. E ainda bem, porque o gigante é de uma simpatia distendida e desarmante. Falámos dos livros dele, claro. Embora, curiosamente, Mendoza tenha falado deles como entidades independentes, com vida própria, nunca usando o pronome possessivo “meus”. As histórias têm que valer por si. Com alguma vergonha, disse-lhe que comecei a lê-lo pelos livros mais recentes, nomeadamente pela série do detective anónimo, razão pela qual ainda não tinha acabado o Caso Savolta, que aliás levava debaixo do braço. Eduardo Mendoza pede-me o exemplar e na dedicatória da praxe (que muito agradeço e estimo) não refere importância literária ou pessoal do livro, ou mesmo que se trata de um livro. É tão simplesmente uma velha história. Juan Cruz tem razão quando escreve que Eduardo Mendoza é um cavalheiro que não alardeia os seus triunfos nem as suas feridas.
Na semana passada, Eduardo Mendoza foi galardoado com o Prémio Cervantes, habitualmente descrito como o Nobel da Literatura para as letras em espanhol. Tenho quase a certeza que, ao receber o prémio, não dirá que é dele ou dos seus livros, mas sim das histórias que pôde contar.

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8 comentários

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De rmg a 05.12.2016 às 10:50


Excelente post, não podia estar mais de acordo com a descrição que faz da pessoa.

Tenho e li (o que nem sempre coincide) todos os livros de Eduardo Mendoza nas versões originais, vou mesmo reler agora "Riña de gatos" (Premio Planeta 2010) pois a altura em que o li foi pouco feliz para leituras e pouco ou nada me ficou.

Por acaso o 1º livro dele que li foi "Una comedia ligera" que não é considerado nada por aí além mas para mim foi suficiente para o "tiro de partida".
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De Diogo Noivo a 05.12.2016 às 22:29

Obrigado, rmg. Mesmo a obra "ligeira" de Eduardo Mendoza vale mais a pena que alguns autores de referência que enchem escaparates. Tenho o "Riña de Gatos" pendente. Mas é daqueles que, até pelo período histórico a que se refere, já está na calha.
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De Porfirio Tinto a 06.12.2016 às 10:15

Una comedia ligera" que não é considerado nada por aí além mas para mim foi suficiente para o "tiro de partida.

Claro que sim, ou não fosse por aí e além. Tente, se conseguir, o Galeano:

Os ninguéns: os filhos de ninguém, os dono de nada.
Os ninguéns: os nenhuns, correndo soltos, morrendo a vida, fodidos e mal pagos:
Que não são embora sejam.
Que não falam idiomas, falam dialetos.
Que não praticam religiões, praticam superstições.
Que não fazem arte, fazem artesanato.
Que não são seres humanos, são recursos humanos.
Que não tem cultura, têm folclore.
Que não têm cara, têm braços.
Que não têm nome, têm número.
Que não aparecem na história universal, aparecem nas páginas policiais da imprensa local.
Os ninguéns, que custam menos do que a bala que os mata.
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De Teresa Ribeiro a 05.12.2016 às 12:12

Nunca li nada dele, mas fiquei cheia de vontade depois de ler o teu post. Sobretudo porque fiquei a saber que além da obra poderei, com fundamento, admirar o autor.
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De Diogo Noivo a 05.12.2016 às 22:33

Vale a pena, Teresa. Boas histórias (sobretudo boas histórias), bem estruturadas, bem pensadas, com tempo e espaço para darem o que têm a dar. Língua tratada com zelo e respeito. O escritor não é daqueles que "escreve para os amigos", para usar uma expressão certeira do nosso Luís Naves, mas sim para o leitor interessado. Em suma, é tudo bom.
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De rmg a 06.12.2016 às 03:15


Com sua licença deixo aqui algumas notas que em 2007 escrevi a pedido de um grupo de amigos que tiveram a bondade de me pedir opinião.

Faltam assim livros que saíram entretanto ou que, já tendo saído, eu ainda não tinha lido (neste último caso poucos, acho eu).

Isto é a coisa mais despretensiosa possível mas pode ser útil a alguém.

Aqui vai:

Eduardo Mendoza nasceu em Barcelona em 11 de Janeiro de 1943 .
De 1960 a 1965 tira o curso de Direito e daí em diante "passeia-se" por várias universidades espanholas e europeias , com bolsas variadas , mas sem aparentemente estudar muito , como o próprio admite .
Em 1973 vai para Nova Iorque como intérprete na ONU e só regressa a Barcelona em 1982 .

Alguns apontamentos sobre os livros que tenho e li .
O seu 1º romance , que tem um êxito imediato , é "La verdad sobre el caso Savolta" (1975) e trata das lutas sindicais do princípio do século XX em Barcelona .
O título original era outro mas teve que ser mudado com receio da censura da época .

Seguem-se nesta resenha três livros que têem como protagonista um estranho "detective" que vive num manicómio , três notáveis paródias de que gostei bastante .
São eles :
- "El misterio de la cripta embrujada" (1979)
- "El laberinto de las aceitunas" (1982)
- "La aventura del tocador de senõras" (2001)

De "Una comedia ligera" (1996) já falei noutra altura.
O seu último livro é "Mauricio o las elecciones primarias" (2006) , uma reflexão e um balanço moral e ideológico dos últimos anos em Espanha .

Mas a sua obra mais notável é , sem dúvida , "La ciudad de los prodigios" (1986) que , através da história da ascensão de um jovem camponês pobre que se converte numa das pessoas mais ricas e influentes de Espanha , retrata a evolução social e urbana de Barcelona entre as duas exposições universais (1888 e 1929) .
Foi adaptada ao cinema em 1999 por Mario Camus .





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De António Manuel Venda a 06.12.2016 às 14:02

Um dos escritores da minha vida. Li praticamente tudo (até o divertimento do ET Gurb, resultado de textos que ia publicando na imprensa pouco antes dos Jogos Olímpicos de Barcelona). Descobri-o numa iniciativa da D. Quixote que no final da década de 1980 publicou vários autores espanhóis numa colecção muito especial («A Verdade sobre o Caso Savolta» foi um dos primeiros a sair). Mendoza poderia ter o Nobel nas calmas.
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De Diogo Noivo a 06.12.2016 às 14:22

Sem dúvida, António. O Nobel não lhe ficaria grande. No entanto, ao não ter o mesmo "hype" mediático que outros escritores espanhóis (igualmente bons, mas talvez não tão significativos no quadro geral da literatura espanhola), não sei se será uma hipótese real. É pena.

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