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As canções da minha vida (8)

por Pedro Correia, em 18.03.17

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UN HOMME ET UNE FEMME

1966

 

Já aqui anotei: está por fazer a devida homenagem às orquestras de Paul Mauriat, James Last e Mantovani, que durante largos anos ajudaram a promover os temas produzidos por terceiros, divulgando-os junto de camadas populacionais que associavam sobretudo os sons musicais aos grupos de baile. Houve um tempo, acreditem, em que a música servia muito mais para dançar do que para ouvir passivamente. Tempos da minha infância e pré-adolescência, longe de Lisboa e dos circuitos sofisticados da reverência discográfica.

Nessa época, como em qualquer outra, havia temas musicais que nos entravam de imediato no ouvido, ficando connosco para sempre. Aconteceu-me com aquele de que hoje falo, tornado célebre por via do cinema mas que terei escutado muito antes de ver o filme, em versão orquestral, precisamente numa cassete de Mauriat ou num vinil de Klaus Underlicht. Este tema, ao contrário da maioria, não era “dançável”. Mas entranhava-se de tal maneira que passou a andar na boca de milhões de pessoas, atraídas sobretudo pelas quatro notas do seu refrão onomatopeico: “da ba da ba da, da ba da ba da…”

 

A canção nasceu em 1966 da parceria entre dois jovens muito criativos: o acordeonista e compositor  Francis Lai e o jornalista e cantor  Pierre Barouh, apostados em renovar a canção francesa, na linha de um Michel Legrand, que acabara de alcançar êxito internacional graças à inspirada colaboração com o cineasta Jacques Demy em Les Parapluies de Cherbourg.

Barouh vivera uns tempos em Lisboa, onde em 1959 comprou o disco Chega de Saudade, de João Gilberto: a partir daí, introduziu a bossa nova em França, alterando o panorama musical do país. Também ele mudou, enveredando em definitivo pela carreira musical. Com manifesto sucesso, por exemplo, na adaptação do Samba da Bênção – de Vinicius e Baden Powell – que entre os franceses seria conhecido por Samba Saravah.

 

Todas as vidas são feitas de encontros e desencontros. O encontro mais importante na vida de Lai, hoje a escassos dias de festejar 85 anos e autor de mais de 600 canções, aconteceu quando o realizador Claude Lelouch lhe pediu uma composição para um filme que iria rodar no norte de França. "É uma história de amor", limitou-se a dizer Lelouch, lacónico. O músico foi tocando no seu inseparável acordeão vários temas que tinha em carteira até que, por volta das duas da manhã, surgiu aquele que seduziu enfim o cineasta.

Assim surgiu Un Homme et une Femme – o filme associado para sempre à cantiga homónima que lhe serve de senha, uma das últimas erupções mundiais do cinema francês antes da crise prolongada que viria a divorciá-lo das plateias durante décadas. Melodrama rodado em Deauville, com Anouk Aimée e Jean-Louis Trintignant interpretando dois jovens viúvos. Barouh entrou também como actor. E na vida da deslumbrante Anouk, com quem estaria casado nos três anos seguintes.

 

A película atraiu público e crítica. Conquistou a Palma de Ouro em Cannes e o Óscar para melhor longa-metragem estrangeira. Lai foi nomeado para o Globo de Ouro e viria a ganhar a ambicionada estatueta em Hollywod quatro anos depois, com Love Story.

Barouh fundou a sua própria editora discográfica, chamada Saravah, só para gravar a banda sonora do filme. Un Homme et une Femme, espantosamente, fora recusada pelas grandes etiquetas do sector: “Não é comercial”, disseram-lhe. Quem assim falou padecia de graves problemas auditivos e não tardou a arrepender-se: gravada no Estúdio Davout, em Paris, a canção com dois minutos e 42 segundos de duração tornou-se Disco de Ouro, num duo formado pelo próprio Barouh e por Nicole Croisille, então mais conhecida por ser intérprete de jazz, acompanhados apenas pelo pianista Maurice Vender, o que acentuou o carácter intimista do tema romântico.

Nas quatro décadas seguintes, Pierre e Nicole voltariam a cantar Un Homme et une Femme um número incontável de vezes – até à morte dele, aos 82 anos, em Dezembro de 2016. E a canção conheceu mais de 300 versões, entrando também na América pela voz de Ella Fitzgerald.  

 

Ironias do destino: hoje Lelouch é um cineasta muito esquecido e o mais afamado dos seus filmes tornou-se praticamente desconhecido das gerações mais recentes. Apesar das inovações que introduziu, alternando a cor com o preto e branco e fazendo movimentos circulares de câmara, como se dançasse a valsa ao som da partitura de Lai.

Pouco importa. Hoje octogenários, Anouk Aimée e Jean-Louis Trintignant serão eternamente jovens na praia de Deauville, envolvidos naquela melodia que os ultrapassou em celebridade e permanece sem uma ruga. Como nos ensinou Debussy, “a música é a expressão do inexplicável”.

«Comme nos voix da ba da ba da da ba da ba da / Chantent tout bas da ba da ba da da ba da ba da / Nos cœurs y voient da ba da ba da da ba da ba da / Comme une chance comme un espoir.»

 

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26 comentários

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De Anónimo a 18.03.2017 às 13:07

O encontro entre Lai e Lelouch deu-se em 1964, por intermédio de Barouh. O cineasta propôs a Lai que compusesse a banda sonora do seu próximo filme.
Mais tarde, na audição para selecção das músicas, é que se passou o que vem narrado: Lelouch mostrou-se insatisfeito com as que ia ouvindo, até que, por fim, escutou a que ele escolheria para tema central do filme.
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De Anónimo a 18.03.2017 às 14:10

Será mais correcto descrever o refrão onomatopeico como "da-ba-da-ba-da". Cinco sílabas, sendo que a primeira é omitida aquando da execução do refrão pela primeira vez em cada verso.

A referência às quatro notas diz respeito à composição de cada verso:
Com / me / nos / voix...
Chan / tent / tout / bas...
Nos / cœurs / y / voient...
Comme /u / ne / chan(ce)
Comme / un / es / poir
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De Einstürzende Neubauten a 18.03.2017 às 14:14

Músicas da minha vida

DIMMU BORGIR - Mourning Palace (LIVE - FORCES OF THE NORTHERN NIGHT)

https://www.youtube.com/watch?v=Cg6n3ZhKwt4
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De Pedro Correia a 18.03.2017 às 23:19

Música da sua vida não é aquela ali mais para baixo?
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De Einstürzende Neubauten a 19.03.2017 às 09:12


https://www.youtube.com/watch?v=rVN1B-tUpgs

Tenho várias, conforme tenha, ou não, uma arma na mão
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De Pedro Correia a 19.03.2017 às 09:35

Com Max Richter melhorou, embora de canção não tenha nada.
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De Einstürzende Neubauten a 19.03.2017 às 13:45

Michel Gira

https://www.youtube.com/watch?v=MxquFP3DddY

Now some of us are weak and some endure
Some people live their life, with a violence that's pure and clean
But I saw a man cry once, down on his knees
In the corner of a darkened cell, and his pain meant nothing to me
But I was younger then young men never die
When I walked out in the sun, I was strong, clear-minded and blind
Now don't say a prayer for anyone, it doesn't do any good
Please don't ask me questions, it'd just be misunderstood
And if you could step inside me you'd feel what hatred brings
And if you saw with my eyes, you'd see what self-deception means
I was younger once, and I created a lie
And though my body was strong, I was self-diluted, confident, and blind
Now show some pity, for the weak of will
Because when we're drinking, we can never be filled
Show some understanding for a lonely fool
Because when I'm drinking, I am out of control
Well I was never young, nothing has transpired
And when I look in the mirror, I feel dead, I feel cold, I am blind

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De lucklucky a 19.03.2017 às 17:05

https://www.youtube.com/watch?v=HScomixpvZ8
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De Einstürzende Neubauten a 19.03.2017 às 21:42

Sim senhor/a....

https://www.youtube.com/watch?v=9zoS8c_8hLQ
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De isa a 18.03.2017 às 14:34

A verdadeira "ironia do destino", para as "gerações mais recentes" e, futuras (se as houver) não são os cineastas esquecidos mas, viver num Mundo onde não só desaparecem as consoantes mudas mas, praticamente tudo como, fronteiras, soberania, milhões de euros, pistolas, migrantes sejam eles adultos ou jovens e, o pior, a Verdadeira Informação como aquela de haver uma fuga radioactiva desde 2011 até agora (6 anos consecutivos), onde nem sequer os robôs são capazes de fazer parar essa fuga, pois desintegram-se ao fim de uma hora e, todos aqueles produtos tão "saudáveis" já se terem espalhado, a nível global, na nossa cadeia alimentar e, como se vão acumulando no nosso organismo, estamos perante doenças cancerígenas variadas, mortes lentas que já estão a começar a aumentar exponencialmente MAS, naturalmente, já estão a tomar as devidas providências, como começarem a tradicional lavagem cerebral de que tudo se deve à nossa má alimentação, demasiado sal, açúcar, bolachas, bolos, carne, ovos... tudo o que lhes vier à cabeça para tapar o sol com a peneira.

Na verdade, isto até ajuda a elite do 1% que não consegue parar de repetir que todos os males deste Mundo, até do clima, têm a ver com o excesso de população portanto, quantos mais morrerem melhor e, se for silenciosamente, ainda melhor.

Países escravos de dívidas que apenas têm de obedecer, não sabemos bem a quem (ou até sabemos se quisermos) e, se vão entretendo a criar legislação para escravizar cidadãos e, muito mais grave, deliberadamente, a sonegar-lhes informação.
E é escusado escrever livros sobre as más políticas dos nossos políticos porque Fizeram Um Excelente Trabalho, só não foi a favor dos cidadãos. Nenhum está isento de culpas e, quanto mais colectivistas, menos importância darão ao indivíduo e passamos todos a ser meros "parafusos da máquina" da qual se intitulam engenheiros diplomados a quem todos devemos obedecer porque só eles é que sabem como "endireitar o Mundo".

Quem quiser continuar a viver na ignorância sobre o que realmente se passa, ou a viver como se tudo precisasse, apenas, de uns ajustes, a partir de agora está a colaborar em coisas muito mais graves do que meros cargos ou dinheiro.

Melhor do que muitos de nós que, a nível global procuram a Verdade sobre o que, realmente se passa e, sobre o caminho por onde nos estão a levar, os que já sabem e colaboram nesta Grande Mentira e, se estão a borrifar para consequências de vida e de morte, desejo-lhes "tudo de bom" e que lhes tenha valido a pena, não terem usado a sua Consciência Moral, com a qual nasceram, nesta sua curta passagem por este Planeta onde, em vez de construir um mundo melhor, apenas vieram ajudar a destruir, servindo as pessoas erradas, por puro egoísmo e ganância.

Só se podem dar dicas e, como não podemos confiar em políticos, de qualquer cor ou espécie porque, uns querem Poder, outros Dinheiro ou ambas as coisas, cada um terá de investigar por conta própria porque, a única coisa que nos resta a nível global é o número, das pessoas que se recusam a que lhes lavem os cérebros.
Se chegar a haver futuras gerações e, por este caminho, vão "dançar" com estes:
https://www.youtube.com/watch?v=rVlhMGQgDkY&t=9s
Atlas, The Next Generation

Quanto a Fukushima, no final do vídeo podem ouvir um dos maiores e mais conhecidos físicos e outras pessoas mais inteligentes e informadas do que aquela maioria que, por ignorância ou deliberadamente, nos quer calar:
https://www.youtube.com/watch?v=3lF7y1X6BSc&t=1s
Anonymous - Biggest Threat to Humanity and Earth... (Fukushima LEAK 2017-2018)

Variedade não falta, daqueles que, apenas, nos querem informar:
Lembram-se de ter passado nas notícias, numa breve passagem de que os portugueses tinham no organismo uma taxa elevada de Glifosato? Sabem que causa cancro? E ainda nem tínhamos entrado no Tratado que abria as portas da Europa a mais produtos "deliciosos" para uma "Boa economia Global"
https://www.youtube.com/watch?v=MBQJWboRpjw&t=63s

https://www.youtube.com/watch?v=nCFLUT-SNxc&t=0s
G Edward Griffin discusses the global banking scam, the global economic collapse

https://www.youtube.com/watch?v=sGCkSRXo-jk
Six Deceptions Needed for Agenda 21

“In times of universal deceit, telling the truth is a revolutionary act”
George Orwell
Se preferirem, vejam Bola
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De Pedro Correia a 18.03.2017 às 23:20

Tem a certeza que não se enganou na caixa de comentários?
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De Alexandre Policarpo a 18.03.2017 às 15:13

Claude Lelouch é um cineasta genial mas tinha um problema, não era de esquerda.
Un Homme et Une Famme é um filme fascinante, mas para a aristocracia intelectual dos Cahiers du Cinema, era uma lamechice.
Como é evidente isto não retira valor a Truffaut, Rommer ou Goddard, e tantos outros, também eles cineastas geniais.
Lelouch fez grandes filmes como "Vivre Pour Vivre", "Le Voyou", "L'Aventure C'est L'Aventure", "Les Uns et Les Autres" ou mais recentemente "And Now Ladies & Gentleman" com Jeremy Irons e Patricia Kaas que canta uma fantástica versão de "If You Go Away".

https://www.youtube.com/watch?v=gKUHc_knYBE

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De Einstürzende Neubauten a 18.03.2017 às 16:23

Achtung:

https://www.youtube.com/watch?v=zpb42Hh6hlE
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De lucklucky a 18.03.2017 às 22:14

https://www.youtube.com/watch?v=zvDXlDxMnb4
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De Pedro Correia a 18.03.2017 às 23:16

Até senti tonturas ao ver tanto excesso de velocidade.
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De Einstürzende Neubauten a 19.03.2017 às 09:09



https://www.youtube.com/watch?v=PnyB1IOaEDE
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De Pedro Correia a 19.03.2017 às 09:32

'Brutti, Sporchi i Cattivi': grande filme.
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De Pedro Correia a 18.03.2017 às 23:18

Prefiro o som do escape da moto.
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De Anónimo a 18.03.2017 às 17:41

ba da ba da da ba da ba da
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De Pedro Correia a 18.03.2017 às 23:17

lai lai lai lai lai lai lai
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De Anónimo a 19.03.2017 às 00:18

Peço desculpa: pensava que as incorrecções na transcrição da letra da canção não eram propositadas.
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De Anónimo a 19.03.2017 às 00:39

No refrão transcrito no post, a consoante da sexta e oitava sílabas devia ser um "b", se se quisesse ser fiel ao original.
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De Pedro Correia a 19.03.2017 às 08:48

Ah, OK. Não tinha percebido. Vou rectificar. E agradeço.
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De Anónimo a 19.03.2017 às 12:56

Ok, mais um pequeno esforço, que a rectificação introduziu novo erro.
Parece-me estar correcto o modo como é apresentado o refrão no fim do segundo parágrafo do post. Se alguém o trautear, percebe que é a versão tipo.
Só que há uma diferença quando se canta a letra completa. Dito de uma forma simplificada: o refrão passa a ter uma palavra como primeira sílaba; ou então, o refrão perde a primera sílaba para a palavra que o antecede.
Assim: Com...me...nos... voix ba da ba da, da ba da ba da / Chan...tent...tout... bas ba da ba da, da ba da ba da / etc.

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