Saltar para: Post [1], Comentários [2], Pesquisa e Arquivos [3]




Alguns países adiam-se, outros destroem-se

por Sérgio de Almeida Correia, em 14.04.14

"O Estado português investiu muito dinheiro na minha formação, no liceu, na faculdade, e na formação de outras pessoas, para eu agora estar a dar aulas a alunos e alunas ingleses e de outros países. Faço-o numa universidade inglesa onde o meu currículo e a minha formação são apreciados. Lá estão a reconhecer esta formação que foi financiada pela população portuguesa e cujos frutos não podem vir para Portugal. Estou lá, em cada dia que passa, com muito pesar, porque sinto que a minha geração tem um contributo para dar a Portugal. Tenho muita pena de ter tido de ir lá para fora. Não vou negar que lá há condições de trabalho óptimas, e isso é aliciante. Mas não estou a devolver o meu conhecimento ao país que me formou e que ajudou a financiar a minha formação." - Maria do Mar Pereira, 32 anos, professora na Universidade de Warwick (Reino Unido), vencedora do Prémio Internacional para o Melhor Livro em Investigação Qualitativa feito entre 2010 e 2014, Público, 14/04/2014

 

Enquanto isso, em Macau, Nuno Crato discute, à porta fechada, o futuro da Escola Portuguesa. E promete reforçar a cooperação com o Instituto Politécnico de Macau para criar mais oportunidades para os estudantes aprenderem a língua portuguesa. Tudo se conjuga, pois, para que as promessas continuem e os poucos recursos que temos prossigam a sua saída pela janela mais próxima sem qualquer garantia de retorno.

Autoria e outros dados (tags, etc)


16 comentários

Sem imagem de perfil

De hclcruz a 14.04.2014 às 09:10

É que nem consigo começar a perceber.

Apontaram-lhe uma arma e obrigaram-na a sair? Não.
Saiu porque tinha melhores condições em Inglaterra? Sim.
É lógico concluir que saiu porque lhe era vantajoso do ponto de vista pessoal / material? Sim.

Ah, mas e tal, gostava de ter ficado......
É proibido ficar?
Ah mas não ganhava o mesmo nem fazia mesma coisa.....
???????????????????

O post é a sério ou existe alguma ironia que eu não percebi?
Sem imagem de perfil

De Sofia a 14.04.2014 às 11:24

Ah, e tal, e nós cá com carradas de empregos ao virar de cada esquina...
e este pessoal a ir para fora! Ingratos, o País a investir neles, e eles a virarem-lhe as costas!
(este sim, é irónico!)
Sem imagem de perfil

De Costa a 14.04.2014 às 11:08

Se se está de consciência limpa, se nesse percurso escolar e académico se trabalhou e se soube merecer o aproveitamento obtido em cursos a sério - seja na sua substância, seja na ausência de expedientes vários e nos últimos anos bastante comentados - não há razão para lamentos ou sentimentos de culpa em relação ao financiamento desses estudos e ao destino dado aos conhecimentos adquiridos.

O mundo não se reduz, felizmente, ao que fica para cá das fronteiras portuguesas e os estudantes britânicos, ou que nas ilhas britânicas estudem, querendo de facto fazê-lo, são tão dignos de ser ensinados quanto os portugueses. Se a formação por cá obtida é por lá valorizada, se o trabalho do docente é por lá reconhecido e lhe preenche a vocação de ensinar, se as condições de trabalho são bem melhores do que por cá, então que se aproveite tudo isso, se desenvolva a carreira profissional e se prossiga o trabalho de construir uma vida digna e tanto quanto possível feliz.

Se Portugal manifestamente não sabe merecer os seus, não têm esses que entrar em paroxismos auto-punitivos por causa disso. Emigrar quando esse não era um objectivo de vida, mas antes se revelou um derradeiro recurso, há-de ser sempre triste. Se, felizmente, esse "recurso" funciona e proporciona realização profissional e uma vida materialmente digna - duas coisas que por cá se vão tornando, dir-se-ia irreversivelmente, um luxo ao alcance de cada vez menos - então que dele se usufrua e que tudo se faça para o saber merecer e conseguir uma harmoniosa integração na comunidade que nos acolheu.

As coisas são como são, independentemente do nosso amor à terra onde nascemos. E boa parte da responsabilidade das coisas, por cá, serem o que são, bem se pode apontar a um povo que afinal se parece rever naqueles que uma e outra e outra vez tem eleito (com a atenuante, reconheça-se, das alternativas identificáveis serem tão más ou piores). Mas essa fatalidade não tem que perseguir quem consegue fazer ou refazer a sua vida na estrangeiro.

Ser-se português não pode significar, para quem tem as qualificações e ainda (ou já) a energia para tanto, o resignado definhar, nesta terra, a sustentar uma insaciável e impune élite parasitária que é a verdadeira filha do que se comemorará dentro de uns dias. Nem pode significar auto-flagelações por se recusar essa resignação.

Escreve-o o pai de uma licenciada, de um "curso a sério", que entre a caixa de um hipermercado, um call-center (e remeto para um texto - um comentário - recente aqui no DO), ou uma qualquer ocupação abaixo das qualificações e miseravelmente paga sob o artifício do recibo verde, fez isso mesmo há já uns anos. Para o Reino-Unido , também. E sim, percebe-se nela a saudade do emigrante, a contagem das semanas e dos dias, para nos visitar, a lágrima mal escondida, por entre bem encenados protestos de ânimo, na hora de partir.

Mas é ela a primeira a dizer do reconhecimento do seu trabalho, da sua realização profissional, de tudo aquilo que a faz querer enraizar a sua vida por lá. E como boa emigrante, "vir à terra" sempre que pode.

Vir à terra feliz, reconhecida como profissional e pessoa, autónoma, com algum conforto na sua vida.

Costa

Sem imagem de perfil

De Tiro ao Alvo a 14.04.2014 às 16:29

"Ser-se português não pode significar, para quem tem as qualificações e ainda (ou já) a energia para tanto, o resignado definhar, nesta terra, a sustentar uma insaciável e impune elite parasitária que é a verdadeira filha do que se comemorará dentro de uns dias. Nem pode significar auto-flagelações por se recusar essa resignação".
O Costa concordará que as elites parasitárias, insaciáveis como disse, só podem ser apeadas se os nossos melhores não se alhearem.
Sem imagem de perfil

De Costa a 15.04.2014 às 00:29

É certo. Mas os nossos melhores, como lhes chama, não podem ser obrigados - e desconsiderados se a tal se recusarem - a imolar-se num sacrifício que parece inútil e sem fim. É que o nosso povo, os milhões de votantes, o português médio, parece resignar-se (por muito sonoros que sejam os protestos habilmente coreografados pelos partidos e entidades afins que fazem dessas coreografias quase um fim em si mesmo e a sua razão de ser) ao que tem. E arrisco crer que ao saber das falcatruas, da corrupção, da venalidade, do nepotismo, da falta de vergonha, o português médio, balbuciando a indignação da praxe - até porque isso lhe sai terrivelmente do bolso -, resigna-se e no fundo pensa que "eles" lá "safaram o seu". Como ele, o português médio, safaria (e safa) se pudesse (sempre que pode). E quem vier depois que se amanhe.

Não posso por isso, não posso de todo, apontar um dedo reprovador a quem podendo, e pelo seu efectivo mérito, se recusa a chafurdar nisto.

Costa
Sem imagem de perfil

De Tiro ao Alvo a 14.04.2014 às 11:37

Entendo a posição da senhora e estou convencido que, mais cedo ou mais tarde, ela vai "pagar" a despesa que nos deu, a nós contribuintes.
Não compreendo a posição do Sérgio.
Sem imagem de perfil

De Sérgio de Almeida Correia a 14.04.2014 às 16:13

Tiro ao Alvo,
Se não for uma sonhadora nunca irá querer "pagar" a despesa. Houve quem quisesse pagá-la e não lhe deixassem. Por isso saíram de novo.
Qual a parte que não compreendeu: a do desperdício de recursos ou a das promessas a terceiros de boa fé quando não se cumpre as que diariamente são feitas em casa?
Sem imagem de perfil

De Tiro ao Alvo a 14.04.2014 às 16:33

Acredito que a senhora, para chegar onde chegou e para escrever o que escreveu, é uma sonhadora.
Sem imagem de perfil

De Vento a 14.04.2014 às 12:35

João,

veja bem que estamos num concurso para ver quem faz melhor pelo país.

O Passos diz que ele é que faz melhor, por isso abriu para aos outros duas janelas de oportunidades: a emigração facultativa ou a miséria irreversível.
Sem imagem de perfil

De a 14.04.2014 às 13:18

Temos uma formação óptima, segundo aqueles que nos acolhem. Agora põe-se uma questão. Para que continua o Estado, a formar jovens, se lhes tira as chances de as exercerem no seu país? Porque continuamos a pagar impostos, para a educação se ela, aqui não vai ser aproveitada? Temos de nos questionar se por este caminho vale a pena continuarmos. Os portugueses, não estão dispostos a passarem privações, ficarem sem casa, sem trabalho, sem nada, para haver verba para o ensino superior, para este, ser usado lá fora e não cá dentro.
Sem imagem de perfil

De Alexandre Carvalho da Silveira a 14.04.2014 às 16:16

"Para que continua o estado a formar jovens, se lhes tira as chances de as exercerem no seu país?" Importa-se de explicar o que é que isto significa? Então o estado é que tem de arranjar um emprego a toda a gente, mórmente aos licenciados?
Fico com uma dúvida em relação às razões de Maria do Mar Pereira. Ela aparenta ser uma pessoa com uma formação muito sólida, uma vez que ensina numa Universidade em Inglaterra, e até foi galardoada com um prémio internacional. Então se está tão preocupada em devolver ao erário público e ao país em geral o que este investiu na sua sólida formação, porque é que ficou à espera que lhe arranjassem por cá um emprego, e não usou as ferramentas que tem à sua disposição, ou seja, a sólida formação que o país lhe forneceu, e não arregaçou as mangas e pensou em investir no seu próprio negócio criando empregos e riqueza para o país. Esta seria a melhor forma de mostrar o seu reconhecimento ao país que a formou.
Claro que é muito melhor vivermos com o aconchego de um emprego público, e se for ao lado da casa da mãezinha, melhor.
Sem imagem de perfil

De Anónimo a 15.04.2014 às 03:18

O Estado, tem de arranjar os empregos que lhe compete arranjar porque também ele, tem o dever, de dar emprego a tudo que é público, ou agora é tudo privado? Penso que todo o Estado, deve investir o máximo que puder na educação e na investigação, mas dar condições para que esses mesmos jovens utilizem esses conhecimentos cá e não tenham que emigrar e dar o melhor de si, aos outros e não ao seu país. Não quero, pagar impostos, para mandar os jovens para fora, mas sim, para ficarem cá, a desenvolver o seu país e não o dos outros. Não basta arregaçar as mangas e investir. Para se investir, ou tem de se ter dinheiro, ou tem de se pedir ao banco e como bem sabe, não está fácil e arriscar neste país, é correr um um risco enorme. Fiz-me entender ou ainda tem dúvidas? "Claro que é muito melhor vivermos com o aconchego de um emprego público, e se for ao lado da casa da mãezinha melhor." Na realidade, ter um emprego público em Portugal, é do melhor que há, é algo que todos anseiam. Bem pagos, poucos cortes, emprego estável, enfermeiros pagos a 2 ou 3 € à hora, não há melhor!!!.........
Sem imagem de perfil

De Alexandre Carvalho da Silveira a 15.04.2014 às 16:24

Os seus impostos, partindo do principio que paga impostos, não chegam para pagar metade da conta que respeita a despesas do estado com salários. Se acha que paga poucos impostos, é consigo. No que me diz respeito, acho que pago demais. mas isto sou eu, que toda a vida fui um contribuinte liquido. Quanto à vidinha de funcionário público, nem vou perder tempo a falar disso, já dei o que tinha a dar para esse peditório.
Fiz-me entender, ou ainda tem duvidas?
Nota: enfermeiros pagos a dois ou três euros à hora deve ser na sua terra, porque na minha são pagos por muito mais do que isso. Para receber essa remuneração diga lá a esses enfermeiros para se dedicarem a arrumar automóveis. Ganham muito mais...
Sem imagem de perfil

De Carlos Cunha a 14.04.2014 às 16:41

não tenho dúvidas que o crato vai criar mais oportunidades para a aprendizagem, pelos estudantes de macau, da língua portuguesa-traduzida-para-inglês e da língua-portuguesa-traduzida-para-chinês.
afinal, o aclamado escritor e difusor da língua portuguesa rentes de carvalho em casa mais não conseguiu que ensinar às filhas a língua portuguesa-traduzida-para-holandês.
se quem tanto ama e cultiva a sua língua materna é isso que consegue com os seus filhos, o que se pode pedir ao crato? a não ser que atribua vistos gold a quem dê menos de 5 erros numa redacção em português não traduzido para outra língua.
Sem imagem de perfil

De rmg a 14.04.2014 às 18:23


Mas eu , que certamente contribuí bastante para a formação destas pessoas pois sempre paguei impostos razoáveis , acolhi estagiários (remunerados) nas empresas que dirigi e até dei algumas aulas como professor "convidado" , não vejo qual é o problema das pessoas írem para fora se não encontram as convenientes saídas profissionais cá dentro , uns voltarão mais úteis do que foram e outros não , sempre foi assim em países periféricos e pobres , o balanço final não será necessáriamente mau .

Ou isto do mundo globalizado é só para umas coisas , as que nós gostamos ?
Espanha , França e Itália têm níveis de emigração qualificada semelhantes aos nossos e não me consta que sejam países pobres .
Hoje é essencial ter-se uma visão mais aberta e acho estranho que alguns continuem a ter uma ideia "salazarista" aqui do cantinho , sob a capa de falsas indignações (falsas porque desfazadas da realidade , entenda-se).

É naturalíssimo que haja oportunidades num país de 60 milhões de habitantes e com determinado nível cultural médio que não existem num país com 10 milhões de habitantes e um nível cultural médio inferior (e a culpa não é só do governos todos desde 1820 para cá ,pelo menos) , o contrário é que seria estranho .

Disse porventura a senhora que catedráticos das maiores universidades americanas tiram anos sabáticos para ír para o Reino Unido , não porque lá saibam mais mas porque por força da História de um modo geral e da Commonwealth de um modo particular , há um conjunto de oportunidades e de interesses científicos que não se encontram em mais sítio nenhum ?

E acrescentou em que condições estão muitos compatriotas dela por lá , os 9 em cada 10 que não receberam prémios (apesar de eu admitir que estejam melhor que cá numas coisas e pior noutras)?

Muito gostam os portugueses desta conversa só para aparecerem nos jornais e TV a dizer estas coisas , claro que ninguém queria saber do prémio se não fôsse o resto da conversa ...

Isto é um país de "velhos" , uns de idade (eu , por exemplo , quase nos 68) e os outros de espírito (ainda que pudessem quase ser meus netos) .
Depois falam em revoluções quando nem dentro da própria cabeça a fazem ...

Sem imagem de perfil

De MM a 15.04.2014 às 01:15

A Maria do Mar Pereira esqueceu-se de referir que as grandes fatias do 'bolo' que financiaram a sua educação foram contributos do Reino Unido, Alemanha, França, etc. Ou julgam que foi o Pai Natal que trouxe os 'aérios' para a Europa por artes natalícias. Agora que Portugal não soube repartir as fatias de 'bolo' que recebeu com visão de futuro, eficiência e sem desperdício é outro assunto que parece não interessar. Como dizia o meu professor de Ciências que pertencia à 3ª geração de expatriados - a minha pátria é a que me recebe de braços abertos. Para as gerações deste século e dos séculos seguintes o mercado de trabalho já não está confinado às fronteiras do território Português, e ainda bem que é assim. Os Portugueses que apostarem em pouca qualificação, salário diminuto e nível de vida de miséria é exactamente isso que vão ter no futuro dos seus descendentes.

Comentar post





Links

Blogue da Semana

  •  
  • Afinidades

  •  
  • Lá fora cá dentro

  •  
  • Mais ligações

  •  
  • Informações úteis


    Arquivo

    1. 2017
    2. J
    3. F
    4. M
    5. A
    6. M
    7. J
    8. J
    9. A
    10. S
    11. O
    12. N
    13. D
    14. 2016
    15. J
    16. F
    17. M
    18. A
    19. M
    20. J
    21. J
    22. A
    23. S
    24. O
    25. N
    26. D
    27. 2015
    28. J
    29. F
    30. M
    31. A
    32. M
    33. J
    34. J
    35. A
    36. S
    37. O
    38. N
    39. D
    40. 2014
    41. J
    42. F
    43. M
    44. A
    45. M
    46. J
    47. J
    48. A
    49. S
    50. O
    51. N
    52. D
    53. 2013
    54. J
    55. F
    56. M
    57. A
    58. M
    59. J
    60. J
    61. A
    62. S
    63. O
    64. N
    65. D
    66. 2012
    67. J
    68. F
    69. M
    70. A
    71. M
    72. J
    73. J
    74. A
    75. S
    76. O
    77. N
    78. D
    79. 2011
    80. J
    81. F
    82. M
    83. A
    84. M
    85. J
    86. J
    87. A
    88. S
    89. O
    90. N
    91. D
    92. 2010
    93. J
    94. F
    95. M
    96. A
    97. M
    98. J
    99. J
    100. A
    101. S
    102. O
    103. N
    104. D
    105. 2009
    106. J
    107. F
    108. M
    109. A
    110. M
    111. J
    112. J
    113. A
    114. S
    115. O
    116. N
    117. D