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1

A paisagem política francesa mudou na primeira volta das eleições presidenciais, com a compressão dos dois maiores partidos (socialista e republicano, ou gaulista) que dominaram durante meio século um sistema quase perfeito de alternância. Quando um estava no poder, o outro chefiava a oposição. Desta vez, foram ambos afastados da segunda volta, o que corresponde a uma situação inédita.

 

2

O eleitorado está agora dividido em quatro grandes blocos, todos semelhantes: a esquerda, o centro, a direita e a extrema-direita, tendo passado à segunda volta os representantes do segundo e do quarto. Marine Le Pen é a candidata da ruptura e do protesto, mas também da oposição ao consenso europeu; Emmanuel Macron representa a ortodoxia europeia e concorre prometendo reformas de inspiração liberal. Independentemente do vencedor, a França está agora mais à direita e o presidente terá dificuldade em reunir uma maioria nas legislativas, que se realizam um mês depois da segunda volta. Para já, os dois partidos derrotados vão aconselhar o voto em Macron, mas não têm grande interesse em que ele consiga uma maioria demasiado expressiva, apenas a suficiente.

 

3

O discurso de Le Pen já não é propriamente de extrema-direita, mas populista: a candidata da Frente Nacional apoderou-se dos temas preciosos da esquerda radical, nomeadamente contestando o liberalismo financeiro e os seus efeitos no encerramento de indústrias e na destruição de empregos. Ela diz-se a candidata do povo e a sua mensagem será simples: o adversário é um privilegiado e ex-banqueiro; o modelo económico liberal, associado à globalização descontrolada, está na base do declínio da França e da pobreza crescente de muitos eleitores, sem perspectivas de emprego ou de progresso social num dos países mais ricos do mundo. A intenção é conseguir que a esquerda se abstenha, mas Le Pen terá de atrair o voto da direita (difícil) e não pode abandonar o tradicional discurso nacionalista do seu partido. Sem grandes hipóteses de vencer o rival, a candidata tentará tornar-se a líder da oposição em França, levando a FN a maior partido.

 

4

Emmanuel Macron é o quase inevitável vencedor, mas já cometeu o erro de fazer um discurso de vitória na primeira volta que mais parecia o discurso de vitória na segunda volta. Macron representa a última chance de se fazerem as reformas de que o país necessita, mas não terá tarefa fácil, devido à falta de experiência e à ausência de máquina política: o seu movimento é uma espécie de ‘albergue espanhol‘ que deverá incluir socialistas, centristas e republicanos. Quando for eleito, Macron vai reforçar o eixo Paris-Berlim, garantindo à partida a hostilidade da Frente Nacional e dos partidos esquerdistas que resultarem da insurreição protagonizada pelo quarto classificado na primeira volta, Jean-Luc Mélenchon, que conseguiu estilhaçar o PS. As duas rebeliões (à direita e à esquerda) vão comprimir ainda mais o bloco central que se está a formar em torno do provável novo presidente.

 

5

Estas eleições revelaram a enorme desconfiança dos franceses em relação à Europa, da ordem de 45% do eleitorado, e o profundo descontentamento de franjas importantes da população. Estas pessoas, pertencentes ao que antes se chamavam 'as classes trabalhadoras', sentem-se inseguras e desprezadas; já não falam a mesma linguagem das elites e da classe média, grupos que parecem viver numa bolha de esplendor indiferente à sorte destes perdedores. A clivagem atingiu patamares alarmantes e promete reaparecer em futuras votações, mas também na discussão política (uma paixão francesa) ou ainda em protestos de rua. Poderá ainda agravar-se o clima de insegurança que resulte de eventuais atentados terroristas. O sistema político está paralisado e não favorece um processo coerente de reformas. Estamos provavelmente a assistir ao estertor da Vª República, que foi criada para estadistas da dimensão do general De Gaulle, mas que não poderá suportar um quarto episódio consecutivo de um presidente fraco no Eliseu.

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13 comentários

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De Terry Malloy a 24.04.2017 às 21:19


Corre por aí num outro blogue (o Portadaloja) uma análise a quanto do estado actual do país resulta da mudança da linguagem corrente - ou dominante - do espaço público logo após o 25 de Abril, e como terá sido essa uma das grandes vitórias da extrema-esquerda (PCP).

No fundo, a variante lusa do marxismo cultural.

Em posts como este, em que autores do outro (?) lado do espectro político falam em "quatro grandes blocos [...]: a esquerda, o centro, a direita e a extrema-direita", distinguindo e extremando (parte d)a direita, mas integrando e normalizando a extrema-esquerda (Mélenchon, mon dieu!), percebe-se como os comunistas viram longe e como venceram a guerra à partida, sem precisarem de disparar um único tiro.
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De Luís Naves a 24.04.2017 às 23:08

Este comentário é incompreensível. O meu texto foi escrito por um único autor e não incluiu supostos "autores", muito menos de um imaginário "outro lado" do espectro político. Não faço ideia o que seja isso do outro lado...
Limitei-me a constatar uma divisão quase idêntica do eleitorado em quatro blocos de votos: um deles está claramente à esquerda, de Mélenchon mais Hamon; chame a isto a extrema-esquerda, se quiser, não me incomoda nada, mas coloca o problema de saber onde ficou a esquerda, não permitindo compreender que esta foi amplamente derrotada. A alternativa é considerar que Macron é de esquerda, conclusão que os mercados não tiraram.
O extraordinário é que alguém encontre nesta descrição essencialmente factual alguma conspiração comunista que já ganhou sem disparar um único tiro. Ganhou o quê?
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De Anónimo a 24.04.2017 às 23:29

1. Autores... de posts como este. O uso do plural parece-me bem compreensível.

2. O outro lado do espectro político... relativo à extrema-esquerda (reler parágrafo anterior). A utilização do ponto de interrogação é uma cortesia, a de não imputar definitivamente ao autor um posicionamento político que, embora eu o possa presumir, não posso garantir (e não, não é a extrema-direita). Compreensível, portanto.

3."Onde ficou a esquerda"? Ficou com 6%. Isso não permite suficientemente perceber, e de modo assaz compreensível, "que esta foi amplamente derrotada"?
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De Anónimo a 24.04.2017 às 23:30

4. Faltou-me o essencial: ganhou o quê? A linguagem. A ocupação do campo da linguagem.
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De lucklucky a 25.04.2017 às 00:07

Ganhou, porque você nem conseguem entender a linguagem que fala.

A expressão extrema esquerda desapareceu porque o jornalismo marxista quer só usar "extrema" para definir a direita. Por isso é que na narrativa em construção temos activistas(esquerda) e extremistas(direita).

Por isso é que temos a táticas neste blog de alguns autores chamarem aquilo com que não concordam : Fobias.
Ou porque é que com a Hillary votar pela vagina era importante para assim ter a primeira mulher Presidente dos EUA, mas com a Marine Le Pen já não era importante ter a primeira mulher presidente da França.
São tudo tácticas de intimidação, manipulação da linguagem, construção da narrativa.

...
Em outras notícias o New York Times quer acabar com a expressão “female genital mutilation” e usar “genital cutting” pois vai contra a narrativa.
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De JS a 25.04.2017 às 15:31

LLucky, Adorei, adorei, adorei.
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De isa a 25.04.2017 às 09:06

Tem razão, ver Macron como alguém de esquerda só pode ser uma ideia saída de um ignorante ou de alguém que nos queira induzir ao erro, basta ir à Wikipedia e ver para quem trabalhou portanto, nem sequer é um independente, basta olhar para os 3 anos em que ganhou 3 milhões, a trabalhar no Rothschild & Cie Banque, por isso os mercados estão a reagir como se fossem "favas contadas".

Macron, depois de ter estudado numa Universidade da elite, é um dos tais, em princípio, "bem encaminhado" para servir os interesses dessa elite. Basta ver, apenas, alguns nomes de quem, como Macron, frequentou a Paris Nanterre University:
Nicolas Sarkozy, Dominique Strauss-Kahn, Daniel Cohn-Bendit (Parlamento Europeu), Christine Lagarde, Guy Carcassonne (Constitucionalista,) inúmeros ministros franceses, Andreas D. Mavroyiannis (do Chipre e antigo vice-ministro dos Assuntos Europeus), Cheng Li-chun (ministro de Taiwan), María Ángela Holguín (Ministra dos negócios estrangeiros da Colômbia)... até alguns portugueses passaram por lá, como Manuel Pinho (se bem me lembro, um apreciador de tourada ao serviço de Sócrates e dez anos no quadro executivo do defunto Banco Espírito Santo).

Sem tentar fazer avaliações, de bom ou mau porque, haverá quem defenda o candidato que lhe convém mas, apenas, baseada na minha intuição que não falhou no Brexit, nem no Trump, só se à 3ª, a intuição me falhar porque, quem vai vencer as eleições francesas será Marine Le Pen e a razão é muito simples, tal qual como referiu no seu poste:

"pessoas, pertencentes ao que antes se chamavam 'as classes trabalhadoras', sentem-se inseguras e desprezadas; já não falam a mesma linguagem das elites e da classe média, grupos que parecem viver numa bolha de esplendor indiferente à sorte destes perdedores."

Eu só acrescentaria que esses grupos, vivem tão confortavelmente nas suas "bolhas" que nem enxergam que, do lado de fora, os povos apenas vêem gente a ganhar muito, fazendo muito pouco (como se ouviu, um mero euro-deputado nacional ganhar meio milhão de euros porque, noutros países, há quem ganhe muito mais) mas, o pior, é vê-los colaborar com interesses que nada têm a ver com as reais necessidades e desejos do comum cidadão ou seja, precisamente, o oposto daquilo que apregoam.
Sem uma real possibilidade de escolha e, cada vez com menos poder para alterarem ou controlarem as suas próprias vidas, qualquer maneira lhes serve para tentar mudar qualquer coisa e, se esses grupos pensam que votar em Marine Le Pen é mau, se continuarem a servir, os seus ou "outros" interesses, como até aqui, estão mesmo a viver num "aquário dourado", pensando que isso seja o pior que pode acontecer. A desculpa do terrorismo, para andar a militarizar a polícia é, apenas, mais uma "desculpa" para quem a quiser "comer".

Alguns, tão entretidos com os seus próprios interesses que nem percebem que andam a servir os interesses dos que, ao longo da História, só ganharam triliões, através de caos e guerras, algo que já devia ter acontecido na Europa com a interferência na Ucrânia ou a migração descontrolada, provocada por várias guerras subsidiadas pelos próprios, num constante "espicaçar", da Rússia, Coreia do Norte, China, Irão... a mesma velha receita para ninguém olhar o que anda a fazer a "outra mão" que já não se contenta com dinheiro mas, o ter cada vez mais Poder e tirar, de vez, todos os direitos que restam aos cidadãos comuns e, para quem consiga sair do "nevoeiro", fica tudo claro e transparente ou então, continuemos a pensar que, todo este "tirar", não passa de um trabalho de incompetentes.
Se fossem incompetentes, a minoria do 1%, não teria aumentado a sua percentagem na riqueza total do Planeta nem o seu Poder, sobre os cidadãos para, por eles, decidir sobre Tudo portanto, se isto for de mal a pior, quem se contenta andar a servir os seus próprios interesses e não passar a servir quem devia, os seus "outros" patrões, quando lhes apetecer ou for conveniente "fechar a torneira do papel pintado e fabricado do ar" ou uma hiperinflação disparar nos bens essenciais, vão acabar por descobrir que ficam nas mãos das feras porque, como mostra a História, povos "sem saída" (Trump parecia uma e Le Pen parece outra), quando todas as pretensas saídas se esgotarem, transformam-se em animais irracionais.
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De Miguel a 25.04.2017 às 19:15

Mélenchon é tão esquerdista quanto Roosevelt. Hoje isso dá um ar de extremista porque o quadro se deslocou para a direita, só isso.
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De tric.Lebanon a 24.04.2017 às 23:34

o Partido Republicano Francês colapsou na noite das eleições ao apoiar o Candidato de Meca !!! Macron=Islam+Jacobinismo
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De Vento a 25.04.2017 às 00:29

Chirac e Miterrand, cada um a seu tempo, também souberam adaptar-se ao regime de coabitação.
Macron não é o liberal cândido que os media querem fazer parecer. Aquilo que Schauble e os mercados presenciarão consistirá num suposto liberal transformar-se num socialista, que é.
Macron não tem outra saída senão seguir este esquema se quiser ganhar as eleições, e terá de firmar claramente este compromisso.

Le Pen é uma mulher muito inteligente, e ao suspender a sua liderança na FN deu um sinal que vai jogar forte. E ela sabe como fazê-lo, bem melhor que seu pai.
Em resumo, Macron não tem alternativa alguma senão assumir uma geringonça.
A resposta positiva dos mercados não foi tanto pela eleição de Macron, mas por Le Pen não ter ganho a 1ª. volta. Foi isto que os aliviou.
O destino da França está selado: se Macron não se comprometer inequivocamente com o eleitorado dos restantes partidos, em particular os comunistas e socialistas, Le Pen fará dançar a Europa.

Espero que Macron saiba ler a realidade e não vá atrás dos media controlados por mercados. Ele que tenha em mente o que ocorreu na Grécia nas primeiras eleições, com o Syriza a vencer e a negociar bem com o seu parceiro. Se seguir esta corrente deita por terra uma vitória que já está nas suas mãos. Macron tem de se isolar de toda a informação e negociar em silêncio.
A Grécia recebeu hoje os representantes dos credores, e pode jogar firme a sua cartada.
Macron, com inteligência, pode salvar a ruptura na UE. Este destino está nas mãos dele.

Creio que o Luís Naves não está a ver bem o filme.
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De Vento a 25.04.2017 às 21:42

A Grécia jogou firme. Aqui tem:
http://24.sapo.pt/atualidade/artigos/grecia-so-aplica-novas-medidas-de-austeridade-apos-solucao-para-divida
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De lucklucky a 26.04.2017 às 07:02

As ondas e o mar são muito maiores que Le Pen ou Macron.
Começaram ser construídas há décadas.
A Europa do pós II Guerra é marcada pela negação da realidade, pois vivendo sobre a protecção do guarda chuva nuclear americano permitiu construir uma narrativa desligada da humanidade.

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De Aurélia Calixto a 25.04.2017 às 19:45

Senhor Luís Naves:
Desculpe-me a minudência, mas detesto ver o desleixo que há no uso do Português por toda a parte.
«Até tu, Brutus», terá dito Júlio César.
Até tu, Luís Naves, direi eu, usando a analogia formal.
A numeração romana não leva os símbolos de ordinais com a numeração árabe: ex. 5.º ou 5.ª (e sempre com ponto).
Portanto, se não se importa, ponha simplesmente V República.
Eu sei que é um pormenor e que não o fez por ignorância, antes por desatenção, ainda assim, é conveniente emendar.

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