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Ainda incrédulos e comovidos

por Pedro Correia, em 17.07.17

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«Uns homens que recolhem escombros observam o crepúsculo, o monte cor de grafita. Fazem uma pausa na reconstrução de uma barraca.

- Lembras-te? - diz um deles, de boina. Pele pálida, mãos fortes, cruza os braços.

- Como isto era bonito?

- Sim.

- A recuperação vai demorar 50 anos. Já não a veremos.»

 

Excerto de uma reportagem de Martín Mucha (El Mundo, 25 de Junho)

 

 

A tragédia de Pedrógão Grande ocorreu faz hoje um mês. Com imagens que deram a volta ao mundo e deixaram o País dilacerado.

As pessoas olhavam, incrédulas: como era possível algo digno de uma praga medieval ocorrer no país da "modernidade", anfitrião da Web Summit, orgulhoso de receber 21 milhões de turistas por ano e no preciso instante em que as duas principais cidades disputavam a sede da Agência Europeia do Medicamento?

 

Um país real, oculto sob a cortina da propaganda, emergiu em cinzas e sangue por esses dias. Um país devastado, que chorou 64 mortos e acolheu 254 feridos, muitos deles em estado grave. Um país desamparado, o do interior rural carcomido pela erosão do tempo, cheio de sonhos calcinados.

Um país atordoado. Um país cheio de  falhas logísticas, comunicacionais, organizativas. Aos irreparáveis danos humanos somaram-se impressionantes prejuízos materiais, avaliados em quase 500 milhões de euros: as chamas consumiram 43 mil hectares de floresta, afectaram quarenta empresas, ameaçaram 350 postos de trabalho numa região onde o emprego é um bem cada vez mais escasso, danificaram cerca de meio milhar de casas - 20% das quais de primeira habitação.

Um país carente, que no entanto se mobiliza com generosidade para apoiar quem necessita enquanto as entidades oficiais mantêm retidos os 13 milhões de euros recolhidos pela mobilização espontânea dos portugueses.

Um país que sofre e trinta dias depois se interroga dolorosamente "onde estão as ajudas tão apregoadas", como questiona, numa impressionante carta aberta ao Presidente da República, Ana Catarina, que tomou à sua conta um menino de sete anos, filho da sua irmã mais nova, Sara, falecida em Pedrógão. 

 

Desta tragédia emergiu também outro país oculto: o país dos heróis de carne e osso. O país dos lugares de Pobrais, Escalos Fundeiros, Vila Facaia, Várzeas, Casalinho, Sarzedas do Vasco, Pinheiro da Piedade, Troviscais e Nodeirinho, que entraram enfim no mapa mediático. Infelizmente, pelos piores motivos.

O país do bombeiro Gonçalo Conceição, voluntário de Castanheira de Pera, de 38 anos, que recusou ser dos primeiros a receber assistência médica de emergência em Pedrógão, acabando por sucumbir aos ferimentos. O país de  Maria do Céu Silva, nome bem apropriado para esta aldeã de 52 anos que salvou 12 pessoas metendo-as num tanque de água rodeado pelas chamas em Nogueirinho, povoação-mártir que viu morrer um terço dos seus habitantes.

 

Este é o país que hoje lembramos - ainda incrédulos, ainda revoltados, ainda comovidos. Deixando claro que a culpa não há-de morrer solteira.

A memória das vítimas de Pedrógão assim o exige.

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11 comentários

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De Happy a 17.07.2017 às 12:51

Muito bom, num registo completamente diferente do que a Joana nos habituou.
Muito bom resumo de toda a situação vivida e com repercussões até hoje e com mazelas que ficarão ainda por anos e anos vindouros.
Parabéns!

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