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Ainda há heróis

por Pedro Correia, em 04.06.14

 

Chai Ling, com 23 anos, falando aos outros estudantes concentrados em Tiananmen (Primavera de 1989)

 

No coração da remota China muçulmana, a população turcófona continua a ser remetida para guetos nos subúrbios: os melhores empregos e as melhores habitações cabem à etnia han, dominante no conjunto do país. Só existe igualdade na lei, não existe na prática: os uígures são tratados como cidadãos de segunda na sua própria terra. Que crime cometeram? Procurarem manter a identidade cultural, falando a sua língua e professando a sua religião no Estado mais populoso do mundo, onde a norma é esmagar toda a diferença.

Acontece hoje no Xinjiang, acontece há meio século no Tibete, aconteceu em 1989 na própria sede suprema do Império do Meio.

 

Sei bem do que falo. Há um quarto de século, vivi em Macau um dos períodos mais tristes de que me lembro, quando vi esmagar a Primavera com que milhões de chineses haviam sonhado – a Primavera política, após quatro décadas de regime ditatorial, afogada em sangue naquela trágica madrugada em Tiananmen, a Praça da Paz Celestial, que nunca fez tão pouco jus ao seu nome poético. Após mês e meio de protestos pacíficos, iniciados em Abril, com a morte súbita do ex-secretário-geral do Partido Comunista Chinês, o reformista Hu Yaobang, destituído dessas funções em 1987.

Recordo as expressões festivas nos rostos de muitos chineses semanas antes, dias antes, quando toda a esperança parecia possível.

Recordo as figuras dos principais dirigentes estudantis, imagens que galvanizaram toda uma geração – jovens como Wang Dan, Chai Ling e Wuer Kaixi, que viriam a ser perseguidos e forçados ao exílio.

Recordo a euforia popular que rodeou a chegada à capital chinesa em meados de Maio, para uma visita oficial, de Mikhail Gorbatchov, o homem que se preparava para derrubar a cortina de ferro e servia de inspiração ao ansiado derrube da cortina de bambu.

Recordo também a mobilização de uma vasta força repressiva, composta por 300 mil soldados mandatados para estancar a revolta. Recordo a proclamação da lei marcial por Deng Xiaoping (que só viria a ser levantada em Janeiro de 1990) e o afastamento do líder do partido, Zhao Ziyang, acusado de ser excessivamente brando pelos falcões da ditadura e condenado a partir daí à morte civil e à reclusão doméstica com carácter vitalício.

Recordo o silêncio de chumbo nos dias subsequentes ao massacre.

 

 

Recordo sobretudo o impressionante instantâneo daquele homem sem rosto nem nome, de braços nus, enfrentando uma sinistra fileira de tanques, imortalizado pelo clique da máquina fotográfica de Stuart Franklin. Símbolo máximo da dignidade humana perante a força bruta - há 25 anos em Pequim, hoje no Xinjiang que teima em ser diferente.

Quando ouço dizer à minha volta que já não existem heróis, lembro-me sempre daquele homem sem medo. Que outro nome haveremos de dar-lhe senão esse – o de herói?

 

Leitura complementar: Stuart Franklin: how I photographed Tiananmen Square and 'tank man'

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18 comentários

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De Maria Dulce Fernandes a 04.06.2014 às 13:06

Não há homens sem medo, há sim aqueles que têm em si a valentia de enfrentá-lo e ao que ele representa. A coragem é isso mesmo. Reconhecer o medo e fazer-lhe frente. É esse espírito, essa força, que separa os heróis dos outros.
O seu nome e o seu paradeiro, desconhecidos até hoje, tornaram-no um símbolo de ousadia e determinação. A coragem é isso mesmo.
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De Pedro Correia a 04.06.2014 às 15:00

De facto, o mais impressionante nesta imagem, que revive o mito bíblico do David contra Golias, é o absoluto anonimato do homem que, sozinho, fez parar uma impressionante fileira de tanques que se dirigia a Tiananmen. Nunca ficámos a saber o seu nome. Nunca ficámos a saber de onde veio ou para onde foi.
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De l.rodrigues a 04.06.2014 às 14:50

Não que discorde, de que ainda há heróis.
A afirmação seria era talvez melhor ilustrada com um exemplo que não fosse do século passado.
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De Pedro Correia a 04.06.2014 às 14:57

Faz hoje 25 anos.
Uma cultura sem memória do passado é uma cultura sem futuro. E um povo que não aprende com os erros do passado é um povo que se arrisca a repeti-los no futuro.
Vale para nós, portugueses. E para qualquer outro povo do mundo.
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De Maria Dulce Fernandes a 04.06.2014 às 15:39

Não posso estar mais de acordo, Pedro !
Excelente aforismo.
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De Pedro Correia a 04.06.2014 às 23:43

Nunca me canso de sublinhar a importância da memória num mundo que parece cada vez mais desmemorizado.
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De Teresa Ribeiro a 04.06.2014 às 16:37

Grande post, Pedro. Arrepiaste-me.
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De Pedro Correia a 04.06.2014 às 23:42

Obrigado, Teresa. Beijinho.
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De rmg a 04.06.2014 às 18:09


Belíssimo post , meu caro Pedro Correia .
E belíssimo comentário o de Maria Dulce Fernandes , só é verdadeiramente corajoso quem tem medo e mesmo assim avança porque é isso que a consciência lhe impõe .

Permito-me pôr aqui algo que todos conhecemos e que dá a verdadeira dimensão do momento :

http://www.youtube.com/watch?v=YeFzeNAHEhU

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De Pedro Correia a 04.06.2014 às 23:41

Obrigado pelas suas palavras, meu caro.
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De Carlos Cunha a 04.06.2014 às 20:18

na sinistra coluna de tanques seguiam homens que decidiram estancá-la perante a presença de um outro homem completamente vulnerável.
o que terá acontecido para alguém ter decidido parar a coluna e o que lhe terá sucedido? será o actual chefe do exército vermelho?
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De rmg a 04.06.2014 às 22:18


Há coisas que só quem as viveu percebe .

Portanto é preciso ter vivido no oriente (eu vivi) para se perceber esse porquê , assim como é preciso ter sido militar há 40 anos para perceber porque é que o jipe que encabeçava a coluna de Salgueiro Maia parou num sinal vermelho junto à Cidade Universitária na madrugada de 25 de Abril .

Mas quem não as viveu também as pode perceber se pensar um bocado .
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De Carlos Cunha a 05.06.2014 às 12:11

a mim também me aconteceu isso tudo que lhe aconteceu a si, mas a si deve-lhe ter acontecido algo mais ou menos que a mim-
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De rmg a 05.06.2014 às 17:29


Pois se calhar a mim aconteceu-me a mais não ter perdido algum bom senso e aconteceu-me a menos não ter achado que a idade me tinha trazido um sentido de humor acrescido .

Portanto se lhe aconteceu isso tudo de que se gaba tinha obrigação de saber como chineses e japoneses têm um sentido muito grande da hierarquia - a menos que o seu "oriente" fôsse outro , há vários - e portanto se o chefe da coluna não deu ordem para passar por cima do homem , nenhum condutor de tanque alguma vez o faria , muito pelo contrário pois isso custar-lhe-ía naquela altura a cabeça .

Mas o que está em causa aqui é que aquele homem ali no meio da rua não sabia que o chefe da coluna não ía dar essa ordem , só isso e é muitíssimo , é tudo !

E se foi militar há 40 anos atrás devia saber como esse mesmo sentido da hierarquia era importante não porque o RDM dissesse isto e aquilo ou alguma NEP impusesse aqueloutro mas porque a formação , a disciplina e o não improviso eram essenciais para voltar vivo e se possível inteiro duma guerra como a que a grande maioria suportou .

Isto para lhe dizer que o jipe parou no sinal vermelho da Cidade Universitária porque é isso que qualquer condutor profissional faz de forma automática .
E que arrancou logo de seguida com ordem do comandante da coluna , Salgueiro Maia .

Daí a comparação que eu fiz com esta situação .

Os mesmos princípios estou em supôr que se aplicam em qualquer exército do mundo e isso é bom de saber para pessoas como eu que não apreciam os generais Tapioca nem os condutores de tanques na Praça de Tiananmen de há 25 anos que pudessem ser agora talvez altas patentes do "Exército Vermelho" só porque não se meteram a improvisar.

Uma boa tarde para si
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De rmg a 05.06.2014 às 18:53


Em tempo , com as minhas desculpas .

E se o chefe da coluna de tanques não a deu é porque não tinha instruções para situações destas , que se sabe eram completamente imprevisíveis naquele lugar e naquela altura (um homem , sózinho , com 2 sacos ?).
E é natural que seguir em frente não fôsse a 1ª opção , toda a gente sabia que a varanda do Hotel Beijing estava cheia de jornalistas e fotógrafos estrangeiros. .

Como se sabe , assim como a maioria dos latinos adora improvisar , a maioria dos chineses e japoneses nem sabem muito bem o que é que a palavra quer dizer (trabalhei vários anos com eles , tanto lá como cá).
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De rmg a 04.06.2014 às 23:09


Fui tentar perceber porque é que o Pedro Correia nos trouxe aqui estas 4 fotos só na aparência iguais e não outras .

E descobri que só 4 fotógrafos conseguiram tirar fotos àquele momento e as publicaram .

Foram eles Charlie Cole , Stuart Franklin , Jeff Widener , Arthur Tsang Hin Wah e cada uma destas é de cada um deles .

Foi esse cuidado que o Pedro teve , trazê-las todas .
Isto é jornalismo .
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De Pedro Correia a 04.06.2014 às 23:39

Grandes momentos de fotojornalismo. Sem estes profissionais, que no limite corriam risco de vida, nunca esta história admirável e assombrosa de um herói sem nome nem rosto tinha sido conhecida.
Stuart Franklin - para mim também um herói, de outro tipo - recordava esta semana ao 'Guardian' como conseguiu fintar a estrutura repressiva chinesa.
Tirou as fotos da varanda do hotel onde estava hospedado. O hotel tinha sido tomado de assalto pelos militares, que revistaram os jornalistas e confiscaram todo o material documental na posse dos repórteres, obrigando-os a permanecer no quarto. Mas ele, mesmo confinado àquele espaço, contornou a ordem das forças repressoras: fez as fotografias e guardou o rolo numa caixa de chá que se apressou a confiar a uma estudante francesa com passagem marcada para Paris. Essa estudante conseguiu transportar o rolo nesse esconderijo improvisado. Na capital francesa, entregou-o à agência Magnum, que divulgou as imagens logo conhecidas em todo o mundo.
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De da Maia a 05.06.2014 às 23:46

Não estou totalmente de acordo, Pedro.
Faz parte dos comentários apresentar outra perspectiva, e a mim calha-me mais vezes do que habitual ser dissonante.

Esta foto é para mim pouco significativa do que se terá passado em Tiananmen, porque não vale pela imagem, vale pela história que é contada com ela.

Esta imagem parece ser uns dias posterior à limpeza de Tiananmen, e o desfile de tanques é parado por uma pessoa irritada com o regime. Poderia acontecer em Portugal, se algum desgraçado desesperado com a sua vida decidisse irromper num desfile do exército e se colocasse à frente de uma chaimite.
O procedimento seria semelhante?
Talvez pior, mais rapidamente seria neutralizado pela segurança circundante e atirado ao chão... nem teria oportunidade de subir à chaimite.

Há poucas imagens da carga sobre Tiananmen, e as que conheço são confusas, por não evidenciarem que se trata do mesmo local.
Imagens de cargas policiais brutais existem também em países ocidentais, mas não reportam 5000 mortos.

Apenas quero colocar um ponto objectivo.
Se a China quisesse mostrar imagem de um Ocidente repressor que ataca pessoas indefesas numa praça, bastava pegar nas de Madrid ou de Atenas, e depois contar uma história a belo prazer.

O que dá relevo é toda a história decorativa e a crença pessoal.
Por exemplo, o governo chinês ou coreano poderia bem pegar nesta imagem:
http://lescommunards.blogspot.pt/2013_09_01_archive.html
... e dizer que depois do "massacre de Madrid" os jovens espanhóis tinham sido detidos, torturados, e estavam desaparecidos, na longa lista da repressão ocidental.
Os coreanos duvidariam? Como, se toda a informação é controlada?

Portanto, deste lado sabemos as histórias que contamos, também sabemos de histórias inventadas e das muitas, muitas histórias suprimidas.
Do lado de lá, é natural não ser muito diferente...

A informação objectiva que essa filmagem traz é uma contenção de um desfile militar perante uma pessoa isolada que protesta qualquer coisa, não largando as suas compras. Se fosse noutra formação militar ocidental, o jovem tinha-se aleijado muito provavelmente... ali foi levado por outros, e nada mais se viu.

Objectivamente, o resto é história.
Se é História?... pois até acredito que sim, mas dada a falsificação constante da imprensa ocidental, e os interesses associados, não colocaria as mãos no fogo por ela. Há muito que a imprensa caiu em descrédito agonizante.
É claro que sei que terá que discordar.
Quem acredita, discorda. É óbvio.

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