Saltar para: Post [1], Comentários [2], Pesquisa e Arquivos [3]




Agradecer aos catalães pela Restauração? E aos outros?

por João Pedro Pimenta, em 05.11.17

Uma das trivialidades que mais se tem repetido nos últimos tempos, a propósito da situação na Catalunha, é que Portugal "deve a sua independência aos catalães", em razão da revolta que por lá estalou em 1640 ter permitido que as tropas espanholas se concentrassem naquele território e se desviassem deste rectângulo mais a oeste. Conceitos de independência à parte, os defensores desta tese nem notam que estão a reduzir Portugal a um mero estatuto regional e a colocar uma nação velha de séculos ao lado de regiões que nunca foram estados, e que circunstancialmente têm um grupo grande que pretende formar um.

 

É bizarro que se considere sequer que os seguidores de Pau Claris tivessem pensado um segundo que fosse em Portugal. Mas e se a tese da gratidão que devemos aos catalães fosse correcta? Nesse caso, pecaria por defeito. É que seria mais fácil escolher quem é que não estava em guerra com a Espanha nesses anos quarenta do século XVII do que o contrário, incluindo (ou sobretudo) nos seus próprios domínios.

 

A década começou com a Guerra dos Trinta Anos contra a França, as Províncias Unidas (Holanda), um ex-domínio que procurava manter, e os adversários dos Habsburgos em geral, além de algumas batalhas navais com a Inglaterra. Os tercios espanhóis, uma máquina de guerra temível ao tempo, combatiam nos Pirinéus, na Flandres, nos Países Baixos e na Alemanha, e obtiveram alguns êxitos, como a tomada de Breda, imortalizada por Velasquez.

 

Resultado de imagem para rendicion de breda

 

Em 1640 rebentou a referida revolta catalã, ou "Guerra dos Segadores", que começou por ser uma revolta popular contra os abusos das tropas aí estacionadas, e que acabou por levar a Generalitat a proclamar a república e a aclamar posteriormente Luís XIII como soberano. A revolta e a perda de território para o inimigo levaram a que Espanha deslocasse mais tropas para a região, que seria recuperada (parte dela, já que Perpignan ficou para os franceses) apenas em 1659. É este o pretexto para se dizer que "Portugal deve a sua independência à Catalunha".

 

Mas ao contrário do que se pensa, a Catalunha não foi a única rebelião ibérica. Uma conspiração andaluza, encabeçada por Grandes de Espanha, começando no nobilíssimo Duque de Medina Sidónia  (irmão da já então Rainha de Portugal D. Luísa de Gusmão), impediu que tropas espanholas se concentrassem perto de Portugal. A conspiração acabou por ser descoberta e os seus autores punidos com o cárcere e perdas de bens e regalias, mas ficou na dúvida quais os reais motivos da conjura, havendo quem creia que se pretendia mesmo a secessão da Andaluzia, com Medina Sidónia como novo soberano de Sevilha, com o auxílio do real cunhado.

 

Mais tarde, em 1648, outro grupo de conspiradores, estes em Aragão, veriam também os seus planos desfeitos. Aqui a conjura era ainda mais ambiciosa: pretendia, com auxílio de França e Portugal, separar o velho reino de Aragão de Castela, apoiando a Catalunha, oferecendo alguns territórios aos franceses e a Galiza a Portugal. Infelizmente para os galegos, também esta maquinação não conseguiu ir avante.

 

Por essa altura já tinha rebentado a revolta contra o vice-rei de Nápoles, na época também sob a coroa dos Habsburgos, revolta essa chefiada pelo pescador guerreiro Manasiello. Num primeiro momento, as tropas no terreno sufocaram a revolta e liquidaram Manasiello, mas pouco tempo depois houve novo levantamento, que levou à proclamação da república "régia" de Nápoles, entregando o título de Doge a Henri de Guise. A situação durou menos de um ano, até que os espanhóis, comandados pelo Infante D. João José de Áustria, tomaram de novo a cidade sem grande resistência, depois de uma estratégia de paciência e de conquista gradativa. Só em fins do século XVIII Nápoles teria o seu primeiro rei nascido em sol italiano.

 

Imagem relacionada


Para se ficar com uma ideia mais ampla dos sarilhos com que Espanha se deparava na época, e se não se quiser percorrer grandes calhamaços de história,os livros de Arturo Perez Reverte, nomeadamente os da saga do Capitão Alatriste (que também existe em filme, com Viggo Mortensen a interpretar o vigoroso mercenário, e em série), onde entram figuras reais como Francisco de Quevedo e o Conde-Duque de Olivares (figura contra a qual boa parte destas revoltas se dirigiu), são um bom guia da situação

 

Ou seja, se queremos agradecer a quem, pela sua oposição, desviou as atenções e os recursos da temível força terrestre espanhola, devemos fazê-lo não apenas aos "nossos irmãos" catalães, mas também aos "nossos irmãos" franceses, holandeses, flamengos, napolitanos, e também a alguns andaluzes e aragoneses. E os que formarem movimentos secessionistas terão todos a nossa solidariedade. A gratidão é uma virtude muito bela e não devemos excluir ninguém.

Autoria e outros dados (tags, etc)


26 comentários

Sem imagem de perfil

De V. a 05.11.2017 às 18:10

Portugal nunca perdeu a independência — foi sempre um país separado mesmo quando a coroa espanhola o "anexou" por herança. Herança legítima, aliás. 1640 apenas cria uma nova dinastia de raízes portuguesas. A ideia de Independência é jornalística e superficial — como tantas outras que são propagadas erradamente todos os dias na internet no inferno dos forums dominados pela ignorância: como dizer, por exemplo, que os europeus brancos cristãos inventaram a escravatura ou que as maiores barbaridades humanas não foram perpetradas primeiro a Oriente e na Ásia Menor muito antes de os estados Europeus emergirem da noite das florestas. Bardamerda para essa gente toda. Ah pois é.
Sem imagem de perfil

De Vlad, o Emborcador a 06.11.2017 às 13:14

"Herança legítima, aliás. 1640 apenas cria uma nova dinastia de raízes portuguesas"

E a Dinastia de Avis?

"que os europeus brancos cristãos inventaram a escravatura ou que as maiores barbaridades humanas não foram perpetradas primeiro a Oriente e na Ásia Menor "

https://www.youtube.com/watch?v=cYEn5Ht6Qgc

https://www.youtube.com/watch?v=aVRlx92yyyQ

https://www.youtube.com/watch?v=2MU5YPjziR4

Em, "Exterminem todas as bestas"

As novas armas tornavam possível até mesmo a um explorador europeu sozinho em África praticar actos de brutalidade quase ilimitada e escapar sem punição. O fundador de colónia alemã da África Oriental, Carl Peters, descreve em Nova Luz Sobre a África Negra (1891) como forçou o povo vagogo a submeter-se.

O filho do chefe veio ao acampamento de Peters e colocou-se "sem qualquer embaraço" à entrada da sua tenda. "Quando lhe ordenei que se retirasse, ele reagiu com um sorriso aberto e, sem qualquer perturbação, deixou-se ficar onde estava."

Peters ordena então que ele seja chicoteado com o chicote de pele de hipopótamo. Ao ouvirem os seus gritos, os guerreiros vagogos acorrem para tentarem libertá-lo. Peters dispara "sobre o amontoado" e mata um deles.

Meia hora mais tarde, o Sultão envia um mensageiro com um pedido de paz. A resposta de Peters: "O Sultão terá paz, mas paz eterna. Eu demonstrarei aos vagogos quem são os alemães! Saquearemos as aldeias, incendiaremos as casas e arrasaremos tudo o que não arder."

As casas revelaram-se difíceis de queimar e tiveram de ser destruídas à machadada. Entretanto, os vagogos juntam-se para tentarem defender as suas casas. Peters diz aos seus homens:
"Mostrar-vos-ei que tipo de populaça temos aqui perante nós. Ficai aqui e eu sozinho espantarei os vagogos."
Depois de pronunciar estas palavras, encaminhei-me na direcção deles gritando hurras e centenas deles fugiram como um rebanho de ovelhas.
De modo nenhum menciono isto para indicar que as nossas circunstâncias eram de alguma forma heróicas, mas somente para demonstrar que tipo de pessoas são estes africanos em geral e a ideia exagerada que se faz na Europa das suas capacidades de combate e dos meios requeridos para a sua supressão.
Por volta das três horas, avancei para sul em direcção às outras aldeias. O mesmo espectáculo por todo o lado! Após uma breve resistência, os vagogos fugiram, foram lançadas tochas para dentro das casas e os machados fizeram o serviço de que o fogo não era capaz. Assim, às quatro e meia, doze aldeias tinham sido dizimadas... A minha arma estava tão quente de tantos disparos que mal conseguia segurá-la nas mãos.

A diferença entre a maldade de uns e dos outros é que uns usavam Maxims, os outros arcos e flechas.

Bardamerda para todos os nacionalistas e fascistas

Sem imagem de perfil

De Rui Henrique Levira a 06.11.2017 às 15:06

Toda essa brutalidade, meu caro Vlad, é, pelo menos a julgar pelos histéricos protestos do secessionismo catalão, um mero passeio pelo Céu gentilmente proporcionado ao povo vagogo pelo imperialismo alemão, o qual, comparado às tribulações do povo catalão às mãos dos torcionários castelhanos, peca por defeito de brutalidade.
Ainda bem que trouxe à colação o Sven Lindqvist, prezado Vlad, pois esse seu livro remete-nos para o Conrad de "O Coração das Trevas", essa apologia às benfeitorias de Leopoldo II no Congo, o Rei ainda hoje muito celebrado e monumentalmente elogiado nessa Bélgica de todas as liberdades onde o corajoso Puigdemont encontrou a justiça que lhe era negada em Espanha.
Quanto ao nosso camarada a quem bem respondeu, ele há que reconhecer habilidade retórica a quem nega a autoria de algo a alguém para nessa negação diluir a mestria desse alguém no domínio da arte que ele não inventou, mas com fartura e longamente praticou.
Concretizemos: os portugueses, não inventando a escravatura, foram os primeiros a fazer da escravatura moderna um negócio em grande escala (confirmar em Gomes Eanes de Azurara) e os últimos a deixar essa atividade (confirmar em, entre outros, José Capela). Mas isto que afirmei é, claramente, fruto da minha ignorância, ignorância essa que se alimenta na ignorância de quem é ainda mais ignorante do que eu.
Sem imagem de perfil

De Vento a 06.11.2017 às 19:35

Henrique, saudações.
Eu também sou ignorante. Mas com toda esta ignorância que possuo muito me estranha que os sabedores de hoje em dia tanto enfase coloquem nos hábitos e culturas do passado.
Sendo a escravatura uma condição desde que o Homem é Homem não vejo qualquer significado num julgamento da história com os olhos dos tempos hodiernos.
A escravatura foi abolida, melhor dizendo, absolvida, mas o preconceito permaneceu; e não me refiro somente ao preconceito racial. A escravatura dos nossos tempos, em matéria cultural e não só, assemelha-se ao medo da miséria, que é pior que a própria miséria.

Estou convencido que ao procurarmos purgar a história de nossos pais ou ancestrais nada mais fazemos que encapotar as nossas próprias misérias.

Eu estou em crer que o cerne da questão cultural que hoje se vive reside no mesmo dogma que a Igreja em tempos fez sobre si mesma, o da infalibilidade. E talvez por se ter deitado para o lixo este dogma a Igreja evoluiu (consultar os documentos sobre o Concílio Vaticano II) e a sociedade mantém-se retardada.
Permita agora um desabafo.
Uma das coisas que mais me irrita no farisaísmo é precisamente o culto do puro e do impuro. A Igreja, enquanto comunidade de pedras vivas, voltou-me a interessar quando verifiquei os ténues sinais de que começava, e ainda está no seu início, a existir uma viragem do amor à lei para a Lei do Amor. Mas fora dela encontro exactamente o que nela ainda evito.
Por isto mesmo, hoje recomendo aos familiares, que andam pelos colégios e Universidades, o seguinte: Buscai o que a academia tem; e na triagem futura que fareis, evitai também os académicos. Evitai-os, porque quando falam, em geral, reproduzem os caracteres lidos num livro, mas não a experiência de quem os escreveu.
Sem imagem de perfil

De Rui Henrique Levira a 07.11.2017 às 21:33

Meu caro Vento, concordando eu consigo em muito do que diz devo, no entanto, deixar bem clara uma coisa: não é minha intenção, ao refletir sobre a escravatura, purgar a História do que quer que seja. O que me causa perplexidade em determinadas opiniões é que elas não consigam olhar essa História sem complexos, vendo o positivo e o negativo de que ela foi feita.
Afirmarmos nós (corretamente, penso) que os nossos antepassados foram longa e largamente esclavagistas não faz de nós esclavagistas por herança genética. Pelo contrário: isso põe em evidência o quanto nós evoluímos neste percurso penoso e contraditório que foi e é a nossa História (e, não o esqueçamos, foi e é a História de todos os povos desta nossa Terra), demonstrando, a um mesmo tempo, a profundidade com que nos interrogamos acerca daquilo que, como grei, fomos, daquilo que somos e daquilo que desejamos no futuro ser.
Saudações cordiais, prezado Vento.
Sem imagem de perfil

De Vento a 08.11.2017 às 00:36

Sim, estou de acordo consigo. Ajuizar não possui o mesmo significado que julgar. Repare, pegando ainda no tema sobre o farisaísmo e sobre o olhar actual da história, neste exemplo: Paulo perseguia os cristãos. Capturou uns e outros foram simplesmente lapidados, sendo que Estevão surge como o primeiro exemplo desse tipo de mártires.
À luz da actual jurisprudência estamos perante um homicida, um criminoso. E à luz da actual sensibilidade e evolução estamos perante um acto condenável. Acontece que nesse tempo a jurisprudência não contemplava tal acção, a de Paulo e outros, como crime; e a sociedade legitimava essa consequência, a morte de Estevão, por se ter verificado um crime de profanação e até mesmo de blasfémia.
Pergunta: que imoralidade e que crime poderemos hoje apontar a uma sociedade onde a noção de crime que hoje temos estava invertida?
Repare que o grito de Jesus na Cruz não foi: Pai, perdoa-lhes porque eles são criminosos, mas sim: "Pai, perdoa-lhes porque eles não sabem o que fazem", isto é, são uns ignorantes.
Existindo já a percepção entre o bem e o mal, acontece que esta, a percepção, não era suficientemente esclarecida e experienciada para que se pudesse concluir que «fazer aos outros o que queremos que nos façam a nós» fosse exactamente não fazer ao outro o que vinha sendo feito. Por isto mesmo a lei de talião era aplicada ao invés de se «orar pelo inimigo». Isto não era feito, porque o «próximo» não era o estrangeiro, mas os de sua própria casa.
Não obstante, o próximo só se foi considerando mesmo próximo à medida que deles nos íamos aproximando. E esta relação de aproximação, com todos os seus defeitos e virtudes, foi feita por nossos pais.
Pretendo com isto dizer que o nosso caminho só tem de ser «lavar-lhes os pés», para que os nossos fiquem ainda mais limpos.

Como bem deve saber, a herança genética influencia, mas não determina. Por isto mesmo a sua afirmação é correcta: "(e, não o esqueçamos, foi e é a História de todos os povos desta nossa Terra)".
Henrique, amanhã serão os nossos filhos a julgar-nos. Espero que a sua, deles, complacência seja precisamente "lavar-nos os pés".

Saudações cordiais
Sem imagem de perfil

De Rui Henrique Levira a 06.11.2017 às 15:22

E a esse seu "barda...", meu caro Vlad, faço-o, se mo permitir, inteiramente meu, se nesses fascistas o senhor incluir os xenófobos fascistas da "Generalitat".
Imagem de perfil

De João Pedro Pimenta a 06.11.2017 às 16:39

Caro Vlad, mas onde é que essas barbaridades desmentem que a escravatura é bem mais antiga? Ou que os escravos negros eram capturados e vendidos por outros negros ou árabes e berberes? Não há povos apenas opressores e outros apenas oprimidos.Não terá é tantos testemunhos escritos.
Sem imagem de perfil

De Vlad, o Emborcador a 06.11.2017 às 16:57

"Concretizemos: os portugueses, não inventando a escravatura, foram os primeiros a fazer da escravatura moderna um negócio em grande escala"

Percebe a diferença. É um problema de escala.

Mas se não percebe, eu ilustro:

https://www.youtube.com/watch?v=1csr0dxalpI




Sem imagem de perfil

De Rui Henrique Levira a 06.11.2017 às 17:04

O raciocínio correto será, então, este: se tu escravizaste, eu pouco ou nada escravizei; se tu foste esclavagista, o teu esclavagismo fez o meu esclavagismo passar por benfeitoria feita aos africanos.
Não é só a Espanha que precisa de levar um tanto mais a sério a Lei da Memória Histórica, pois quer cá parecer-me que quem precisa urgentemente de uma Lei da Memória Histórica é toda a Europa Ocidental (mais os seus apêndices dos EUA , do Canadá, da Austrália e da Nova Zelândia). E nós, portugueses, para que não passemos como habitualmente por entre os pingos da chuva (os espanhóis ficaram com o osso da "leyenda negra" e nós fomos abençoados pelo caviar abundantíssimo da "epopeia dourada"), também.
Obrigadíssimo, caro João Pedro Pimenta, por nos lembrar o carácter essencialmente oral da literatura árabe (uma oratura, para sermos precisos), esse multissecular fruto de uma cultura que só recentemente inventou um alfabeto. Bem haja.
Sem imagem de perfil

De LMR a 11.11.2017 às 12:33

Decerto tem consciência de que a "leyenda negra" tem sido desmentida por historiadores desde o livro clássico de Julián Juderías y Loyot (1914). Recomendo-lhe, entre outros, Stanley G. Payne (EUA) e Joseph Pérez (França) para não pensar que esses desmentidos são apenas o negacionismo de espanhóis ultra-nacionalistas.

Quanto à nossa "lenda negra," se tem assim tanta vontade de acreditar nela, recomendo-lhe o livro do George Davison Winius, "A Lenda Negra da Índia Portuguesa," um estudo excelente sobre a corrupção galopante na Índia portuguesa nos séculos XVI e XVII. Está publicado em Portugal pela Antígona; não é como se nós andássemos com medo de confrontar os aspectos negativos da nossa história. Talvez até goste o capítulo introdutório onde Winius discute o facto de a Europa não ter criado uma lenda negra à volta de Portugal.

Por último, está bem enganado com essa da "epopeia dourada." A historiografia portuguesa, desde o século XVIII para a frente, a começar com "O Verdadeiro Método de Estudar," de Luís António Verney, tem sido uma historiografia pautada por ideias decadentistas e pessimistas sobre o nosso passado; não conheço outro país, tirando Espanha, que tem um complexo de inferioridade tão miserável como o nosso, que tenha gerado um conjunto de textos tão negativos sobre nós mesmos: só no século XIX tivemos Herculano com "História de Portugal" e "História da Origem e Estabelecimento da Inquisição em Portugal", Antero de Quental com "As Causas da Decadência dos Povos Ibéricos," Oliveira Martins com "A História da Civilização Ibérica" (onde descreveu Portugal como um cadáver), "História de Portugal" (onde um século antes de Winius condenou a corrupção da Índia Portuguesa) e "Portugal Contemporâneo", uma interpretação tão negativa do século XIX que foi munição para todos os monárquicos, integralistas, fascistas e salazaristas que depois de 1910 começaram a atacar o liberalismo e a monarquia constitucional; e depois, claro, qualquer romance de Eça de Queiroz onde se é impossível encontrar um português inteligente. Desse século tenebroso nasceria António Sérgio ("O Reino Cadaveroso") e outros que continuariam a tratar a história portuguesa como uma corrente contínua de vileza, tirania, menoridade intelectual, sem quaisquer virtudes, uma visão tão eivada, parcial e ridícula que só em décadas recentes se começou a corrigir alguns desses excessos, de que é um bom exemplo José Eduardo Franco. Portugal tem produzido muita auto-crítica nos últimos séculos. Se acha mesmo que os nossos historiadores têm andado a cantar uma epopeia dourada consensual desde sempre, pergunto-me se tem por hábito frequentar as secções de História Portuguesa nas livrarias. É que fiquei com a impressão que não.
Sem imagem de perfil

De Rui Henrique Levira a 12.11.2017 às 15:24

Olhe, meu caro LMR, apreciando muitíssimo a sua partilha de obras e de autores que, pelos vistos, o senhor com muito gosto e proveito encontra nas suas frequentes visitas às secções de História Portuguesa das livrarias do seu agrado, o senhor convirá que essa sua impressão não passa disso mesmo: de uma impressão que é sua. As afinidades eletivas são como as opiniões, ou seja, são pessoais e vagamente transmissíveis, pelo que as minhas, no que a leituras diz respeito, são um pouco diversas das suas: René Pélissier ou Charles R. Boxer, Douglas Wheeler ou José Ramos Tinhorão, José Capela ou Maria do Rosário Pimentel andam um pouco longe dos seus nomes de referência. Encontro-as eu nas minhas raríssimas e involuntárias visitas às secções de História das livrarias nas quais eu, por mera distração, vou rarissimamente tropeçando...
Começa o senhor, para consubstanciar o desbancar académico da "Leyenda negra" (terá, porventura, o senhor entendido - erradamente entendido - que eu subscrevo acriticamente tudo o que nessa "leyenda" se diz e escreve?) com um nome que me merece as maiores reservas, o de Stanley G. Payne, porquanto o bom do senhor nem uma verdadeira, muito factual e muito próxima "leyenda negra" consegue objetivamente analisar: a de Franco e a da sua "cruzada".
Seguidamente, mistura o senhor alhos com bugalhos, enfiando no mesmo saco os subjetivos críticos contemporâneos da Expansão Portuguesa (críticos das formas de a levar à prática, de a organizar e críticos do seu caótico estado no terreno, entenda-se) com os (supostamente) objetivos analistas críticos inseridos numa produção historiográfica que se foi construindo, não raras vezes, séculos após essa Expansão e subordinada às mais diversas agendas político-ideológicas dos seus respetivos autores. É obra amalgamar Diogo do Couto e Sá de Miranda com Antero de Quental, com Oliveira Martins e com Alexandre Herculano, no sentido em que é extraordinário amalgamar fontes primárias e secundárias com a produção historiográfica ( toda ela datada, note-se) que sobre a leitura e a análise delas foi construída.
Até a própria escolha das nossas leituras dos autores dos séculos XV, XVI e XVII e a abordagem (mais crítica ou menos crítica ou de todo acrítica) que a eles fazemos nos diz alguma coisa acerca do nosso posicionamento quanto à problemática de que agora tratamos: não será a mesma coisa ler um Azurara ou um Fernão de Oliveira que ler a lírica de Camões para surfar a onda da convivência "dinaménica" com as indígenas ou compulsar a "Carta do Achamento" do Caminha para louvar a ternura (de pouca dura, aliás) das lusas gentes pelos ameríndios.
Confunde, a meu ver, o senhor duas coisas no seu comentário: o profundamente emocional sentimento de decadência que foi uma constante no Portugal pós Alcácer-Quibir com a análise racional, científica e equilibradamente crítica do devir dessa realidade histórica que foi e é Portugal. Elas não são uma e a mesma coisa. Não raras vezes, esse agudo sentimento de decadência teve o seu contraponto bipolar na hiperbolização santificadora de um passado que se via - esse passado - como a redenção retrospetiva de uma apagada e vil tristeza presente. O que, bem vistas as coisas, não raras vezes nos levou à beira do desastre ou ao próprio desastre.
Por fim, quando falo de "Epopeia dourada" falo da construção da narrativa de uma gesta mitológica e sem mácula que foi, durante décadas e décadas, o principal objeto de uma historiografia nacional cega pelo seu nacionalismo e manietada pela sua intrínseca incompetência. O sermos um país marginal no concerto do Mundo só possibilitou que essa narrativa só muito serodiamente fosse, cá dentro ou lá fora, posta em causa. E, pelos vistos, só por alguns e encontrando eles alguns eco em ainda mais raros leitores.
Saudações cordiais, meu caro LMR.

Sem imagem de perfil

De Rui Henrique Levira a 12.11.2017 às 22:05

Leia-se "esses alguns" e não "eles alguns", como erradamente escrevi.
Sem imagem de perfil

De Maria Dulce Fernandes a 06.11.2017 às 21:18

"E a dinastia de Avis ?"


"A família da dinastia de Bragança tem ascendência na Casa de Avis, e, portanto, na casa fundadora da nação portuguesa – a Casa de Borgonha. "


Sem imagem de perfil

De Vlad, o Emborcador a 06.11.2017 às 22:45

Dulce apenas me referia que em termos legalistas porventura o Reino de Portugal deveria ter sido anexado ao de Castela. Os nobres eram todos, ou quase todos, a favor desta solução. Seguindo as crónicas foi o povo um dos principais clarins da revolta.
Sem imagem de perfil

De Rui Henrique Levira a 05.11.2017 às 18:28

Mas para que precisamos nós de História quando nos basta a nutrida ficção científica secessionista?
Sem imagem de perfil

De Vlad, o Emborcador a 05.11.2017 às 19:01

Não esquecer D. Luís de Vasconcelos e Sousa, 3.º Conde de Castelo Melhor e D. Pedro II, mais o apoio dado pelos ingleses do qual resultou o controverso Tratado de Methuen
Sem imagem de perfil

De Anónimo a 05.11.2017 às 21:15

Boa aula de história
Sem imagem de perfil

De Luís Lavoura a 06.11.2017 às 09:18

reduzir Portugal a um mero estatuto regional e a colocar uma nação velha de séculos ao lado de regiões que nunca foram estados

Este é um argumento supinamente ridículo, o dizer que só tem direito a ter um Estado quem já tenha tido um Estado no passado.
Imagem de perfil

De João Pedro Pimenta a 06.11.2017 às 16:37

A questão não está tanto em se um estado que o deseja ser tem algum precedente como tal ou não (embora isso conte como requisito de independência, segundo a jurisprudência internacional), mas como resposta aos que argumentam que a Catalunha foi anexada por Espanha, que Espanha é um país ocupante, etc. Ou seja, para desmitificar um mito sem grandes pernas para andar.
Sem imagem de perfil

De Luís Lavoura a 06.11.2017 às 10:56

colocar uma nação velha de séculos ao lado de regiões que nunca foram estados

Por exemplo, quando se fala dos "países bálticos", isso é uma desvergonha, pois está-se a colocar uma nação velha de séculos - a Lituânia - ao lado de duas meras regiões do Império Russo - a Letónia e a Estónia.
Sem imagem de perfil

De Rui Henrique Levira a 06.11.2017 às 14:23

No que toca a agradecimentos e a "desagradecimentos" não sei o que virá primeiro: se deveremos nós agradecer perpetuamente aos catalães a sua oportuna revolta de 1640 ou se deverão recriminar eternamente todos os espanhóis (catalães incluídos) a nossa estatal ajuda a Franco no afogar em sangue da II República Espanhola.
Sem imagem de perfil

De Maria Dulce Fernandes a 06.11.2017 às 20:25

Na realidade aos "Filipes" só lhes interessava Portugal para sugar toda a riqueza que pudessem para alimentar a hidra de sete cabeças , corpo de todas as contendas que enfrentavam em outras tantas ou mais frentes.
Os conspiradodores tiveram o mérito de escolher a conjectura mais favorável e levar o empreendimento a, bom porto.
A praça dos Restauradores comemora a RESTAURAÇÃO, a recuperação de uma nação que por motivos vários se extraviou da ordem normal das coisas.
Não se separou espalhafatosa e inutilmente , apenas se reinventou pelo destemor e voltou a ser o que era desde 1143.

Imagem de perfil

De João Pedro Pimenta a 06.11.2017 às 22:35

Apesar de tudo o primeiro Filipe ainda respeitou de forma aceitável o seu juramento. Já com o último a coisa descambou, com impostos cobrados para financiar as guerras com a França e os holandeses na Europa, enquanto descuravam os ataques destes últimos no Brasil e em África. E a Restauração não surgiu do nada: já em anos anteriores tinha havido sérios motins no Porto e em Évora (como a do "Manuelinho").
Sem imagem de perfil

De Vlad, o Emborcador a 06.11.2017 às 23:11

Está a brincar? Com Filipe II ( o nosso I), ficámos em guerra com as maiores potências do mundo - Inglaterra e Holanda- , perdendo nós parte das colónias e toda a nossa Armada.
Uma das maiores desgraças que nos aconteceu foi a União ibérica, sob o domínio filipino.
Imagem de perfil

De João Pedro Pimenta a 07.11.2017 às 23:36

Sim, mas também concedeu regalias ao nível do comércio.

Comentar post





Links

Blogue da Semana

  •  
  • Afinidades

  •  
  • Lá fora cá dentro

  •  
  • Mais ligações

  •  
  • Informações úteis


    Arquivo

    1. 2017
    2. J
    3. F
    4. M
    5. A
    6. M
    7. J
    8. J
    9. A
    10. S
    11. O
    12. N
    13. D
    14. 2016
    15. J
    16. F
    17. M
    18. A
    19. M
    20. J
    21. J
    22. A
    23. S
    24. O
    25. N
    26. D
    27. 2015
    28. J
    29. F
    30. M
    31. A
    32. M
    33. J
    34. J
    35. A
    36. S
    37. O
    38. N
    39. D
    40. 2014
    41. J
    42. F
    43. M
    44. A
    45. M
    46. J
    47. J
    48. A
    49. S
    50. O
    51. N
    52. D
    53. 2013
    54. J
    55. F
    56. M
    57. A
    58. M
    59. J
    60. J
    61. A
    62. S
    63. O
    64. N
    65. D
    66. 2012
    67. J
    68. F
    69. M
    70. A
    71. M
    72. J
    73. J
    74. A
    75. S
    76. O
    77. N
    78. D
    79. 2011
    80. J
    81. F
    82. M
    83. A
    84. M
    85. J
    86. J
    87. A
    88. S
    89. O
    90. N
    91. D
    92. 2010
    93. J
    94. F
    95. M
    96. A
    97. M
    98. J
    99. J
    100. A
    101. S
    102. O
    103. N
    104. D
    105. 2009
    106. J
    107. F
    108. M
    109. A
    110. M
    111. J
    112. J
    113. A
    114. S
    115. O
    116. N
    117. D