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À sombra dos abrigos

por Pedro Correia, em 04.04.17

É um fenómeno que acontece ciclicamente na política, como sucede com as marés ou as estações do ano: volta e meia, surgem umas personalidades envoltas no nevoeiro mediático que logo alguns começam a apontar como novos messias. Não falta mesmo quem assegure que só tais personalidades são capazes de “regenerar o sistema”, aproximar eleitos de eleitores e conferir à vida política portuguesa a respeitabilidade que lhe vem faltando.

Acontece à esquerda e à direita. Gente de fato cinzento e discurso cinzento obtém coloridos aplausos da tribo dos comentadores, sempre pronta a elogiar não quem vai à luta mas quem se resguarda das dificuldades no sossego dos biombos e só aparece quando o vento amaina, as dificuldades diminuem e as hipóteses de mudança de ciclo se tornam muito fortes.

 

magritte[1].jpg

A Reprodução Interdita, de René Magritte

 

É um intrigante hábito político e jornalístico nacional, este de entoar hossanas a quem se cala, a quem cruza os braços, a quem se amedronta nos momentos difíceis, a quem permanece na sombra e se limita a gerir o silêncio entrecortado por umas frases enigmáticas logo transformadas em títulos bombásticos e setas viradas para cima nas colunas dos jornais.

Se o destino de Portugal estivesse dependente do calculismo destas personalidades que optam pela comodidade pessoal no momento em que mais se exigiria delas total empenho nos combates políticos estaríamos certamente condenados a perder todos os desafios do futuro.

Porque os nossos problemas enquanto sociedade só conseguirão ser ultrapassados com protagonistas que não estejam sempre a medir o impacto de cada palavra e as consequências de cada gesto, por mínimos que sejam. Só conseguirão ser superados com determinação e coragem por gente que não vira a cara à luta. Só conseguirão ser vencidos por quem age a pensar nas próximas gerações e não nos títulos dos jornais da manhã seguinte.

 

Não precisamos de políticos de pose esfíngica, que se calam quando deviam falar e falam quando deviam permanecer em silêncio. Não precisamos de políticos que valorizem mais a opinião dos comentadores do que a opinião dos cidadãos. Não precisamos de políticos que só dão nas vistas em tempo de bonança enquanto se eclipsam em dias de tempestade.

Precisamos de políticos que personifiquem as virtudes enunciadas por Sophia de Mello Breyner num dos seus mais célebres poemas: « Porque os outros se compram e se vendem / E os seus gestos dão sempre dividendo. / Porque os outros são hábeis mas tu não. / Porque os outros vão à sombra dos abrigos / E tu vais de mãos dadas com os perigos. / Porque os outros calculam mas tu não.»

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17 comentários

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De Luís Lavoura a 04.04.2017 às 13:56

E eu continuo à espera de que o Pedro Correia apresente a sua candidatura à Câmara de Lisboa. Em vez de virar a cara à luta.
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De Pedro Correia a 04.04.2017 às 15:22

Tem andado muito de carrinho de compras nas ciclovias de Lisboa rumo às hortas urbanas, Lavoura?
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De A,Vieira a 04.04.2017 às 22:01

Grande lavoura do tony chamuças pelos campos......
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De isa a 04.04.2017 às 14:26

"intrigante hábito"?
Só em Portugal?
Ainda agora, deixei um comentário que, como muitos outros que lhe deixei, passaram a fase do "intrigante" e da estreita visão "caseira".
http://delitodeopiniao.blogs.sapo.pt/pesadelo-de-uma-noite-de-primavera-9182238
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De Pedro Correia a 04.04.2017 às 15:20

Haverá quem se preocupe com a Patagónia e a Papuásia.
Eu preocupo-me sobretudo com o que se passa em Portugal. E exprimo essa preocupação em português. Faço questão disso.
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De isa a 04.04.2017 às 17:09

A ver se consigo explicar isto com uma metáfora.
Qual é a relevância de ficarmos entrincheirados num debate sem fim, por exemplo, sobre o valor ou não valor dos funcionários das Finanças, se não são eles que legislam as leis que executam?

BCE como o FED são Bancos Privados pertencentes a meia dúzia, emprestaram e continuam a emprestar dinheiro, mesmo sabendo que são dívidas impagáveis porque, os juros criam apenas submissão e dependência.
Tem alguma lógica continuar a emprestar, sabendo que os devedores, terão cada vez menos hipóteses de pagar os empréstimos?

Tem lógica na perspectiva deles porque além de emprestar uma mercadoria que fabricam quase a custo zero, tirando algum papel e tinta, eles querem, além do monopólio do fabrico de dinheiro, o monopólio do controlo da política dos países que, nesta situação, os Parlamentos, com toda a sua "engenharia" para nos tentarem convencer que ainda têm algum Poder, uns tiram a A, outros a B, enquanto alguns até aproveitam para "coçar para dentro" mas, para "não secar a fonte" porque, para pagar contas internas e externas, continuamos a ter que pedir emprestado, Todos acabam por ter de obedecer a Bruxelas, onde euro-deputados também Não Podem Propor ou Vetar Leis portanto, "alguém", nos bastidores, não eleito, controla as leis que estão a ser impostas aos Países e, nem é preciso ter ganho um Prémio Nobel para perceber que o Poder acaba sempre nos mesmos, nos que têm o monopólio da criação de dinheiro, "do ar" porque, há muito tempo que, propositadamente, acabaram com o padrão ouro onde, pelo menos, havia alguma coisa que permitia ou não, imprimir dinheiro em vez de papel pintado, com respectivas consequências nefastas para a economia real e para uma inflação, por enquanto, menos visível mas Real, principalmente nos produtos que os cidadãos, realmente, necessitam. Se misturarem outro tipo de bens, até conseguem inventar uma percentagem irreal para essa inflação.

Quer convencer-me que, neste contexto político, é muito importante, discutir ao pormenor se, para pagar impostos ou multas, gosta mais de ser atendido pela Maria, em vez da Joaquina ou do Manel?
Se quiser eu alinho e, em vez de me preocupar até com os postos de trabalho deles todos porque a UE, promove tudo o que seja robotizado, por apps ou aplicações, para melhor vir a controlar "ao longe" e, podemos esquecer o caminho sem saída por onde nos estão a levar e ficamos entretidos nos detalhes e, pronto, prefiro a Maria, mais simpática que até diz bom dia e sorri ao ouvir a opinião dos cidadãos, enquanto cobra os impostos que tanto lhe faz serem dez como mil, desde que continue a ter emprego para poder pagar as contas dela.

E, já sei, novamente, vai dizer que não percebe nada daquilo que estou a falar mas, mais tarde ou mais cedo, todos vão acabar por perceber, tarde demais porque o mais importante ficou sempre por debater.

E essa da Patagónia e Papuásia, nem parece seu porque continua a ser fã incondicional de um Governo Europeu ou seja, ser legislado por gente em quem nunca votou ou votará mas, falar disso não interessa, apenas dos meros "funcionários" locais e, das suas "poses esfíngicas, que se calam quando deviam falar e falam quando deviam permanecer em silêncio" e, "eles" "raladinhos", enquanto receberem o deles e o sonho de melhores tachos, servindo o "alguém" "algures".

Isto tudo, porque eu não quero, nem imaginar que percebe muito bem o que lhe estou a dizer e, essa da Patagónia ou Papuásia, ser uma mera cortina de fumo para outros não perceberem.
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De Pedro Correia a 04.04.2017 às 17:24

Perdi-me no seu labirinto de palavras, Isa.
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De JSP a 04.04.2017 às 14:30

A terra de Pacheco, homem, a terra de Pacheco ( o do Eça, claro, não o psitacídio televisivo que faz fretes ao tipo que faz de primeiro-ministro...)
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De Pedro Correia a 04.04.2017 às 15:22

Psitacídio rima com...
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De lucklucky a 04.04.2017 às 19:33

Ser a reserva da nação é uma posição cómoda quando mexer uma palha é mexer na sujidade.
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De Pedro Correia a 04.04.2017 às 21:53

É como nos vinhos. Os "reservas" fazem-se sempre pagar por um preço mais alto. E nem sempre justificado, valha a verdade.
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De Luís Lavoura a 05.04.2017 às 09:53

É possível que este post tenha alguma relação com a seguinte notícia do Observador:

«Os críticos começam a sair da toca no PSD. Pedro Rodrigues – que liderou a Juventude Social Democrata (JSD) entre 2007 e 2010 – apelou mesmo, esta terça-feira, em declarações ao Observador, a uma rebelião interna no partido contra Passos Coelho: “O que se está a passar no PSD exige que todos sejamos capazes de nos desinquietarmos e assumamos as nossas responsabilidades“. Pedro Rodrigues aponta as baterias a Passos Coelho e diz que “a generalidade das escolhas do presidente social-democrata para as eleições autárquicas significam a desistência do PSD da sua verdadeira vocação.”

Para Pedro Rodrigues esta desistência do PSD da sua vocação autárquica, levou-o a esta tomada de posição. “Não me conformo com a ideia do meu país se continuar a adiar e o PSD persistir em não assumir as suas responsabilidades“, critica o ex-líder da JSD.»
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De Pedro Correia a 05.04.2017 às 10:00

É possível que Lavoura seja o apelido do futuro ministro sombra da Agricultura.
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De Costa a 05.04.2017 às 13:46

Sugiro mesmo ministro da Agricultura Urbana, Ciclovias e Combate ao Automóvel.

Costa
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De Pedro Correia a 05.04.2017 às 13:54

Com direito a duas secretarias de Estado. A das hortas suburbanas e a do peão de briga.
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De Costa a 05.04.2017 às 15:48

E talvez fosse prudente (ou talvez não, por desnecessário, atendendo ao exemplo triunfante do actual sr. ministro dos negócios estrangeiros), nomear um chefe de gabinete que aliviasse os discursos do sr. ministro Lavoura de invocações de certa palavra começada por "f", ou do desejo ardente (literalmente!) de que algumas pessoas enfiem algo incandescente em específico orifício natural.

Um bom Humphrey Appleby faz sempre falta.

Costa

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