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A revolta do rebanho

por Luís Naves, em 29.11.16

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Um pouco por todo o Ocidente, alastram fenómenos de protesto eleitoral que podíamos definir como ‘voto puta-que-os-pariu’. Em consequência, no prazo de um ano, a Europa será um lugar muito diferente, com novas lideranças na maioria dos países, porventura à excepção da Alemanha, que foi o país que menos sofreu na pele os efeitos da grande recessão de 2008. Na União Europeia, está em curso uma revolução política ou, no mínimo, uma grande transformação nas maquinarias da sociedade.

 

1

Os últimos 30 anos foram marcados pelo triunfo das ideias do liberalismo económico, que transformaram o poder, e pelas utopias forjadas no Maio de 68, que mudaram a cultura. Nos últimos oito anos vivemos a crise final deste ciclo, que foi marcado pela aceleração da globalização e por profundas mudanças no trabalho ou nos meios de comunicação. Os intelectuais excederam-se no duplo critério das suas interpretações da realidade: basta ver como recentemente o regime totalitário de Fidel Castro, que não deixa dúvidas ao mais desatento, foi envolvido no perfume de uma retórica romântica que ignorou a violência do poder e a miséria do povo cubano; nenhum dos que elogiaram os feitos de Fidel acharia tolerável viver mais do que uma semana em Cuba.

Nestes últimos trinta anos, no Ocidente, a educação foi infantilizada, banalizou-se a contestação primária de toda a autoridade, o cristianismo foi ridicularizado, a família perdeu importância e não há carreiras no poder mediático para alguém que conteste a bondade destas ideias.

Liberalismo económico e utopia libertária tiveram o mesmo efeito de fragmentação do poder. Por exemplo, as lideranças moles são hoje preferidas a líderes considerados ‘duros’; o consenso é elogiado, a ruptura criticada. Os mercados financeiros controlam a economia e é considerado normal que organizações supranacionais não-eleitas fiscalizem países inteiros; a palavra pátria desapareceu dos dicionários e a palavra nacionalista é um insulto. As elites intelectuais entretêm-se a fazer comparações absurdas com o tempo do fascismo e comunismo, e pensam hoje que as fronteiras são o maior perigo que existe no mundo contemporâneo. Os proletários vivem como precários, o pleno emprego foi substituído pelo desemprego crónico, as desigualdades aumentaram, há uma nova classe de excluídos, com menos direitos do que os refugiados que desembarcarem amanhã nas nossas costas.

 

2

Muitos eleitores atingidos pela crise foram considerados ignorantes quando resmungaram contra o encerramento das suas fábricas ou quando foram expulsos das suas casas, por não poderem pagar hipotecas a bancos salvos com dinheiro público. Estes eleitores foram classificados como racistas e xenófobos quando acharam que a abertura de fronteiras facilitava a entrada de trabalhadores mais baratos, que competiam com os seus salários. Estes eleitores foram desprezados quando insistiram na defesa dos seus valores e tradições, que mais não eram do que tradições e valores que os seus pais e avós tinham como garantidos. Estes eleitores continuam a ser insultados quando votam nos movimentos ‘puta-que-os-pariu’ e vão continuar a votar em formas de protesto semelhantes, pelo menos enquanto mantiverem o direito de voto e os partidos tradicionais não compreenderem que o seu ressentimento e raiva resultam do vazio provocado pela desvalorização da classe média e a extrema insegurança que têm em relação ao futuro.

As elites trataram o seu ‘povo’ como um rebanho ingénuo que não pode decidir sobre assuntos já validados pelas classes bem-pensantes. E, no entanto, é evidente que as ideias libertárias e liberais não vão desaparecer, embora seja incompreensível que a sociedade não queira discutir racionalmente o sismo social em curso ou os erros que foram cometidos no ciclo político que agora encerra. Os comentadores dizem que vem aí o fim do mundo, que a democracia liberal vai acabar, mas o que seria verdadeiramente calamitoso era que a democracia não conseguisse mudar as lideranças que falharam ou que o sistema político fosse incapaz de reagir às imensas transformações que aconteceram e estão para acontecer nas nossas vidas.

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9 comentários

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De Anónimo a 29.11.2016 às 23:06

Clap, clap, clap!! Brilhante post.

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De Luís Lavoura a 30.11.2016 às 09:54

‘voto puta-que-os-pariu’

Eu chamar-lhe-ia "voto me ne frego", de acordo com um dos slogans do fascismo italiano.
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De isa a 30.11.2016 às 10:14

Um texto brilhante porque isto do 1% querer controlar Tudo com um Governo Global é o mesmo que voltar ao feudalismo mas, desta vez, com a ajuda da tecnologia, queriam mesmo transformar-nos em rebanhos controláveis, a nível global, sem termos para onde fugir como se pode fazer nas Ditaduras a nível local.

As pessoas estão a "acordar", mais lá fora do que aqui mas, isto de virem as Ordens de fora, os Deputados europeus não poderem Propor ou Vetar Leis, tudo para nos tirar o mínimo de controlo sobre as nossas próprias vidas, até passarem por cima de todos os Seres Humanos deste Planeta e entregarem os Oceanos e todos os seus recursos às Nações Unidas onde poucos saberão, quem controla as Nações Unidas ou que o FED e o BCE são Bancos Privados, pertencentes a menos de 70 pessoas e, se ainda não conseguem ver os perigos do que se está a passar, já devem ter o programa de "lavagem cerebral" concluído.
Só quem não queira ver ou se "alimente" bem dentro deste Sistema e espere por um grande "tacho" nesse Governo Global, totalitário, autoritário e policial para continuar a vender-nos banha da cobra ou melhor, veneno de cobra.

Uma certeza, é que nos vão fazer a vida negra, estão só a recuperar dos dois "coices", Brexit e Trump mas, desde tentar acabar com a liberdade de expressão, onde, presentemente, atacam sites dizendo que publicam notícias falsas, até criar qualquer tipo de caos, disso, não escaparemos.
Estamos a lidar com gente psicopata que com triliões, com o poder de imprimir dinheiro em teclados, nada mais lhes resta para comprar, têm praticamente tudo a que o dinheiro dá acesso, incluindo, através das dívidas, o controle das nações e dos políticos, a única coisa que lhes falta, é tirar-nos o que restar das nossas liberdades individuais e escravizar todas as populações do Planeta.

Não esquecer quem ajudou e continua a ajudar a vender e a espalhar o "veneno".
Um vídeo que também fala disso porque a nossa sorte foi a dos americanos começarem a não acreditar nos media "tradicionais".
Naturalmente, não será Trump que nos vai salvar desta gente, pela História sabemos que o podem "virar" ou matar e, ainda não chegámos a Janeiro nem ele à Casa Branca. Penso que 2017 vá ser um ano de muita "confusão" mas, desde que Brexit e Trump tenham servido para pôr mais gente a pensar com a sua própria cabeça, já foi um passo muito importante:
https://www.youtube.com/watch?v=SEgmXmQbKfA
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De Anónimo a 30.11.2016 às 11:16

"Os comentadores dizem que vem aí o fim do mundo, que a democracia liberal vai acabar...".
Pudera!
Os comentadores só estão a defender o seu tacho, que é o princípio e o fim de todo o seu mundo.
A quem luta por ideais, eles chamam ditadores implacáveis.
Falem-lhes em Salazar, em Cunhal, em Fidel Castro...
João de Brito
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De isa a 30.11.2016 às 15:37

“It's easier to fool people than to convince them they have been fooled.”

Deve pensar que não há problema, o Mundo ficar governado por uma elite de menos de uma centena de pessoas que, com a sua criadagem bem paga, controlará Tudo, onde o nosso voto já começa a não contar para nada.
Pensará que eles são adeptos de "ideais" tipo Gandhi ou Madre Teresa de Calcutá?

Naturalmente que muitos no "rebanho" se revoltam mas, por razões Muito diferentes porque ainda não perceberam que os 99% estão todos do mesmo lado e os problemas não são entre eles, o 1% apenas aplica a mesma técnica, velha e batida, querem-nos dividir para reinar, dividem-nos em Partidos, clubes, em tudo o que puderem, no entanto e, no entretanto, vão amalgamando, países, culturas e religiões, algumas delas incompatíveis. Porque será?

Sabe quem é George Soros? Aquele que através de Fundações, dá milhões para promover essas divisões e criar o caos entre os 99%?
Quanto ao Grupo Bilderberg, chama lá financeiros, políticos, jornalistas... para conversas tão sigilosas que nem podem levar acompanhantes, será para tomar um "chazinho" de tília ou para decidirem, sozinhos, o nosso Futuro?

Francamente, já não tenho paciência para explicar aquilo que, presentemente, está mesmo à frente dos olhos desde que não fique, apenas, pelos meios de comunicação "tradicionais" porque aí, há debates "profundíssimos", apesar de eu não poder dar muitos exemplos, só os apanho por acaso porque não mando nas televisões dos outros, nem vivo no deserto mas, pelas raras experiências, imagino o resto:
Horas perdidas com: Eleição num clube de futebol onde só há um candidato, se o outro cuspiu ou deitou fumo, o treinador dar pontapés na garrafa, as tragédias todas que conseguirem encontrar, funerais e respectivas retrospectivas com décadas, discursos de visitantes que os portugueses têm "no coração", para não falar de notícias mal contadas, nem de se porem a falar como se fossemos criancinhas... depois, olhamos à volta e, a maioria, parece levar tudo aquilo muito a sério. A quantidade de debates que ouvi sobre cuspo e fumo, eu é que estava quase a entrar em combustão.
O mais interessante é que no tempo da Ditadura diziam que o futebol era a droga do Povo, agora, aumentaram a dose umas 100.000 vezes, não admira que em vez de gente que pensa ou de revolucionários que debatiam ideias, temos zombies.

Por acaso sabe como funciona a UE?
No mínimo, veja o Filme Brexit, será um bom ponto de Partida para fazer a sua própria investigação se, não estiver muito "bem acomodado" ou ainda se preocupar com o Futuro das próximas gerações.
Se não perceber inglês "Where there's a Will there's a Way" mas, entendo, será muito mais cómodo viver na ignorância ou como papagaio, repetindo palavras alheias, imaginando que são as suas. Duvide de mim, de todos e de tudo mas, no mínimo, investigue.
https://vimeo.com/166378572
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De Carlos Duarte a 30.11.2016 às 13:55

Muito bem, Luís Naves.
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De Conde de Tomar a 30.11.2016 às 14:49

Valores...Burguesia. Falam agora em valores e da culpa dos valores, esses mesmos que há bem pouco tempo defendiam que o único valor era o cotado em Bolsa. Valores, diziam, tinha a arraia miúda ainda presa às superstições do Além. E com que olhar de complacência olhavam quem, por entre veludos persas, lhes falavam em Justiça e Moral.
A culpa não é dos valores, liberais, mas sim da ganância de meia dúzia, que em nome dos valores ou de doutrinas ideológicas apenas pretendeu uma única coisa - acesso a um bom prato de carnes guisadas e champagne de fora.
E enquanto falamos em valores e na sua necessária reforma, encarnada por esses humanistas, LePen e Trump, ouço, os que lucram com a miséria de milhões, pedirem sais de frutos.
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De Justiniano a 30.11.2016 às 17:30

Caríssimo Naves, apenas para, uma vez mais, e mais de mil, o secundar! Uma tremenda folha do caderno! Mais uma.
O consenso liberal, como sabe, lê-lo-á como uma criatura sinistra a breves passos de encabeçar a extrema direita em Portugal! E há-de, o consenso liberal, ser consenso enquanto couber nos livros de débito dessa Europa. Ou melhor, enquanto essa Europa ainda houver, do verbo deve e haver!! Os mesmos que hoje o louvam, ao consenso a débito e ao louvar das virtudes, serão, amanhã, os primeiros a desdizerem as virtudes por equivalência à tibieza e a louvarem-se nalguma ruptura que lhes conceda sustento e posição. Que não lhe doam as mãos!
Um grande bem haja,
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De Conde de Tomar a 30.11.2016 às 21:04

Que tal começarem pela Santíssima Trindade Mercados - Bancos Financeiros - Bolsas de Valores - e deixarem-nos, a nós, fidalgos de outrora, viver a fábula que trazemos dentro?

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