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A propósito de Powell

por Sérgio de Almeida Correia, em 22.08.14

"The rhetoric of US foreign policy proclaimed the universal values of liberal democracy as the foundation for world peace, but the practice was often quite different. The odd mixture of inclusive civic ideals with exclusive racist and nationalist prejudices, which Wilson’s friendship with Dixon and his contributions to The Birth of a Nation had epitomized, continued to influence American democracy and international relations. Deciding which cultural values to give higher priority after 9/11 during President George W. Bush’s global war on terrorism was still a critical question for Americans in the twenty-first century. Once more, in this new historical context, they needed to decide which aspects of the Wilsonian legacy—its best universal ideals of freedom and democracy or its worst prejudices of racism and religious intolerance—to embrace at home and abroad."

 

A violência inaudita do crime de Powell, cujas imagens podem ser vistas em múltiplos vídeos colocados no You Tube e que aqui me recuso a reproduzir ou encaminhar, fez-me regressar a Lloyd Ambrosius e ao seu texto de 2007, na Diplomacy and Statecraft (vol. 18, 2007, 689-718), sobre o legado do Presidente Wilson e tudo o que nos conduz até ao filme de Griffith (The Birth of a Nation) e à novela de Dickson (The Clansman).

Quando olho para o sistema de justiça norte-americano, quando vejo a forma estúpida como se continua a morrer nos EUA, seja pela acção de loucos ou a simples inacção do Congresso, ou quando leio as macabras descrições da agonia de condenados à pena capital, que devido à incompetência dos carrascos nem sequer têm direito a uma morte digna e sem sofrimento, não posso deixar de reler e reflectir no que Ambrosius escreveu.

O facto de Obama ter chegado à Casa Branca não mudou nada. A mentalidade continua a ser a mesma. E a quantidade de casos em que a violência se repete sem qualquer justificação continuará a fazer dos EUA um país semimedieval, onde a conquista do espaço se confunde com o barbarismo dos seus polícias, onde o último grito em novas tecnologias se confunde com o radicalismo da NRA, a ignorância de uma Palin ou o primarismo de alguns congressistas. Contrastes pelos quais depois pagam os James Fowley que um dia tiveram o azar de nascer norte-americanos.

O que aconteceu em Powell, independentemente do desgraçado ser um malandro, ou continua a passar-se em Gaza, acaba por ser o resultado de uma pesada herança de violência, ignorância, preconceito e atavismo religioso. E se um legado desses é inaceitável na Síria, na Líbia, no Irão ou em Israel, nada havendo que justifique as carnificinas que diariamente nos entram em casa, menos ainda se pode tolerar que num país como os EUA ainda não tenha sido possível ultrapassar os traumas da sua fundação. Como John A. Thompson também já sublinhou, continua a haver uma grande dificuldade em conciliar a realidade externa de um mundo recheado de conflitos e o papel que o país quer assumir em termos mundiais com a pressão da realidade interna e da sua própria opinião pública (International Affairs, 86, I, 2010, 27-48), mas isso não pode servir de desculpa para o que continua a acontecer sem que haja uma tomada de posição por parte dos países europeus.

De qualquer modo, em matéria de direitos humanos, em Powell ou no Iraque, só pode existir um caminho: o do inaceitabilidade da violência quaisquer que sejam as circunstâncias e a roupagem com que se apresente. Venha ela de onde vier. O único compromisso das nações civilizadas só pode ser o da luta contra a barbárie e pela elevação dos padrões de justiça e de vida. A começar pelo respeito por esta.

A triste herança de Wilson, que muitos ainda continuam a adular por desconhecimento histórico e preconceito ideológico, não devia continuar a envergonhar a humanidade e a motivar as acções de loucos. Não pode haver tolerância com as bestas. Menos ainda com que as que juram com uma mão sobre a Bíblia, a Torá ou o Corão, enquanto com a outra primem o gatilho.

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7 comentários

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De sampy a 22.08.2014 às 11:25

Tudo leva a crer que o autor do post desconhece o significado da palavra "inaudita".
A não ser que seja surdo. E talvez cego.
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De Costa a 22.08.2014 às 13:14

Falar da "América" e dos americanos com altivo desdém, culpando-os dos males do mundo, é um consagrado passatempo da alegada inteligência europeia. Sempre, claro, certa da sua histórica superioridade perante a infantilidade, estupidez e sei lá que mais de além-atlântico.

Por mim, leio e releio estas palavras, por exemplo, antes de participar desse ritual: http :/ tempocontado.blogspot.pt /2014/08/confissao.html

Moderam-me essas pulsões. Fazem-me pensar no azar que eu tive em nascer português.

Costa
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De Sérgio de Almeida Correia a 22.08.2014 às 20:47

Apesar de tudo. Por vezes tambem penso nisso. Apesar de tudo
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De jpm a 22.08.2014 às 17:07

Duas leituras acerca do tema, que cruzam com a questão do império, e que podem interessar. Um, que deve conhecer, é o Wilsonian moment do Erez Manela. Outro é este. http://dh.oxfordjournals.org/content/early/2014/07/27/dh.dhu034.short
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De Sérgio de Almeida Correia a 23.08.2014 às 09:00


O segundo ainda não me tinha sido apresentado. Obrigado.
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De Octávio dos Santos a 27.08.2014 às 17:21

«O facto de Obama ter chegado à Casa Branca não mudou nada. A mentalidade continua a ser a mesma. E a quantidade de casos em que a violência se repete sem qualquer justificação continuará a fazer dos EUA um país semimedieval, onde a conquista do espaço se confunde com o barbarismo dos seus polícias, onde o último grito em novas tecnologias se confunde com o radicalismo da NRA, a ignorância de uma Pallin ou o primarismo de alguns congressistas. Contrastes pelos quais depois pagam os James Fowley que um dia tiveram o azar de nascer norte-americanos.»

Tanto disparate ridículo em tão pouco espaço... Por momentos fiquei com a impressão de que me enganara e que estava de facto a ler um texto no Esquerda.net ou no Jugular, lugares esquerdistas (e mal frequentados) onde se exercita regularmente a ignorância fanfarrona, o relativismo moral e a apologia (suicidária) do multiculturalismo.

«O facto de Obama ter chegado à Casa Branca não mudou nada.» Pelo contrário, até piorou, como era de esperar, dados os perfis e os percursos do próprio e dos que lhe estão mais próximos. E de todos os democratas em geral, já não esclavagistas e segregacionistas mas sempre racistas - sim, a mentalidade deles continua a ser a mesma.

«EUA um país semimedieval» Quer dizer... tão mau ou pior do que o Afeganistão ou a Arábia Saudita? Onde as mulheres são cidadãs de segunda classe? Onde quem deixa o Islão «assina» a sua sentença de morte? Sem dúvida que a pena capital é intolerável (eu sou contra), mas a todos nos EUA são dadas as prerrogativas e a regalias de um julgamento justo, ao contrário do que acontece em outros locais...

«o radicalismo da NRA» A NRA que agrega e representa cidadãos cumpridores da lei que apenas querem defender-se de criminosos, em cooperação com a polícia? A mesma NRA que, entre as suas primeiras tarefas após ter sido fundada a seguir à Guerra Civil, tratou de ensinar negros, ex-escravos, a defenderem-se? É a esses «radicalismos» que se refere?

«a ignorância de uma Pallin». Antes de mais, é «Palin» (com apenas um «l»). Você é mais um dos muitos que acredita nas mentiras... dê exemplos dessa suposta «ignorância», mas não recorra ao «vejo a Rússia da minha casa» ou ao «a África é um país» porque não passaram de invenções de opositores.

«o primarismo de alguns congressistas». Sim, alguns são mesmo... limitados intelectualmente. Como o democrata Hank Johnson, que chegou a recear que a ilha de Guam se «virasse» («tip over») se demasiados soldados fossem lá colocados.

«pagam os James Fowley que um dia tiveram o azar de nascer norte-americanos.» E eu a pensar que aquele jornalista, refém há dois anos, havia sido assassinado cruelmente por um bando de bárbaros criminosos porque estes não receberam um resgate de 100 milhões de dólares que exigiram... e porque quiseram demonstrar o seu ódio ao Ocidente, a todas as sociedades civilizadas. Não, «enganei-me»: o ISIS é na verdade o «representante local» da Amnistia Internacional, e cortaram a cabeça de um civil inocente - à faca e frente a uma câmara - como forma de protesto contra a «violência policial» no Estado do Missouri (cujo governador, aliás, é um democrata).

Diga-me: também é daqueles que acredita que o 11 de Setembro de 2001 foi um «inside job»?





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De Sérgio de Almeida Correia a 28.08.2014 às 04:23

Sim, Palin, é só com um "l". Está corrigido, obrigado.

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