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Dois espectros percorrem neste momento a Europa: o do nacionalismo e o da demagogia populista. Quando ambos germinam de mãos dadas, estamos num quadro de tempestade perfeita.

É neste quadro que deve ser lida a pressão centrífuga em várias regiões europeias. Desde a que se desenrola na ponta dos fuzis, no extremo oriental da Ucrânia, até ao processo independentista em marcha acelerada na Catalunha, pronto a fragmentar o Estado espanhol.

Num mundo que se vai organizando em blocos regionais para enfrentar os desafios da globalização, a Europa caminha em passo trocado, separando-se em vez de se unir. Visto de outros continentes, aquele em que vivemos surge como um reduto cada vez mais frágil e bipolar, sedento de reavivar glórias passadas enquanto cede à permanente tentação da utopia.

O próximo teste sério à unidade europeia ocorrerá amanhã, quando os escoceses forem às urnas num referendo sobre o destino do Reino Unido que vai acendendo paixões políticas um pouco por toda a parte. Porque noutros povos europeus não falta quem pretenda trilhar a via da Escócia, rumo à independência.  

 

 

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Há que fazer um ponto prévio: este é um processo exemplar a vários títulos. Desde logo por ter cumprido todas as etapas legais, em consenso com o conjunto dos órgãos de soberania britânicos, sem rupturas constitucionais. Também é modelar pela moderação do Partido Nacionalista Escocês e do seu líder: Alex Salmond reivindica a independência, mantendo no entanto a Rainha Isabel II como Chefe do Estado e a libra como moeda, integrada numa hipotética “zona esterlina”.

Uma Escócia independente, embora sem cortar os laços financeiros com o Banco de Inglaterra e a City londrina, teria de sujeitar-se a um processo de adesão à União Europeia a partir do zero, sujeitando-se aos humores não só da classe dirigente britânica mas também de todas as capitais que receiam ver no precedente escocês o prenúncio de turbulências dentro das próprias fronteiras.

Está fora de causa a capacidade autonómica de uma Escócia sem amarras políticas com Londres. Os escoceses possuem 60% das reservas petrolíferas da União Europeia, com capacidade para produzir 24 mil milhões de barris nas próximas três décadas. E só a indústria do whisky gera quatro mil milhões de euros por ano em exportações. Mas os impostos aumentariam, tal como os custos de bens e serviços, e o investimento externo sofreria uma redução de dimensões imprevisíveis.

«Muitos de nós fazemos opções patrióticas no acto de comprar. Adquirimos salmão escocês ou carne escocesa em vez de salmão da Noruega ou carne da Irlanda, porque gostamos de apoiar a nossa economia. Mas se a Escócia se tornar um país estrangeiro, essa motivação desaparecerá», observa Robert Peston, editor de economia da BBC.

 

 

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Salmond pretende transformar a Escócia numa nova Noruega: este é o apelo mais tentador do nacionalista que sonha ver a bandeira com a cruz de Santo André em fundo azul hasteada em Edimburgo, como símbolo do novo Estado independente, a 24 de Março de 2016.

A decisão está nas mãos dos eleitores, incluindo 125 mil novos inscritos, com 16 e 17 anos, maioritariamente inclinados para a independência -- enquanto os mais velhos preferem manter o statu quo. Uns e outros decidirão amanhã prolongar ou interromper um ciclo histórico iniciado em 1603 com a agregação dos dois reinos (inglês e escocês) numa união dinástica sob a mesma coroa, envergada por Jaime VI da Escócia (Jaime I de Inglaterra), e prosseguido em 1707, quando ambos os parlamentos ratificaram o nascimento da orgulhosa Grã-Bretanha, hoje o 11º maior Estado da Europa.

«Trezentos anos de experiência comum, na guerra e na paz, em maus e bons tempos, serão atirados para o caixote de lixo da história – e para quê, exactamente? Para que os escoceses passem a ter assento no Conselho Europeu, ao lado da Eslovénia e da Eslováquia?», questionava há dias Simon Schama no Financial Times. Lembrando dois escoceses mundialmente conhecidos que também integram o património intelectual inglês: Adam Smith e David Hume. Ambos, admite este prestigiado colunista, votariam “não” à independência no referendo de amanhã.

 

 

4

Julgo que essa acabará por ser a opção maioritária dos escoceses, contrariando a opinião de figuras mediáticas como o actor Sean Connery e a cantora Annie Lennox, e a tendência revelada nas mais recentes sondagens. Num mundo interdependente como o actual, isso representaria uma boa notícia para o conjunto da Europa. E uma péssima notícia para alguns incendiários que pretendem arvorar o nacionalismo radical como a novidade do momento em locais tão diferentes como a Flandres, a Córsega, a Padânia e o País Basco.

Parece novidade, mas não é: nenhuma bandeira ideológica é tão velha  e tão pervertida como esta.

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18 comentários

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De l.rodrigues a 17.09.2014 às 14:03

"Alex Salmond reivindica a independência, mantendo (...) a libra como moeda, integrada numa hipotética “zona esterlina”.

BIG mistake.
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De lucklucky a 17.09.2014 às 15:24

Tanto medo que outros escolham outro caminho.

É interessante e deveria ser estudado como a recusa da pertença muitas vezes cria mais ódio nos "abandonados" que a guerra.

"BIG mistake."
O tipo como socialista que é recusa ter o poder de inflacionar que os vizinhos e é BIG mistake?
Deve ser das poucas coisas certas que vai fazer.

PS: agora o autor apaga um texto que escreveu sem nada mais?
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De Pedro Correia a 17.09.2014 às 15:27

O autor não apaga texto algum. Adiou a publicação de um texto não revisto, em rascunho, que aqui foi publicado por engano em vez deste. Só isso.
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De lucklucky a 17.09.2014 às 16:49

Ok.
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De l.rodrigues a 17.09.2014 às 15:40

Medo de quê? Não seja tonto.
Apenas sublinho que ter uma moeda separada da governação dá mau resultado. Vide Euro.
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De lucklucky a 17.09.2014 às 16:49

O Euro não correu mal.
Se assim fosse para si então o Escudo correu mal duas vezes, nos últimos 40 anos.

Depois de 4 décadas ainda não parece saber a natureza do regime e o que é política.
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De l.rodrigues a 17.09.2014 às 17:26

Já deu para perceber a natureza da finança e o que é o dinheiro. O euro replica todos os problemas do padrão ouro na Grande Depressão. Enquanto alguns acenam com o fantasma da inflacção, a Europa vai-se afundando numa espiral deflaccionária.
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De lucklucky a 17.09.2014 às 19:01

Estou a ver.

Como não consegue argumentar muda de assunto.
Agora é a suposta deflação. Que supostamente é má.

A deflação só é má para os políticos.
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De Luís Lavoura a 17.09.2014 às 16:06

a Europa caminha em passo trocado, separando-se em vez de se unir

De forma nenhuma. A Uniao Europeia constitui uma espécie de federação. Dentro dessa federação, pode haver tantos Estados quantos se desejar.

Há uns trinta anos, a Suíça criou um novo cantão, o Jura, e ninguém deu por isso. Tratou-se apenas de um rearranjo interno do país. Da mesma forma, a secessão da Escócia constituirá apenas um rearranjo interno da União Europeia.
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De Luís Lavoura a 17.09.2014 às 16:12

Trezentos anos de experiência comum, na guerra e na paz, em maus e bons tempos, serão atirados para o caixote de lixo da história

Este mesmo argumento, sem tirar nem pôr, também poderia servir para justificar a anexação da Ucrânia (ou, pelo menos, de boa parte dela) pela Rússia. Ao fim e ao cabo, trata-se de dois países que estiveram juntos durante centenas de anos.

Trata-se portanto de um argumento estúpido. O facto de a Checoslováquia ter estado unida durante setenta anos não justifica que ela não se tenha separado em dois países. O facto de o Uruguai ter feito parte do Brasil durante trezentos anos não significa que hoje não seja um país independente.
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De JS a 17.09.2014 às 16:16

PC diz "... nacionalismo radical...".
Respeito a sua posição, mas lembro que na sístole e diástole da (re)composição de nacionalidades em soberanias e reinos, -por guerras ou por interesses economico/financeiro- as vantagens, esporádicas, do centralismo inicial redundam, cedo, em desatre para as periferias.

No caso presente a recente, oficial ou não, propanda centrípeta pró "não" claramente o demonstra. Em suma reconhecem os erros que ontem defendiam como as virtuosidades do "Reino Unido" .
Agora "até darão" ( diría devolverão) mais as "regalias" à Escócia. Obrigadinho, mas ...

Deixemos o ciclo natural , oposto, cetrífugo, equilibrar o todo.
Aliás chegará cá a hora -o Ipiranga das Nações deste, atabalhoadamente construído, reino plebeu a "Europa Unida"- inclusive a Portuga, e mais cedo do que se poderá pensar.

Respeito muito a sua posição, claro.
Mas ... não estaremos também a ficar fartos dos reizinhos e dos "nobres" nas cortes de Bruxelas e Frankfurt que tudo permitiram, ou mesmo que tudo FOMENTARAM, embora com a prestimosa colaboração dos fantoches locais. Duvída?.
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De Pedro Correia a 17.09.2014 às 17:53

É a minha vez de dizer que respeito muito a sua posição.
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De Mário Pereira a 17.09.2014 às 16:33

Não percebo tanto medo da possível independência da Escócia. Tem piada a argumentação das partes. Enquanto os defensores do sim defendem as vantagens da independência, os defensores do não pouco mais argumentam do que um "project fear".
A união dos povos é como a união de duas pessoas: deve ser voluntária. Caso contrário, vale mais a separação. A União Europeia caminha no sentido errado, pois tem criado mais divisão do que união.
O ideal seria um mundo sem países, mas não há dúvida de que se eles existem é porque têm alguma coisa em comum e que os distingue dos outros.
Acredito - e amanhã confirmá-lo-emos - que o não ganhará, precisamente por causa do medo que se incute nas pessoas sobre as possíveis consequências do sim - basta ver o primeiro-ministro espanhol, borrado de medo do que isto pode provocar na Espanha.
Ora, o medo nunca foi uma coisa boa...
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De Pedro Correia a 17.09.2014 às 18:05

Também acredito que o 'não' ganhará.
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De Alexandre Carvalho da Silveira a 17.09.2014 às 18:10

Os escoceses que defendem a separação querem sair, ficando; quer dizer, mantêm práticamente tudo como está, mas querem ser eles a gerir o dinheiro do petróleo, que é o que está aqui em causa. Pois se até querem que Sua Majestade continue como chefe de estado e tudo.
Se o "sim" ganhar na Escócia, fica o precedente que vai dar força aos catalães para votarem a sua indepedência em relação à Espanha; a grande diferença é que os catalães não querem Felipe VI para chefe de estado da Catalunha, e se a Escócia escolheu um processo de separação que os mantém na UE e contiuam a usar a libra como moeda, a independência da Catalunha terá como consequência a sua saída da UE e do euro.
Depois, a seguir à Catalunha vai o País Basco, as Astúrias, a Galiza, e sabe-se lá mais o quê. A Espanha como grande país europeu desaparece, e não é preciso ser bruxo para prever as consequências que a desagregação da Espanha terá para nós portugueses, e não se vislumbra como é que o governo de Madrid pode evitar uma coisa destas.
Esperemos que amanhã o NÃO ganhe na Escócia.
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De Pedro Correia a 17.09.2014 às 20:48

Ao contrário do que sucedeu na Escócia, os nacionalistas radicais estão a seguir a via da ruptura constitucional na Catalunha. A Constituição de 1978, sufragada em referendo por uma maioria esmagadora de espanhóis (catalães incluídos) admite a secessão de uma das parcelas do território, mas obedecendo a um complexo mecanismo que deve ser respeitado. Porque a democracia implica sempre o primado da lei - começando pela Constituição, que é a lei das leis.
De facto, uma vitória do 'sim' na Escócia estimulará ainda mais as forças independentistas catalãs. Convém assinalar, no entanto, que nunca essas forças tiveram até hoje expressão maioritária nas urnas. A Convergência, o partido historicamente dominante na Catalunha, integrou o arco constitucional desde o processo constituinte de 1977-78 e nunca defendeu em programa eleitoral a ruptura com o Estado espanhol.
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De rmg a 17.09.2014 às 19:37



Encontrei isto por aí:

"Se realmente é verdade que a Escócia é uma recebedora líquida de impostos, então a secessão parece ser bem menos provável. Os eleitores, e especialmente os mais idosos e aqueles que recebem auxílios governamentais, normalmente sabem quem passa a manteiga no seu pão. Consequentemente, eles votam da maneira a manter a manteiga cremosa e o pão quentinho".



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De cristof a 17.09.2014 às 20:19

Boa afirmação =como se pode lidar com a legitima decisão de escolher outro caminho; com uns dramas sugeridos, mas só para assustar - para quem dá pouco valor pense como temos sorte em viver nesta UE.
Má afirmação = a forma arrogante como se trata as populações russas da Ucrania e se provoca o nosso vizinho mais poderoso militarmente. Vamos perder todos com isso, só para lamber botas ao to Sam e amigos.

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