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A "obscenidade" das transferências no futebol

por João André, em 07.08.17

Neymar Jr. transferiu-se para o Paris St. Germain pelo valor mais alto da história do futebol: 222 milhões de euros. Com este valor vieram os adjectivos: obsceno, pornográfico, ofensivo, etc. Não se trata apenas dos 222 milhões da transferência, mas também dos 30 milhões líquidos por época, os 38 milhões em pagamentos aos agentes envolvidos (incluindo o pai de Neymar). Assumindo uma taxa de 50%, o custo da transferência será de 112 milhões por ano ao longo de 5 anos (assumindo que o salário se mantém constante, o que nunca é certo).

 

A primeira pergunta que se impõe é: conseguirá o PSG pagar tal investimento sem infringir as regras do Fair Play financeiro da UEFA? Esta pergunta é relevante não apenas de um ponto de vista financeiro mas também moral: se o clube consegue pagar os custos, como dizer que é imoral?

 

 

Os preços

Numa transferência há sempre 3 preços: 1) o do mercado (a que se chega por consenso e depende de múltiplos factores); 2) o do clube vendedor (que tem a sua forma de avaliar); e 3) o do clube comprador. Como se pode imaginar, se os preços 2) e 3) coincidem, a tranferência é possível. Este número, no entanto, raramente coincide com o valor de mercado. Neste caso o valor do clube vendedor foi imposto através da cláusula de rescisão. Talvez fosse baixo, mas nesse caso o Barcelona admitirá que o valor de 222 milhões não é elevado para Neymar, dado que se soubessem, teriam provavelmente colocado o valor mais acima (para comparação, o de Ronaldo é de mil milhões de euros). Ou seja, o preço a que avaliariam Neymar hoje seria provavelmente mais alto. Como tal, não se podem queixar.

 

Como contabilizar então o valor de Neymar para o PSG? Se olharmos para o facto de Neymar ter sido o principal responsável pela reviravolta do Barcelona contra o PSG (vitória por 6-1 na 2ª mão depois de uma derrota por 4-0 na 1ª), poderemos dizer que o PSG vê Neymar como a peça que pode levantar o clube ao nível onde quer chegar. Sendo Neymar neste momento o melhor candidato a suceder a Messi e Ronaldo como o melhor jogador do mundo quando aqueles deixarem o trono vazio, este conceito é provavelmente bastante próximo da realidade. Assim sendo, além dos potenciais prémios monetários por vitórias, a chegada de Neymar pode elevar também a marca do clube (a sua brand value) e atrair receitas extra. Será também com isto que os dirigentes do PSG estarão a contar.

 

Sendo assim, poderemos dizer que o PSG não está a cometer nenhuma imoralidade. Se consegue de facto pagar os valores envolvidos sem ter de recorrer aos cofres do Qatar, então não é mais imoral que alguém de classe média comprar um Mercedes classe E, mesmo que tenha para tal que se livrar de algumas outras despesas para poder pagar as prestações.

 

A moral

Quando falamos da imoralidade (ou obscenidade) dos valores no desporto (e olhar para os valores nos desportos americanos não muda o panorama, apenas não costuma haver custos de transferências), estamos a criar uma comparação com o "mundo real", onde o trabalhador comum, mesmo um empresário de uma pequena ou média empresa, receberá na sua carreira toda um valor que talvez ande pelo que Neymar receberá por semana. E isto é já olhando para os valores mais elevados dos salários.

 

Só que isto não leva em conta um aspecto essencial: Neymar é indubitavelmente um dos 10 melhores profissionais do mundo na sua profissão. Quantas pessoas poderão dizer que conhecem sequer alguém na mesma categoria na sua área profissional? Poucas, muito poucas, especialmente porque não se entrega um bisturi de ouro ao melhor cirurgião, um alicate de prata ao segundo melhor electricista nem uma caneta de bronze ao terceiro melhor escritor (há prémios para os escritores, mas são de tipo diferente).

 

No mundo real

Há no entanto outro aspecto a considerar. Se um arquitecto pudesse ser visto como o melhor do mundo, o que implicaria isso? Talvez que saberia desenhar edifícios vistos como sublimes, calcular todas as forças que estariam em jogo, definir quais os materiais a usar em função das suas propriedades, planear as diversas fases da construção do edifício, fazer a análise financeira completa do projecto, etc, etc, etc. Talvez tal arquitecto merecesse receber 50 milhões por projecto e lograsse um projecto por ano.

 

Só que a realidade não vaoi por esse caminho. O mercado prefere antes escolher um arquitecto que cumpra a função do desenho do edifício, enhgenheiros civis que façam o projecto de construção, engenheiros de materiais que escolham o comento e o aço, etc. Ou seja, o mercado escolhe talvez 50 profissionais, provavelmente a um custo médio inferior a 1 milhão por área (mesmo quando múltiplas pessoas estarão envolvidas em cada uma), que possam garantir que o risco do projecto não recai exclusivamente sobre uma pessoa.

 

No futebol isso não se passa. Não é possível substituir Neymar (ou Ronaldo, ou Messi, ou Neuer) por 10, 20 ou 30 outros jogadores. No futebol entram 11 jogadores em campo. Mesmo que seja possível substituir Neymar por 3 jogadores diferentes (ou de estilos diferentes) num plantel, isso pode trazer felxibilidade táctica, mas sempre a custo da qualidade intrínseca de cada um (uma vez que apenas um pode jogar de cada vez). Além disso, sustituir Neymar por 3 jogadores (a título de exemplo e lendo notícias: Coutinho do Liverpool, Dembelé do Dortmund, Verratti do PSG) provavelmente custaria mais dinheiro que o próprio Neymar.

 

Assim, a substituição de Neymar no futebol reduz a qualidade e aumenta o custo. A substituição do arquitecto aumenta a qualidade e reduz o custo. É por isso que os valores no futebol são (consideravelmente) mais elevados. A isto acresce o facto de todos nós pagarmos pela transferência. Quem tem televisão, mesmo sem assinaturas de canais desportivos, acaba por pagar a transferência. Quem assina canais desportivos, é sócio de um clube, compra merchandising ou vai aos estádios de futebol acaba por contribuir ainda mais.

 

Há no entanto duas perspectivas extra a considerar:

1) a esmagadora maioria dos jogadores de futebol não ganha assim tanto dinheiro. A maior parte deles, mesmo os profissionais, receberão salários pouco mais elevados que a média do país. E apenas por dezena e meia de anos.

2) comparar os Neymar e Ronaldo e Messi do futebol com os trabalhadores comuns faz tanto sentido como comparar com Bill Gates, Jeff Bezos ou Amancio Ortega. Mesmo com estes milhões todos, Neymar estará ainda muito aquém do que aqueles mangnatas possuem.

 

É então obsceno? Na minha opinião não. Não mais obsceno que as fortunas das pessoas mais ricas do mundo (ou sequer de Portugal). Se quisermos ficar ofendidos com os valores da transferência de Neymar, fiquemos então ofendidos também com os negócios das maiores empresas do mundo. Na comparação o futebol só sofrerá por ser pequenino...

 

Também aqui.

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10 comentários

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De amendes a 07.08.2017 às 15:59

Diz:

"Fiquemos então ofendidos também com os negócios das maiores empresas do mundo"

A mim não me ofendem, por exemplo, Bill Gates (1) ( a maior fortuna do mundo) as empresas (Microsoft / Wikipédia) dão um contributo incomensuravelmente maior ao mundo do que os dois pés e cabeça do Neymar /Messi e Cristiano juntos...

(1)Exemplos não faltam.
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De João André a 07.08.2017 às 16:09

Precisamente. Ou, virando o argumento, quem se ofende com as fortunas de Gates ou Buffett, compreendo que se ofenda com as de Neymar ou Ronaldo. Mas quem não se ofende com as dessas pessoas, não terá como se ofender.

Não creio que se trate daquilo que oferecem ou não ao mundo. Foi por isso que falei no caso do arquitecto (ou engenheiro, ou médico...). O mundo valoriza o que eles fazem, nem que seja na lógica de panes et circensis.

Do que falo é dos valores e aí a comparação faz sentido. É um produto do sistema social e económico que temos.
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De PSG a 08.08.2017 às 10:03

Meu caro deixe que lhe diga que tudo aquilo que referiu no seu post é o menos importante para mim.
Para mim o que é preocupante é que o futebol está transformado num gigantesco negócio, perdeu grande parte da sua essencia enquanto desporto. No fundo é um "desporto" onde ganhar ou perder na maioria das vezes depende do tamanho dos bolsos dos donos do clube.
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De João André a 08.08.2017 às 14:55

A única coisa em que tendo a discordar (e mesmo assim só um pouco) é na importância do tamanho dos bolsos dos donos. Mais importante ainda é a forma como captam receitas.

Mas o essencial é mesmo isso: o futebol é um negócio. Especialmente para os americanos que compram clubes para ganhar dinheiro.
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De Anaid a 08.08.2017 às 09:53

Óbvio que se olharmos só para esse "lado do mundo', não é um negócio tão diferente do que de outras empresas fazem. No fundo o futebol é um negócio como outro qualquer. E se contribui para a sociedade mais ou menos que a Microsoft por exemplo, depende de quem perguntar (o meu avô de certeza optaria pelo futebol já que nem sabe o que é um computador). Agora a questão é: que tipo de sociedade queremos ter? Uma sociedade em que se gastam milhões com 1 jogador de futebol ou pagam se milhões a 1 CEO enquanto há milhões trabalhadores que ganham 1 salário mínimo e há pessoas a viver na rua? Isto até pode ser 'culpa" das pessoas que pagam e gostam de ver os jogos, e o mercado assim o permite e valoriza. Mas não me venham dizer que sempre uma coisa assim foi feita, ou é 'assim que o mundo funciona", que por isso não é imoral. No tipo de sociedade que eu gostaria que vivessemos haveria uma preocupação pelo outro, e se bem que podemos fazer o que bem entendermos com o "nosso' dinheiro, enquanto houverem pessoas a dormir na rua e pessoas que tentam sobreviver com salários miseráveis, este tipo de negócios são imorais. E a demonstração que falhámos enquanto sociedade! Depois pouco vale dizer que se faz voluntariado e que os clubes doam muito dinheiro para fundações (outro negócio que só ajuda a perpetuar a pobreza). Uma sociedade que permite isto é imoral. Mas esta é só a minha opinião.
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De João André a 08.08.2017 às 14:57

Foi precisamente esse o ponto do meu post: se não condenarmos os super-ricos, então não faz sentido criticar o negócio de Neymar. Se criticamos o negócio de Neymar, temos que criticar os super-ricos.
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De kika a 08.08.2017 às 12:34

Convenci-me que as coisas obscenas só se aplicavam
ao Cristiano Ronaldo. Será por isso que este post tem
poucos comentários ? Onde estão os que o denigram de
forma tão agressiva ? Os outros podem ter sucesso na carreira
e serem ricos e badalados . Só o que diz respeito ao nosso
compatriota é obsceno . Hipócritas
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De João André a 08.08.2017 às 14:58

Há quem critique Ronaldo por ganhar dinheiro? Não dou muito por isso, é assunto que não me interessa por aí além.
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De kika a 08.08.2017 às 15:28

Tem toda a razão.
Pessoalmente só fico incomodada com os que não
ganham para viver normalmente e com pouco para
a saúde e educação dos filhos.
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De rentap a 08.08.2017 às 23:39

A beleza e a eficiência do capitalismo é esta! Não há preços fixados na secretaria. É a lei do mercado. É uma aposta que pode correr bem ou mal. Daqui a 5 anos veremos.

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